quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Capítulo 6 - A Caixa de Pandora

Após o sexto insistente toque, Kal puxou o gancho do telefone e com um ligeiro temor colocou-o na altura do ouvido direito. Nos dois primeiros segundos torceu para que fosse um engano e que seus piores pensamentos não se concretizassem. Naquelas férias, por inúmeras vezes, ele assistiu a filmes na televisão em que telefones explodiam ao serem atendidos, mas achou que ninguém que ele conhecia tinha esse estilo.

- Boa noite, pequeno Foster.

Todo o sangue de Kal congelou ao ouvir aquela voz grave que penetrou em seus ouvidos e o fez oscilar em cima dos joelhos. Somente uma pessoa o chamava de pequeno Foster. E não era o mais carinhoso de todos, muito menos o seu predileto. Era Kricolas.

- Gostou do meu show? – falou mais uma vez, com se nem ao menos se importasse de ter alguém consciente do outro lado da linha – Tenho muito mais criatividade do que esses humanos bobocas que se dizem mestres de espetáculo.

- O que você quer? – perguntou Kal reunindo toda a coragem que ainda tinha.

- Conseguir um pouco de divertimento, mas meu prêmio maior seria você. – disse Kricolas em um tom anormalmente sereno – E veja como isso soa romântico. Parece até mesmo um pai pedindo para o filho retornar ao lar.

- Já não nos causou sofrimento demais?

- Não venha falar de sofrimento comigo! – retorquiu com fúria – Você e seus malditos antepassados Foster arruinaram meus planos por diversas vezes! Aquele primeiro e amaldiçoado que tive o gosto de matar destruiu meu mestre e nossos seguidores, e então seu filho, argh! Garner Foster! MISERÁVEL, nunca tive a oportunidade de beber aquele sangue! Construiu Warren e deixou-me apodrecendo por quase um milênio! Depois, seu querido pai, Adonis Foster, um perfeito intrometido para completar a linhagem. Meteu-se onde não deveria e fui obrigado a matá-lo. Sem falar nas outras tantas gerações de Foster que comandaram aquele maldito cativeiro que me consumiu quase por inteiro. Mas você, pequeno Foster, é o meu favorito, a minha sina... me pequeno milagre. Devo dizer que você ganhou o meu respeito por ter sobrevivido ao feitiço que matou seu pai, é claro que...

- Cale a boca! Cale a boca! Não fale do meu pai! – gritava Kal, enquanto Guine, Daimon e Sara olhavam para ele preocupadíssimos.

- Não ouse me interromper, se não irei pessoalmente me certificar de que você jamais fará isso de novo. – retrucou Kricolas com impaciência. Neste momento, Kal fez menção em largar o telefone, mas como se estivesse sendo observado de perto, o meio-vampiro rugiu.

- Não desligue, ou os pais de sua amiguinha humana sofrerão.

Kal sentiu toda a seriedade na voz de Kricolas e apenas assentiu que sim esperando que tivesse sido entendido.

- Como dizia antes de ser interrompido, – prosseguiu numa voz cordial – aquele dia você somente sobreviveu graças ao presente de Cacius. Aquela ametista sugou o meu feitiço e permitiu que você vivesse para sofrer mais um pouco. Mas foi bom que tenha acontecido. Tenho planos para você este ano, pequeno Foster. Como lhe disse na Cidade dos Elfos, meu mestre mora em você e com um pouco da minha ajuda e os exercícios certos ele poderá renascer em meio ao sangue que um dia o destruiu. Não seria irônico?

- Eu nunca vou cooperar com você! – disparou.

- Com a motivação correta irá sim, irá sim...

- O que você quer de mim ainda, Kricolas? Não se dá por satisfeito? Você matou os pais de Guinevere, e toda a família de Thalis – disse Kal puxando as informações da memória – Mais recentemente Mardo, não é? Para quê isso? Por que causar sofrimento nas pessoas? Monstro! – berrou Kal e teve certeza de que todos ao alcance de uns dez metros ouviram-no com clareza.

- Você ainda não descobriu qual o meu objetivo? Quer que eu desenhe? – debochou – Ora, pequeno Foster, pode ter coragem e determinação, mas não tem um bom cérebro. Eu não faço as pessoas sofrerem, apenas julgo se elas são descartáveis ou não para o meu propósito de ressuscitar meu mestre. Você ainda não é descartável, preciso de você vivo. Mesmo que não pareça. Este ataque foi apenas uma forma de me manter vivo em sua memória. E também tenho uma motivação pessoal de irritar os homens do governo. Uric Scheiffer, ainda o pego...

- Você nunca o pegará! Ele é um... – Kal parou abruptamente percebendo que Kricolas não estava mais do outro lado da linha após ouvir o sinal do telefone.

Kal colocou-o no gancho e olhou para Guine e Daimon, apático. Os dois o encararam com certa curiosidade, mas decidiram não comentar nada na frente de Sara. Kal, no entanto, não a poupou de nenhum detalhe da conversa, imaginando que algum guarda de Warren iria desmemoriá-la ainda naquela noite, como sempre faziam com não mágicos quando estes descobriam algum segredo sobre os bruxos.

- Quer dizer que Kricolas fez toda essa barulheira para chamar a sua atenção? – indagou Guinevere, incrédula – Ele não queria mesmo matá-lo? Ele fez aquelas criaturas o arrastarem para um lugar vazio apenas para assustar?

- Foi o que pareceu. – confirmou Kal, secamente.

- Quem é Kricolas? – perguntou Sara mostrando-se por fora do assunto dos amigos – Quem são vocês? Ou o que são vocês? Quem são aquelas criaturas e por que elas atacaram a todos no circo sendo que esse tal de Kricolas só tinha interesse em vocês três?

- Kricolas é um meio-vampiro sanguinário em busca de vingança pelo seu mestre morto por nosso antepassado, ah, ele também quer ressuscitá-lo usando um artefato mágico que ele roubou ano passado. Somos bruxos, mas ainda assim humanos como você ou qualquer outra pessoa. E respondendo a última, Kricolas ordenou esse ataque em massa porque ele é pirado. – respondeu Daimon, quase perdendo o fôlego porque estavam andando apressados até o carro dos Chiabai.

- Vocês? Bruxos? – repetiu incrédula.

- Levitoriano! – disse Kal acertando uma lixeira e fazendo-a levitar – Acredita agora?

- Bruxos não existem! Magia não existe!

- Existe sim, e aqui estamos nós. Também existem fadas, elfos, saci, curupira e tudo o mais que você leu em livros ou ouviu em histórias. – retorquiu Daimon com seriedade.

- Sara, é muito importante que tudo o que você viu hoje seja mantido em segredo. – disse Guinevere olhando fundo nos olhos da garota.

- Não há com o que se preocupar, Guine, alguém irá desmemoriá-la. – falou Kal.

- Você quer dizer, fazer eu esquecer tudo o que aconteceu? – perguntou com a mão na cintura – E se eu não quiser?

- Eles te amarrarão e farão assim mesmo. – finalizou Daimon, sem demonstrar nenhum tipo de ressentimento.

- Não podem! Não quero! – exclamou furiosa.

- E não iremos. – disse uma voz. Era Ivo – O que ainda fazem no parque?

Por um momento, Kal pensou em falar da ligação que recebera, mas achou que aquela informação não era necessária para Warren. Seu bom-senso dizia que sim, mas um lado de seu cérebro ficara relutante em contar. Esse lado venceu.

- Estamos saindo. – desculpou-se Kal.

- Não quero que apague minha memória! – disse Sara com bravura.

- E como já disse, não vou. Tenho ordens para deixá-la como está. No entanto a memória de seus pais já foi alterada. Como a de todos os outros não mágicos no parque. – informou Ivo.

- E por que ainda estão gritando? – perguntou Daimon olhando para trás e vendo ainda um resquício de pessoas desesperadas.

- Eles, agora, acham que os Griphons são vândalos disfarçados. Pobres ignorantes...

- Hei! – resmungou Sara.

- Desculpe. – disse honestamente – Sem enrolação, quero que vocês vão imediatamente. – frisou – É muito importante que fiquem seguros.

Os quatro acenaram com a cabeça e correram desenfreados. Sara sentiu um alívio imenso em sua cabeça sabendo que não perderia parte de suas lembranças, mas ainda seria difícil para ela aceitar que tinha amigos com poderes mágicos e que na cola deles havia um meio-vampiro assassino.

- Vocês têm mais algum inimigo? – perguntou.

- Kricolas não é nosso inimigo em particular. – respondeu Kal – Ele é inimigo de toda a comunidade mágica.

- Comunidade mágica? Quantos mais de vocês existem?

- Milhões no Brasil. Existem bruxos vivendo por todos os cantos, até mesmo embaixo da nossa lagoa. – disse Kal, como se o que estivesse falando fosse a coisa mais sensata do mundo para um não mágico.

- O quê? – espantou-se – Eu tomava banho lá quando era criança.

- Aquele é um lugar novo para os bruxos. Mas existem outros lugares muito mais antigos do que o próprio Brasil, entende?

Sara assentiu, mas resolveu continuar com o questionário.

- Onde vocês aprendem a fazer magia?

- Em uma escola, naturalmente. – respondeu Daimon.

- Será que um dia eu poderia conhecê-la?

- Duvido muito. Humanos sem poderes mágicos não têm acesso às cidades mágicas. Já é uma grande coisa você poder saber da nossa verdadeira existência. – disse Guine.

- Não entendo ainda por que permitiram que você soubesse de tudo. – disse Daimon, reflexivo.

- Ivo disse que tinha ordens de não trabalhar com a mente de Sara. Mas de quem será a ordem? – questionou-se Kal.

- Olha lá os meus pais.

Sara correu por entre os outros carros do estacionamento até que finalmente alcançou os braços abertos de Alexandre e Mara Chiabai.

- Graças a Deus vocês estão bem. – disse Mara – Dois policiais nos disseram para esperarmos aqui... não pudemos fazer nada... Kalevi! Este braço, está, está... – gaguejou procurando a palavra certa – Horrível!

- Está tudo bem comigo, sério. – disse meio que sem confiança enquanto segurava o braço contra o corpo.

- Depressa. Quanto mais rápido sairmos, mais seguros. – disse Alexandre já segurando a chave do carro.

Kal abriu a porta de trás do sedan e entrou com tanta pressa que nem ao menos reparou que sentara em um envelope amarelo. O carro foi ligado e em alguns minutos de estrada, os quais foram usados para comentar a “rebeldia dos jovens que atacaram o parque”. Os quatro garotos entreolharam-se e por um momento Sara sentiu inveja da inocência a que os pais foram forçadamente submetidos.

Alexandre guiou o veículo até alcançar a extremidade máxima da Rua Guaçuí. Kal, Daimon e Guinevere saltaram do carro atentos para qualquer movimento ao redor deles. Os três agradeceram aos Chiabai pelo “passeio” e despediram-se. Antes que o carro sumisse de vista, Sara gritou para eles que na manhã seguinte, logo após o café, ela iria visitá-los para continuar o assunto da noite. Na verdade foi um “Até amanhã cedo”. Mas podia sim ser interpretado dessa forma.

Kal abriu o portão utilizando a varinha, não queria perder nem um segundo do lado de fora procurando a chave certa. Atravessaram o jardim, fortemente vigiado pelas estátuas vivas que ganharam da Rainha Eva. Alguns gnomos apenas balançaram a cabeça ao vê-los passando, outros correram para escoltá-los até a porta.

- Obrigada. – agradeceu Guinevere, alisando a careca de um deles.

- Meninos! – disse Amanda saltando do sofá em direção à porta – Vocês nunca mais sairão à noite!

- Estamos bem, mãe. Não se preocupe. Soubemos nos defender.

- E os guardas de Warren? Não apareceram? – perguntou indecisa.

- Sim. Um tal de Ivo Gostuânia nos ajudou também. – respondeu Kal.

- Por Merlin! Apenas um?

- Não sei dizer, mas acho que havia outros sim. O movimento dos Griphons foi rapidamente contido, depois que o Ivo se identificou como guarda. Acredito que outros tenham lutado por lá. – prosseguiu Kal.

- E os Chiabai? Como estão?

- Acredite, estão melhores do que a gente. – disse Daimon – Os guardas tiraram a memória deles e de todas as outras pessoas que estavam lá. Fizeram todas acreditarem que foi um ato de vandalismo.

- Quase todas, Daimon. – corrigiu Guine.

- Como assim?

- Sara Chiabai teve a memória preservada.

Amanda levou uma mão à boca e caiu sentada no sofá.

- Mas por quê?

- Ivo disse que ele tinha ordens de não mexer com as lembranças dela. – informou Kal, vagamente.

- Quer dizer que ela sabe dos Griphons?

- E de nós também. – Kal resolveu omitir mais uma vez a parte sobre Kricolas.

- Por mil escamas de dragões... quem deu essa ordem?

- Não sabemos. – disse sinceramente, Guinevere.

- Amanhã falarei imediatamente com o professor Cacius. Agora, tomem um banho e durmam. Não quero saber de mais nenhum detalhe desta noite, ou nunca mais conseguirei dormir. Kal, filho, depois do banho vá até meu quarto para cuidarmos deste ferimento. – disse ela apontando para o braço ensangüentado do garoto.

Kal não se importou em nada em não ter que contar a mãe sobre suas aventuras dentro do circo e no trem fantasma. Sentiu apenas uma imensa vontade de limpar todo o corpo com água fria, tratar o braço ferido e ir dormir. Uma noite de sono seria o suficiente para refrescar a sua mente de tudo aquilo. Na manhã seguinte, Sara chegaria até eles com uma vasta lista de perguntas e sem saber por que, Kal sentia-se na obrigação de respondê-las. Más só amanhã... Pensou.

Muitas horas depois, Kal foi acordado por um irritante raio de sol que penetrou pela janela e repousou bem em cima de seus olhos. Uma noite de sono não fora o suficiente para recuperar os ânimos do garoto que levantou soltando impropérios que acordaram Daimon em seguida.

- Bom dia... – falou Daimon, espreguiçando-se em meio a um longo bocejo.

- Bom dia. – respondeu Kal acompanhando o irmão no bocejo – Isso pega...

Os dois desceram até a cozinha, ainda de pijamas, para tomar o desjejum. Lá estava Guinevere, que sempre levantava cedo, não importando a ocasião, e Amanda que estava segurando uma garrafa de café quente na mão quando os dois entraram fazendo barulho com o arrastar de pés.

- Dormiram bem? – perguntou Amanda – Porque eu não. Um dia meu coração ainda escapole pela boca. Se eu pudesse enviá-los mais cedo para Avalon eu ficaria muito mais tranqüila. Mas as Repúblicas ainda estão fechadas e não quero incomodar a Rainha Eva com minhas preocupações maternas.

- Tudo bem, mãe. Não há perigo aqui em casa. Estamos bem protegidos. – tranqüilizou Kal, imaginando que talvez a mãe mudasse de idéia quando ouvisse Cacius dizer que Cidade dos Elfos não era mais um lugar seguro.

- Olhe para o seu braço! Isso é proteção? – apontou para os ferimentos do garoto.

- Não vai passar disso. – falou Kal mantendo a calma.

- Não vai mesmo! Daqui vocês não saem mais. – disse em definitivo – Nem mesmo de dia. Não posso arriscar perder vocês. São tudo o que eu tenho...

Os três puderam sentir a comoção na voz de Amanda e não quiseram chateá-la com desculpas de que lá fora não era perigoso. Afinal, faltavam apenas duas semanas para as aulas recomeçarem em Avalon e na Cidade dos Elfos eles teriam muito mais liberdade para agir.

- Ok, mãe. Combinado. Não sairemos mais... – disse Daimon tentando disfarçar o desânimo.

Os quatro sentaram-se para tomar o café e comer um pão feito pela própria Amanda. Os programas de culinária que ela assistia na televisão estavam realmente valendo a pena. A cada dia ela aparecia com uma massa diferente de pão e bolo, além de receitas de sobremesa de encher os olhos e a boca com saliva.

Kal ainda estava com seu último pedaço de pão a meio caminho da garganta quando a campanha do portão de entrada tocou. De imediato ele soube que era Sara. Ele apressou-se a tomar mais um gole de café para facilitar a descida do alimento e correu para o segundo andar a fim de se trocar.

Ele subiu a largos passos pensando no que Sara perguntaria ainda. Afinal, ela já sabia que eles eram bruxos, que eram perseguidos por um meio-vampiro e que as criaturas da noite anterior serviam a ele, Kricolas. Kal inclusive usara a varinha na frente dela. E ainda tinha Ivo que revelou à garota sobre o que ele e os outros de Warren estavam fazendo com os não mágicos e que fizeram o mesmo com o senhor e senhora Chiabai.

Kal retirou a primeira peça de roupa do guarda roupa e jogou-se dentro dela o mais rápido que pôde. Ainda estava enfiando uma das mãos na manga da camisa quando retornou ao primeiro andar. Sara estava de pé ao lado de Amanda, Guinevere e Daimon. Amanda estava séria e ordenou que os quatro a acompanhassem até a cozinha. Eles seguiram em fila. Sara parecia mais nervosa que os demais. Não podia ser diferente.

- Sara, - começou Amanda olhando bem nos olhos dela – precisamos que entenda que não somos pessoas ruins. Eu sei como os não mágicos deterioraram a história dos bruxos através dos séculos. Nos associam a tudo o que é ruim, mas não é bem assim. Existem bruxos bons e bruxos ruins. Nós somos os bons e ontem você viu o que bruxos ruins são capazes de fazer. Compreende?

A garota acenou que sim com a cabeça, parecia menos nervosa naquele momento.

- Por que vieram para cá? – perguntou, honestamente, imaginando-se por que uma família de bruxos se mudaria para uma cidade habitada somente por humanos comuns.

- Coisas terríveis aconteceram conosco no ano passado. – respondeu Kal percebendo que sua mãe seria incapaz de responder a essa pergunta simples.

- Que coisas? – insistiu.

- Desculpe, mas essa é uma ferida que está cicatrizando ainda. Não queremos remoê-la. – disse Amanda em tom convincente.

- Nossa vizinhança corre algum perigo com vocês estando por aqui?

- No tempo em que vivemos, todos os humanos correm perigo. Bruxos ou não. - prosseguiu Amanda com temor na voz.

- Como assim? – indagou mais uma vez Sara, mostrando-se obstinada a obter todas as informações.

- Essa história pode ser muito maior do que pensa. – iniciou Guinevere – Mas vamos fazer um breve resumo.

Ela concordou com a cabeça.

- Há alguns anos, o meio-vampiro, Kricolas, fugiu da penitenciária de Warren. – informou Kal – Ele tinha um mestre chamado Donnovan, que foi destruído por um antepassado nosso. Enfim, como Daimon explicou para você ontem, Kricolas roubou um artefato mágico poderoso para ressuscitar o tal mestre. Donnovan é um bruxo cruel e que odeia não mágicos. Ele quer acabar com todos vocês.

- Quer dizer... eliminar todos que não tiverem poderes como vocês?

- Isso. – confirmou Daimon – Mas acreditamos que ele vai querer uma vingança antes. Por isso estamos aqui. Nos escondendo.

- Pai! – exclamou com a mão na boca – Vocês correm sério risco de vida...

- Nem tanto. – interrompeu uma voz.

Quando Sara percebeu que o falante era um gato cinza que estava sentado no parapeito da janela ela deu um salto para trás.

- Esse gato... ele fala? – perguntou incrédula apontando para o felino com o indicador direito enquanto a mão esquerda segurava o queixo para que não caísse.

- Mais respeito! Eu não sou um gato. Sou um guarda de alto-posto em Warren. – declarou.

- Algum problema, Stuart? – perguntou Amanda reconhecendo o gato.

- Vim apenas conferir se está tudo bem por aqui.

- Estamos. – disse Kal.

- E a garota? – perguntou espiando Sara – Soube que Uric deu uma ordem para não desmemoriá-la.

- Uric Sheiffer permitiu isso? – questionou Amanda.

- Sim, senhora. Uric é o único em Warren que tem poder para essa decisão.

- Stuart, o Folha Mágica publicou alguma coisa sobre o incidente de ontem? – indagou Amanda mudando de assunto.

- Sim, em uma notinha de rodapé. Eles ocuparam todo o jornal com uma única e grandíssima matéria.

- Que tipo de matéria poderia ser de maior destaque do que um ataque de Griphons em uma cidade não-mágica?

- A de um roubo muito, muito estranho. Também realizado por Kricolas. – disse o guarda.

- E quem foi roubado? – perguntou Sara já se sentindo parte daquilo tudo.

- O fauno Saguior. – respondeu Stuart com uma má vontade estampada em seus olhos felinos por estar dando informações a uma simples garota humana.

- Saguior? – duvidou Kal – O fauno que faz parte do Conselho de Magia?

- O próprio.

- O que foi roubado dele? – perguntou Amanda curiosa.

- Leiam vocês mesmo. – disse o gato estendendo a cauda, que enrolava o jornal.

O mal pode estar à solta

Foi roubado da Biblioteca Central da Cidade do Norte, ontem, um dos artefatos mágicos mais antigos e controversos da antiguidade. O artefato era guardado em sigilo pelo fauno Saguior que amargamente lamentou a perda. Segundo ele, pela manhã uma garota chamada Tamisa Spineli apareceu na biblioteca procurando um inocente livro de poções, ele a deixou sozinha por um tempo e segundo suas suspeitas ela averiguou onde ele guardava o artefato.

Na mesma noite, Saguior foi surpreendido por ninguém menos do que Kricolas. O meio-vampiro parece estar colecionando artefatos mágicos antigos. No ano passado, ele localizou o lendário Livro de Merlin, carregando-o consigo. No entanto, Saguior tem seus temores, pois o artefato mágico em questão era nada mesmo do a Caixa de Pandora.

Segundo lendas populares e alguns relatos históricos, a Caixa de Pandora abriga os males do mundo. Emoções terríveis, como, ódio, inveja, desprezo... Questionado pela nossa equipe o por que dele estar com a caixa, Saguior simplesmente respondeu “protejo a caixa muito antes de todos que existem no mundo usarem fraudas”. Sabe-se que Saguior é uma das criaturas mágicas mais antigas existente, mas não sabemos o quanto. Essa informação a nós não foi revelada.

Alguns bruxos que trabalham no Departamento Secreto do Governo acreditam que Kricolas pretende abrir a caixa e lançar sobre a Terra um reino de maldições, mas o enigmático Cacius Henrique, diretor da Escola de Magia e Feitiçaria de Avalon, rebateu a teoria dizendo que nenhuma pessoa com más intenções poderia remover a tampa da caixa.

O novo Ministro da Defesa e Segurança Mágica, Dorian Gulemarc, afirmou que Saguior cometeu um grave erro ao não passar a responsabilidade de proteger a caixa para o governo. Segundo o ministro, Saguior possui um temperamento egoísta e de difícil compreensão, mas ele não acredita que o fauno seja totalmente inocente nessa história. “Admito que Saguior é um dos seres mais poderosos que já conheci. Por tal fato, não acredito que alguém pudesse arrancar qualquer coisa dele, mesmo esse alguém sendo Kricolas. Se Saguior foi confiado à caixa ou não, jamais saberemos ao certo, mas para mim ele facilitou o lado dos vilões. Por isso abri uma investigação minuciosa e esta noite teremos uma reunião no Conselho de Magia para decidir o futuro dele”, disse hoje cedo em nossa redação.

O que nós cidadãs podemos fazer é torcer para que os problemas se resolvam e os culpados sejam punidos com a varinha da lei.

- Inaceitável! – exclamou Amanda – A Caixa de Pandora! Aqui, no Brasil! Na Cidade do Norte... não faz sentido...

- Estou tão surpreso quanto a senhora. – disse Stuart – Esperaremos até à noite para sabermos o que vai acontecer a Saguior, mas duvido que o ministro vá facilitar o lado dele.

- Isso tudo é injusto. – protestou Kal – Saguior nunca faria nada para prejudicar ninguém.

- Você o conhece? – perguntou Sara perplexa com todas aquelas novidades.

- Sim. – respondeu. Guinevere e Daimon o olharam curiosos – Por que não vamos lá pra cima. – sugeriu – Mamãe e Stuart devem estar querendo conversar.

Antes mesmo que Amanda fizesse um sinal em protesto, Kal já havia desaparecido da cozinha com Daimon, Guine e Sara em seus calcanhares.

Os quatro subiram agitados até o quarto de Kal e Daimon. Kal olhou para o lago pela janela e começou a falar.

- Quando Cacius me levou até Celacanto. – disse apontando para o centro do lago – A cidade que eu disse ficar lá no fundo. Pois bem, fomos até lá e eu entrei com ele na sala de reuniões do Conselho de Magia. Saguior estava lá também. Mas quando foi realizada a votação para eleger o novo ministro, nós dois tivemos que nos retirar e Saguior me levou para uma sala de treinamento, ou sei lá o que era aquela sala. Enfim, ele me ensinou um feitiço de proteção diferente do Réplica. O mesmo que usei para nos proteger dos Griphons, Sara – disse olhando fixamente para a vizinha com cumplicidade – Dorian Gulemarc insultou Saguior e Cacius o defendeu com unhas e dentes, entendem o que eu digo?

- Cacius tem plena confiança nesse Saguior. – adivinhou Daimon.

- Exato! Cacius não costuma se enganar quanto as pessoas. E Saguior também me pareceu ser digno de confiança.

- Acha que Dorian está inventando coisas, então? – indagou Guinevere, Sara assistia a tudo impassível.

- Dorian é o pior tipo de bruxo que já conheci. – comentou Kal.

- Pior do que o Kricolas? – questionou Sara ajeitando-se na cama onde estava sentada.

- Muito pior. Ele é mascarado. Disfarça seus planos e artimanhas. Ele armou para cima de Bernardo Mcflex, lembram-se dele?

- Escritor da Terra? – certificou-se Guinevere.

- Ele mesmo. Com investimentos do setor em que Dorian trabalhava, Bernardo produziu um pó capaz de esfumaçar qualquer pessoa para qualquer lugar. Como ninguém além de Bernardo sabia que o produto fora custeado pelo governo, Dorian quis lucrar um pouco, mas foi desmascarado em frente ao conselho, porém deu a volta por cima e culpou Bernardo e se não fosse pela interferência do pai de Ralph estaria preso agora.

- Que horror! – espantou-se Guine – Mas qual o propósito de manter Saguior longe?

- Isso eu já não sei. Mas tenho certeza de que ele fará de tudo para mandar Saguior para Warren. – concluiu Kal.

- E esse Cacius? Não fará nada? – perguntou Sara, por dentro do assunto.

- Cacius é apenas um membro do Conselho, seu voto pode não fazer diferença. – desanimou Kal – Fazendo as alianças corretas, Dorian poderá conseguir o que quiser. Ainda mais agora no posto de Ministro da Defesa e Segurança Mágica.

- E o que vocês podem fazer a respeito? – indagou Sara, erguendo-se da cama.

- Eu vou até a Celacanto hoje à noite. – disse Kal com um tom aventureiro na voz.

- Tia Amanda disse que não deveríamos sair mais de casa. – protestou Guinevere com bravura.

- Não vou sair de casa. Celacanto está no meu quintal. – respondeu Kal ironicamente.

Guinevere levou uma mão na testa em ar de derrota e disse:

- Ok. Kal, não nos deixariam participar da reunião. Não somos membros do conselho!

- Eu sei, Guine. Mas quero estar lá, não importa o quanto custe.

- Tudo bem, nós vamos. – frisou – Não vou deixar você sair por aí sozinho.

- Posso ir também? – perguntou Sara posicionando-se na janela para ver o lago.

- A sorte lhe sorriria mil vezes antes que te deixassem entrar em uma cidade mágica. – respondeu Daimon com um sorriso nos lábios.

- Como assim?

- Existem vários encantamentos que protegem nossas cidades da presença de na mágicos. – respondeu.

Sara baixou o rosto em desânimo, mas não se deixou ficar abatida, logo o ergueu e disse com um perceptível ar de alegria recheando cada uma de suas palavras.

- Estou honrada por vocês estarem compartilhando tantos segredos comigo. Estou mesmo. Nunca imaginei que um dia estaria conversando com bruxos de verdade, muito menos descobrir que o lago em que passei metade da minha infância é uma cidade mágica. Sabe, este está sendo o melhor ano da minha vida e espero que ele só fique melhor até o final. Saibam que o segredo de vocês está seguro comigo, não sei como poderia provar isso, mas espero que minha palavra baste. Já os considero amigos e torço para ser correspondida. – neste momento ela fixou sua atenção em Kal que ficou levemente corado – Qualquer ajuda que precisarem vocês sabem onde me procurar. Agora, tenho que ir.

Sara deu um sorriso de despedida e saiu do quarto tranqüilamente, dali era possível ouvir o som que seu tamanco produzia no assoalho e meio segundo depois ouviram ela se despedindo de Amanda.

- Acha que ela é confiável? – perguntou Guine a Daimon.

- Acho. – respondeu Kal instintivamente.

- Eu perguntei ao Daimon. – repreendeu Guine.

- E porque não a mim?

- Porque opinião de quem está apaixonado não conta.

Os três amargaram com as horas até o pôr-do-sol. Amanda nem ao menos desconfiava o que eles tramavam. Assim que a lua iluminasse a superfície da água do lago, eles chamariam por Viviane para que juntos pudessem chegar até Celacanto.

No momento em que o sol se pôs, eles prepararam-se para a janta, correndo até a cozinha para fugir dos olhares inquisidores de Amanda comendo alguma coisa. Em seguida, eles sentaram-se no sofá com Amanda para assistirem um pouco de televisão, ela agora parecia ter se acostumado com a magia circulante dentro da casa e já estava funcionando bem melhor.

A lua já brilhava alto lá fora e os três estavam inquietos quando finalmente Amanda subiu para tomar banho eles não perderam tempo para agirem. Correram até a margem do lago e Kal tentou se lembrar de como Cacius fizera para chamar a mulher da gôndola.

- Talvez eles mantiveram contato mental. – sugeriu Daimon.

Kal forçou sua memória e aproximou-se ainda mais da margem do lago. O vento já empurrava a água até seus pés, como antes. Ele sacou a varinha e com a sua ponta tocou a superfície do lago. Imaginou que Cacius pudesse ter usado um feitiço, mas ele não se lembrava de tê-lo ouvido usando, ou ter visto algum efeito, geralmente os feitiços produziam clarões bem perceptíveis.

- Viviane, você pode vir nos buscar? – perguntou Kal, por impulso.

Uma névoa cobriu toda a extensão do lago, como se ele estivesse evaporando rapidamente.

- O que é aquilo? – perguntou Guinevere apontando para uma sombra que se aproximava. Era Viviane com sua gôndola, sem remos ou motores.

- Boa noite, meninos Foster. Boa noite para você também senhorita Lingenstain. – saudou Viviane – Podem subir.

Kal subiu primeiro ajudando Guinevere e Daimon em seguida. A gôndola recomeçou a se mover indo em direção ao centro do lago. Viviane estava de braços abertos, a brisa tocando suavemente seus cabelos loiros brilhantes que de tão brancos se misturavam com a névoa.

- Você é uma bruxa? – perguntou Daimon à mulher.

- Quase...

- Um fantasma, então? – prosseguiu.

- Muito próximo a isso... – disse evasivamente.

- Um espírito?

- Está esquentando...

Daimon deu de ombros e resolveu não questionar mais a existência de Viviane.

- Cacius me disse que ela é a guardiã deste lago. – informou Kal, baixinho.

- Chegamos. Segurem-se firme.

Os três seguraram-se nas bordas da gôndola quando ela começou a girar e a descer para o fundo do lago. Guinevere e Daimon sentiram uma aflição por imaginarem-se descendo até o fundo. Cercados por água sem poder respirar.

Alguns segundos depois, seus medos foram perdidos. Estavam agora flutuando e descendo às margens do lago que beirava a cidade de Celacanto.

- Ela é linda... – admirou-se Daimon ao ver as construções em puro marfim.

A cidade estava diferente do que o dia anterior. Outras cinco lojas haviam sido abertas da noite para o dia e a única rua da cidade parecia ter ficado maior, embora o tamanho das demais lojas e do lago não parecia ter diminuído um centímetro.

- O novo ministro quer aumentar o número de moradores aqui em Celacanto e promoveu este aumento repentino. – explicou Viviane percebendo o espanto de Kal – É bem provável que em poucos meses esta cidade esteja tão grande quanto a Cidade dos Elfos.

Kal olhou para ela admirado, mas não questionou mais nenhum assunto. Estava distraído com o número de bruxos que havia lá embaixo. Celacanto fervilhava. Pessoas esfumaçavam a todo o instante, algumas até mesmo já usavam o pó de bobetônia que Bernardo criara.

- É aqui que os deixo. – disse Viviane em uma voz pesarosa – Espero que encontrem o que procuram.

- Obrigado, Viviane. – agradeceu Guinevere gentilmente enquanto desciam do barco.

A mulher inclinou a cabeça em sinal de respeito e desapareceu por entre as brumas que se ergueram.

- Vamos até o Conselho de Magia. – disse Kal, pouco pensativo.

Seguiram caminho por entre a multidão de bruxos, todos muito agitados, falavam alto, por vezes xingavam, faziam gestos estranhos com a mão, mas para eles nada fazia sentido algum. Procurando um rosto conhecido, Kal ergueu seu pescoço o mais alto que pôde. Ele olhava de um lado para o outro atento a cada uma das pessoas. Quando virou-se para a sua direita deparou-se com seu amigo de Avalon, Ralph Scheiffer, filho de Uric, o Guardião-chefe de Warren. Ralph ainda era poucos centímetros menor do que Kal, tinha olhos bem castanhos e um cabelo loiro escuro, pele clara e um pouco queimada de sol.

- Ralph! – gritou Kal ao vê-lo, contente.

Ele virou-se ao ouvir o chamado e abriu um sorriso exibindo seus dentes brancos. Ralph abriu caminho por entre as pessoas e chegou até os amigos.

- Sabia que vocês viriam. – disse olhando de Kal para Guinevere e por último Daimon – Papai disse que vocês estão morando na margem do lago aqui em cima.

- Exato. – confirmou Daimon.

- O que você faz aqui? – perguntou Guinevere.

- Eu reclamei com meus pais por que eles estão me deixando muito tempo sozinho em casa. Na verdade eu não queria mesmo perder a audiência no Conselho de Magia. – admitiu.

- Vai ser aberta ao público? – perguntou Kal, preocupado.

- Não. Apenas algumas poucas dezenas de pessoas com credenciais poderão entrar na sala do Conselho.

- Droga! – praguejou Kal.

- Nós vamos tentar entrar de qualquer modo. – falou Ralph, tranqüilo.

- Como? – perguntou Guinevere.

- Eu tenho meus truques.

Ralph guiou os três por entre toda aquela gente emaranhada que parecia se engalfinhar em uma briga intensa. Eles eram espremidos a cada passo, tinham seus pés pisoteados impiedosamente e nem ao menos ouviam uma palavra de desculpas. Quando finalmente chegaram a um espaço mais aberto, Ralph travou as pernas e disse que não poderiam tentar entrar naquele momento.

- Tem um guarda de Warren vigiando a entrada do Conselho. – apontou para o guarda de capa marrom – Teremos que esperar ele sair dali. Não deve demorar muito. Ele precisará cobrir outra área em pouco tempo. Papai disse que eles não mandaram mais de dez guardas para cá. Todos os outros estão se esforçando para seguir o rastro de Kricolas agora que ele está com a Caixa de Pandora.

- Seu pai falou alguma coisa a respeito? – indagou Kal.

- Não, mas mamãe sim. Ela disse que a caixa é muito mais poderosa do que imaginamos. E não acha plausível que Kricolas consiga abri-la.

- E por que não? – indagou Daimon.

- Parece que antes de ser entregue a Saguior, a caixa passou pelas mãos de Merlin. E bem... sabemos quem é Merlin e o que ele já fez para proteger este mundo. Com sinceridade, aquele velho não dava ponto sem nó.

- Acha que a afirmação de Cacius no Folha Mágica pode ser verdadeira? – questionou Guinevere.

- Meus pais disseram que sim. Eles têm total confiança na palavra de Cacius. Kricolas não poderia remover a tampa da Caixa de Pandora mal intencionado. E não vejo um bom motivo para ele fazer isso.

- Certo. – aliviou Kal.

- O guarda está saindo! – disse Ralph atento – Vamos agora. Não teremos hora melhor.

- Humhum. – concordaram em coro.

- Façam cara de gente importante. – disse Ralph empinando o nariz e estufando o peito.

Quando estavam a poucos metros de distância da entrada surgiu outro guarda, não parecia ser de Warren, mas era um obstáculo.

- Continuem! – ordenou Ralph percebendo que os três já estavam dando meia volta – Bom dia, senhor. – cumprimentou ao guarda já se esgueirando para dentro do prédio.

- Suas credenciais, por favor. – exigiu o guarda.

- Credenciais? – retorquiu Ralph jocosamente em meio a um sorriso cínico – Você sabe quem nós somos?

O guarda analisou a figura dos quatro garotos ali parados em sua frente e levantou as sobrancelhas em sinal negativo.

- Guarda, deixe-nos passar. – disse Ralph outra vez tentando se esgueirar para dentro.

- Ninguém passa por mim sem credenciais. – falou o guarda relutante.

- Deve estar havendo algum engano. – comentou Ralph olhando para os três e depois para o guarda – Escute, recruta, eu sou filho de Uric Scheiffer, Guardião-chefe de Warren e tenho ordens do meu pai para encontrá-lo lá dentro. Se preferir pode você mesmo ir lá dentro e chamá-lo para resolver esta situação vergonhosa. Mas devo adverti-lo que meu pai não é tão paciente quanto eu. – disse em um tom convincente que Kal quase pôde perceber o guarda tremer os joelhos.

- E quanto a eles? – perguntou o guarda apontando a varinha para Kal, Guine e Daimon.

- Nunca-Mais-Faça-Isso! – repreendeu Ralph com a varinha erguida, sua ponta brilhava em um vermelho escarlate – Por acaso você não reconhece as pessoas? Que tipo de guarda é você, homem?

Ralph realmente sabia intimidar uma pessoa quando queria, este era um lado que Kal não conhecia do amigo.

- Estes são os Foster! Entendeu ou quer que eu desenhe? Os Foster! Deve sua vida a eles. Cada um de nós aqui deve. – finalizou dando um longo suspiro de alívio – Agora, se nos permite, temos uma audiência para assistir.

- Sim, senhor.

- Vou fazer vista grossa desta vez, rapaz. – disse Ralph tentando ganhar mais uma vantagem, garantindo que o guarda mantivesse isso em segredo – Meu pai odiaria saber que nós quatro passamos por essa situação, então, se quiser manter o emprego, eu posso ajudar ficando calado.

- Entendi, senhor, desculpe por minha petulância. – falou o guarda covardemente.

Ralph ergueu ainda mais o peito e entrou de rosto empinado quando pisou no tapete vermelho do saguão de entrada. Várias estátuas de bruxos estavam posicionadas ali dentro, alguns outros bruxos de verdade os encararam de modo curioso quando os quatro já estavam a meio caminho do elevador de acesso à sala do Conselho de Magia.

Kal percebeu que Jonas, o bruxo encarregado do elevador não estava ali, o que de certa forma poderia ser um bom sinal. Talvez ele os colocasse em encrencas. Kal aproximou-se mais e puxou a porta com força, mas ela não se mexeu nem um pouco. Impondo um pouco mais de pressão ele obteve o mesmo resultado. Ralph encarou aquela cena com desgosto e num sorriso simples disse.

- É assim, olha. Elevador, abra.

A porta de bronze do elevador cedeu com um clic e facilmente foi empurrada, dando passagem para os quatro.

- Como você sabia o que dizer? – indagou Kal.

- São sempre a mesma coisa, elevadores, portas, tudo isso... – respondeu.

- Este elevador aqui não é igual ao do Hospital Nautilos, é? – questionou Guinevere temerosa quanto ao equipamento assassino que se chamava elevador na pequena cidade de Dunas, próxima a Vila da Cachoeira.

- Não mesmo. – tranqüilizou Kal apertando o botão SS para descerem até a sala do conselho.

A descida foi rápida o bastante para não dar tempo deles iniciarem um diálogo. Assim que a porta se abriu, Ralph saiu agachado ordenando que eles fizessem o mesmo para não serem vistos por seus pais.

- Você não disse que era uma ordem deles você estar aqui? – questionou Kal.

- Acreditou mesmo naquilo que eu disse ao guarda? – riu-se – Não sabia que eu mentia tão bem assim.

- Não acredito que somos penetras... – decepcionou-se Daimon.

Bravamente, os quatro permaneceram agachados lutando contra o esforço de seus joelhos em se manterem naquela posição e contra os olhares indiscretos das pessoas ao redor e em pouco menos de dois minutos haviam entrado na sala do conselho.

Eles vislumbraram o teto abobadado e Ralph apontou para cadeiras lá em cima.

- É lá que devemos ir.

Eles viraram à direita e subiram alguns degraus que os lavariam para um lance de escadas que era o real caminho até os assentos.

Subiram correndo com medo de ainda serem avistados pelos pais de Ralph ou alguma outra pessoa que pudesse tirá-los dali. Lá em cima, eles estariam seguros, pois era onde ficavam as pessoas credenciadas e certamente nenhuma delas iria questioná-las sobre qualquer coisa.

Kal procurou lugares na beirada do para-peito, de forma que pudessem visualizar a reunião de forma privilegiada. Não demorou muito tempo depois que se sentaram e logo todos os membros do conselho estavam ocupando seus assentos, inclusive Cacius que estranhamente piscou para a direção de onde eles estavam.

- Como ele pode saber tudo? – bufou Ralph.

- Boa noite, membros do conselho. – saudou Timas Havany, Ministro da Comunicação Mágica – Esta reunião foi convocada para decidirmos o futuro de um dos nossos membros, o fauno Saguior. A acusação, representada pelo nosso mais novo Ministro da Defesa e Segurança Mágica, Dorian Gulemarc, o acusa de: – disse puxando uma folhinha para cima do palanque e colocando um óculos de leitura – Omitir do Governo Mágico informações importantes sobre um artefato mágico potencialmente perigoso, portar este objeto em segredo pondo em risco a segurança da comunidade mágica e por facilitar o repasse do devido mencionado ao inimigo mais perigoso de todos os bruxos de bem.

Timas fez uma pequena pausa para respirar e prosseguiu.

- Em sua defesa, apresenta-se o Diretor da Escola de Magia e Feitiçaria de Avalon, senhor Cacius Henrique. – disse apontando para a direção de Cacius com o braço esquerdo – Eu desempenharei papel de juiz mantendo neutralidade no assunto como manda o Código de Leis e Ordens Mágicas, assinado pelos bruxos, elfos, fadas e todas as demais criaturas mágicas no ano mil. Tragam o réu.

Uma porta se abriu bem embaixo das escadas que Kal e os outros subiram e dela saíram dois homens com varinhas empunhadas escoltando Saguior que estava com as mãos protegidas por uma bolha dourada, certamente elas impediam que ele usasse seus poderes de fauno.

- Saguior, - prosseguiu Timas – sabe porquê está aqui e porquê está sendo acusado?

- Sim. – disse com convicção.

- E você se considera...

- Inocente. – disse abertamente.

- Está disposto a se submeter a um julgamento justo neste conselho?

- Eu acho isto uma grande palha...

- Responda apenas, sim ou não. – interrompeu Timas.

- Sim. – bufou, entre dentes.

- Eu e com os poderes de juiz a mim concedidos por este conselho, declaro iniciado o julgamento.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Capítulo 5 - Circo dos horrores

Entrando no elevador e apertando o botão que os levaria até a Sala de Reuniões do Conselho de Magia, Saguior ainda parecia levemente irritado. Já usara um feitiço de cura para conter o sangramento do nariz, mas, aparentemente, nada poderia curar seu orgulho ferido.

- Senhor Saguior.

- Sim. – falou o fauno.

- Acha mesmo que os bruxos do conselho me entregariam a Kricolas?

- Não duvido. Aqueles homens e mulheres estão mais preocupados em proteger seus traseiros do que as pessoas que representam. Mas tenha uma certeza, Cacius lutará por você, se preciso.

- Não tenho dúvidas quanto a isso. O professor Cacius sempre me apoiou, em tudo, sabe.

- Típico do velho. Este comportamento patrono.

- Você parece que também tem muito a agradecer a ele.

- Certamente. Cacius sempre esteve ao meu lado quando precisei, e até mesmo quando não era necessário, um pouco intrometido ele é.

Neste mesmo momento a porta do elevador se abriu e os dois depararam-se com uma explosão de aplausos no Salão do Conselho de Magia.

- Parece que realmente terminaram. – comentou Saguior – Vamos lá.

Os bruxos no salão estavam de pé para aplaudir o novo Ministro da Defesa Mágica, Dorian Gulemarc. O empossado subiu ao palanque para fazer seu primeiro pronunciamento como ministro e, obviamente, aprovar a compra do pó de bobetônia pelo governo.

- Senhoras e senhores, é com muita satisfação que assumo este cargo. Ainda mais sabendo que estou substituindo um homem tão competente como foi Mardo, que sua alma descanse em paz. Mas o período é crítico! E não quero ser alvo de chacota dos jornais do nosso país. Vou ser enérgico e altamente eficaz na busca pela ameaça Kricolas. Vamos caçá-lo tão fortemente como fez o jovem Garner Foster, quando fundou Warren há nove séculos. Quero enfatizar, também neste discurso, que estou satisfeito com o trabalho da GAW, liderada por Uric Scheiffer, para manter a ordem no país e a segurança dos protegidos pelo Programa de Proteção a Vítimas e Testemunhas. Bem, para finalizar, gostaria de formalizar meu total apoio ao jovem Mecflex e a sua invenção, o pó de bobetônia. Uma fórmula já será enviada a um de nossos laboratórios para a produção em série. Não se preocupe Mecflex, você receberá os cem milhões de flandres que pediu, mas na minha opinião é um preço abusivo a se pagar. Está na cara que o nosso jovem bruxo é um explorador capitalista.

Mesmo estando longe, Kal pode ver o rosto de Bernardo pintar-se de roxo tamanha a sua fúria com o comentário maldoso de Dorian. Sem mais se conter, Mecflex levantou-se de sua cadeira e gritou para todo o conselho:

- Ladrão, porco miserável! Você bem sabe que foi com o dinheiro do próprio governo que eu produzi o pó de bobetônia! Você quer rou...

Antes de Bernardo conseguir terminar a frase, Dorian empunhou a varinha que usava como microfone e usando um feitiço emudeceu o rapaz.

- Quer dizer que o tempo todo esteve querendo nos enganar, Mecflex? – perguntou fingidamente o novo ministro – Você queria nos vender um projeto que nós mesmos investimos? Onde está sua moral? Respeite este Conselho! Guardas, prendam este rapaz!

Cacius estava impassível em sua poltrona, pela primeira vez não sabia como agir. Uric, que estava ao seu lado, levantou-se e com destreza disse:

- Você pode ser o Ministro da Defesa Mágica, mas quem manda nos guardas de Warren ainda sou eu. Ninguém sairá preso daqui.

- Como ousa desafiar minha autoridade?

- Vai mandar me prender também, Dorian? Consegue mesmo se virar sem a minha ajuda?

Dorian mordeu os lábios com furor, olhou para o restante do conselho e viu que aquela seria sua primeira grande decisão como ministro. E como toda grande decisão, havia dois pontos de vista a serem considerados. Caso ele não enfrentasse Uric seria taxado como um ministro covarde logo em seus primeiros minutos, mas se ele ordenasse a prisão do Guardião Chefe de Warren, ele sabia que seus dias de glória estariam contados. Não havia homem ou mulher mais eficiente para o cargo do que Uric Scheiffer, sem ele no comando das milícias, qualquer rebelde tomaria o controle da situação. Encurralado decidiu.

- Deixe estar, então. Este conselho não apresentará queixa contra Bernardo Mecflex. – Dorian teve muita dificuldade em pronunciar a próxima frase – Mas não pagará a ele nem um mísero centavo pela fórmula. O Conselho está dispensado.

Gulemarc aproximou-se de Bernardo, ainda emudecido pelo feitiço, e apontou a varinha para o rosto do rapaz com um ódio que lhe consumia os miolos.

- Você sabe que eu seria capaz de matá-lo aqui mesmo, não é? A seu filho da mãe! Por esta você me paga, e pagará um preço altíssimo! Perdi muito dinheiro hoje e pôs em risco o meu cargo. Já tive que derrubar muitos obstáculos para chegar até aqui e deles você é o menor. Não se meta no meu caminho outra vez, entendeu? Talvez não haja tantas pessoas para testemunhar contra mim na próxima ocasião.

Dorian vazou pela porta e adiantou-se até o elevador. Kal ainda pôde ver seu rosto extremamente nervoso antes que as portas do elevador se fechassem.

- Findar Spellis! – disse Cacius se aproximando de Bernardo.

- Obrigado professor. – falou enquanto massageava a garganta.

- Foi muita coragem sua peitar Dorian daquela maneira.

- Eu não podia me calar enquanto aquele miserável enriquecia.

- Meus parabéns, meu jovem. – disse Uric dando um tapinha nas costas de Bernardo.

- Obrigado por me livrar da prisão.

- Eu nunca permitiria isso.

- Dorian é um cara-de-pau! – falou Saguior unindo-se ao grupo – E agora, como ministro sabe-se lá o que ele vai fazer. Sinto vontade de esmagar aquele cabeça miúda. Quebrar o corpo dele ao meio como uma vareta!

- Acalme-se, Saguior, acalme-se.

- Tudo bem, Cacius. Não vou dizer que também sinto vontade de afogá-lo numa privada.

Kal soltou uma pequena gargalhada facilmente abafada por sua mão.

- Gostaria de nos perguntar algo, Kal? – indagou Cacius olhando-o fixamente.

- Sim. E como ficou minha situação? Eles querem me entregar para Kricolas?

- O Conselho votou que não. Após descobrirem que você possui o Enid de Donnovan, o Conselho percebeu que só estaríamos armando o inimigo e não o contrário.

- Entendo. Meu pescoço já se sente mais à vontade sabendo disso.

- Bem, acredito que devemos ir agora. Amanda deve estar nos esperando para o almoço.

- Até mais, professor. Boa sorte em seu segundo ano em Avalon, Kal – despediu-se Bernardo.

- Nos vemos por aí, então, Cacius. – prosseguiu Uric – Ah, Kal, quando você, a Guine e o Daimon quiserem ir lá para casa enviem uma carta para o Ralph que iremos buscá-los. Ele ficará muito contente com a visita de vocês.

- Ok. – disse o garoto.

- Nos vemos em outra ocasião. – disse Cacius acenando gentilmente com a mão direita e com a outra guiando Kal até a saída – Aprendeu algo interessante com Saguior hoje?

- Sim. – respondeu – Ele me ensinou uma maneira de se defender.

- Defender? De quem?

- Kricolas. – disse Kal secamente.

- Como se você estivesse planejando ir atrás dele. – falou Cacius num sorrisinho insinuativo.

- Não, é claro que não. Jamais cometeria essa loucura. – mentiu Kal, mas achou que não convencera o professor.

- Sei. – prosseguiu enquanto já andavam pelas ruas esbranquiçadas de Celacanto – Viviane já está a nos esperar, veja.

A mulher de pele clara e cabelos loiros aproximou-se com a sua gôndola vazia, a luz bruxuleante da lamparina em sua ponta iluminava a superfície da água. Viviane esticou uma das mãos para Cacius, auxiliando-o na subida, logo depois fez, o mesmo com Kal. Após acomodarem-se, a mulher abriu os braços e a gôndola partiu, fez uma curva de cento e oitenta graus e partiu rumo ao topo da cidade. O barco levitou e deixou um rastro de água enquanto subia até o teto da caverna. Antes que ele colidisse, no entanto, a visão de Kal foi ofuscada por uma forte luz e quando deu por si estava sendo iluminado por um brilhante sol acima deles.

- Pode nos levar até à margem, Viviane? – perguntou Cacius docemente.

- Sim, professor. – respondeu.

A gôndola prosseguiu viagem envolta em uma luz branca que os escondia. Estavam sozinhos no lago naquele momento, mas as ruas ao redor estavam lotadas por carros e pedestres. Crianças corriam nas margens do outro lado da casa de Kal e seria traria suspeitas uma gôndola medieval trafegar em um lago de cidade moderna.

- Obrigado pela carona. – agradeceu Kal saltando com entusiasmo para terra firme.

- Espero vê-lo em breve, Cacius. – disse Viviane.

- Espero.

Ao ouvir as vozes em seu quintal, Amanda Foster enfiou a cabeça pela janela da cozinha e se apreçou a sair pela porta dos fundos. Correu em direção aos dois, quando chegou Viviane já havia partido. Aflita, ela abraçou o filho fortemente e disse:

- Estava tão preocupada.

- Não havia com o que. – garantiu Cacius – Tudo correu bem por lá.

- Exceto Dorian ter sido escolhido para ministro.

- Isso foi um detalhe, Kal.

- Mas professor, o senhor não foi escolhido? – indagou Amanda de olhos arregalados.

- Tive que recusar, mais uma vez.

- O senhor foi indicado? – questionou Kal duvidoso.

- Sim, mas Avalon me consome bastante tempo e não pretendo parar de lecionar para assumir um cargo no governo.

- Professor Cacius, o senhor não acha que teria sido mais prudente aceitar? O senhor sabe que Dorian Gulemarc é um inconseqüente e irresponsável. – disse Amanda.

- Sim, mas o Conselho terá que perceber isso sozinho. Como eu disse, não pretendo abandonar Avalon. Sou responsável pela escola.

- Entendo. É uma pena que o senhor não possa. Sentiria-me muito mais segura com você no cargo.

- Agradeço pela sua confiança, Amanda.

- Meu filho, vá almoçar logo. Lembre-se que devem estar prontos para sair à tarde.

- Mãe, vamos sair quando estiver quase anoitecendo.

- Sim, sim. Mas é bom se apreçar. – falou ela não dando bola para o que ouvira do filho – Vamos entrar também, professor. Fiz um prato que o senhor adora.

- Feijão tropeiro? – quis saber.

- Bingo!

Fartos de tanto comer, os cinco ajeitaram seus corpos pesados no sofá da sala enquanto assistiam ao jornal local, que iniciou exibindo imagens do litoral rio grandense. Seguindo-se por uma programação do verão.

- Como é festeira essa gente. – comentou Fred, o guarda de Warren, que só agora fora notado no parapeito da janela.

- Bom dia, Fred. – saudou Cacius – Como andam as coisas?

- Seguindo, sabe?

- Não. – disse o professor.

- Oras, trabalhando, lambendo-se e cuspindo bolas de pêlo.

- Oh sim, que higiênico. – falou Daimon.

- É difícil manter o sigilo. Essa vizinhança me persegue. Ainda ontem, aquela Alexia me enxotou da casa dela com uma vassoura.

- E por quê? – perguntou Kal.

- Porque eu estava bebendo numa vasilha de leite.

- Só por isso? – ironizou o garoto.

- Pois é. – prosseguiu – Mas essa gente é fanfarrona mesmo. Ainda hoje três casas esvaziaram-se. Seus donos viajaram para Salvador, na Bahia.

- Anda cumprindo bem o seu papel de vigilante, Fred. – elogiou Cacius – Onde está Stuart?

- Ontem ele foi até Warren. Parece que prenderam um primo dele por engano, sabe? – respondeu – Aí ele foi livrar a cara do parente. Logo deve estar de volta.

- Compreendo. – disse agora Amanda – Os garotos vão sair hoje à noite com uns vizinhos, então gostaria que um de vocês os acompanhasse.

- Oh, mas aonde eles vão? – perguntou por curiosidade.

- Ao parque. – respondeu Kal.

- Ah sim, você vai com a família da sua namorada, não é?

- Ela não é minha namorada. – retrucou Kal corando.

- Que gracinha. – debochou Fred – Bem, agora tenho que ir. Está na hora da minha ronda.

- Até mais. – disse Amanda.

- Ok, até. Não se preocupe, senhora Foster. Eles estarão bem seguros comigo. Vou chamar a Katrini também.

- Ah, sua namorada. – disse Kal vingando-se.

- Bem garoto, cães e gatos não combinam. – disse o guarda retirando-se com um abanar de cauda.

- Os Chiabai passarão aqui para nos buscar ou iremos até a casa deles? – indagou Daimon.

- Podemos esperá-los na praça. – respondeu Kal.

- Certo. – concordou o irmão – Às dezoito horas, não é?

- Isso.

- Parece que terão uma boa noite de divertimento hoje. – falou Cacius sorrindo – Há anos eu não vou a um parque.

- Por que não os acompanha, professor. – sugeriu Amanda.

- Não, hoje não posso. – respondeu – Tenho sérios compromissos em Avalon. Preciso aprontar a escola para receber os novos alunos em fevereiro.

- Tudo bem, então.

- Não se preocupe tanto, Amanda. Os guardas de Warren são competentes no que fazem. – falou Cacius retirando um relógio prateado do bolso e conferindo as horas disse – Bem, já passou da minha hora para falar a verdade. A Rainha Eva disse que gostaria de me ver depois do almoço, não sei do que se trata, mas conhecendo bem aquela elfa não deve ser nada de muito importante. Contudo, ela é a rainha da cidade onde fica o meu castelo, preciso atender a este pedido.

- Até mais então, professor. – despediu-se Amanda – Quando o veremos novamente?

- Não sei responder isso. Depende de como as coisas andarão na Cidade dos Elfos, mas é provável que só os veja no próximo mês. – disse com os olhos concentrados em Amanda – Até mais garotos.

Após a despedida, Cacius transformou-se em uma fumaça roxa e desapareceu.

- Garotos! Acho que seria prudente vocês dormirem esta tarde para não ficarem como zumbis à noite.

- Mãe! – questionou Kal – Dormir?

- Sim, sim, sim. Durmam, quando estiver chegando a hora eu os acordo e vocês se aprontam.

- Mãe... – suplicou Daimon.

- Já! – disse em tom petulante.

Amanda perambulou pela casa por toda a tarde enquanto Kal, Guine e Daimon descansavam para aproveitarem a noite. Ela andou pelos jardins, assistiu novela e quando os ponteiros do seu relógio de pulso sinalizaram dezessete horas, ela deixou de banhar os pés na água da lagoa e correu até o segundo andar da casa para acordar os três.

- Meninos! Levantem! – disse Amanda cutucando Daimon e Kal no ombro – Depressa! Guinevere já está se aprontando.

Daimon e Kal levantaram-se num salto e pouco mais de meia hora depois os três já esperavam pelos Chiabai na praça, sentados nos balanços. Não demorou até que Alexandre Chiabai saísse da garagem com o seu sedan prateado e buzinasse para os três.

- Boa noite, senhor e senhora Chiabai. – cumprimentaram os três.

- Boa noite.

- Oi, Sara. – disse Kal ao entrar no carro e sentar-se ao lado da garota.

- Oi! Oi, Guinevere, Daimon. – disse acenando alegremente.

Os dois sorriram e entraram sem cerimônias.

Durante o caminho até o parque, Alexandre Chiabai sugeriu que antes de irem ao parque de diversões andarem nos brinquedos eles deveriam primeiro assistir à apresentação do Circo Tombada, anexo do parque.

- Existem ótimos mágicos lá. Gosta de truques, Kalevi? – perguntou o homem.

Kal apertou sua varinha contra o próprio corpo e assentiu com a cabeça, um sorriso estranho moldado no rosto.

- Devem haver palhaços lá também. – disse Mara.

- Palhaços? – perguntou Daimon duvidoso.

- Sim. Aqueles que usam uma muita maquiagem, um nariz vermelho, sapatos grandes e contam piadas. – descreveu Mara Chiabai.

- Não me lembro, é como mamãe disse. Faz tempo que não vamos a um... um... é...

- Circo! – completou Guinevere vendo que o amigo estava embaralhado nas palavras.

- Isso mesmo, circo. – aprovou Daimon sem graça.

Aquele dia o trânsito não estava muito movimentado, Alexandre pisou um pouco fundo no acelerador e em poucos minutos eles chegaram ao parque-circo. Sob a iluminação de um enorme letreiro digital estava a entrada do Parque Vitoriano. Uma montanha russa de aço dava a volta pelo parque com subidas e descidas que embrulharam o estômago de Kal apenas de olhar as pessoas gritando lá do alto.

- Olhem isso! – falou Daimon apontando para uma construção de madeira de dois andares, em estilo casa abandonada, janelas de vidro estilhaçadas e na varanda um trilho com três carrinhos em forma de um crânio humano.

- É um Trem Fantasma? – informou Sara.

- Com fantasmas de verdade? – perguntou Daimon muito intrigado.

- Bobo. – sorriu Sara – Como se existissem.

- O que ela quis dizer? – cochichou com Guine enquanto continuavam andando.

- Vamos ao circo, pessoal? – chamou Alexandre guiando-os por entre a multidão de pessoas que se estendiam da entrada do parque até a extremidade final onde estava a entrada da montanha russa.

Na entrada do Circo Tombada, alguns animais estavam expostos ao lado de seus treinadores. Um que chamou a atenção de Kal foi um elefante com suas presas de marfim bem desenvolvidas, mas ainda assim era facilmente preso por uma fina corda presa a um pedaço de madeira enterrado no chão.

- Isso não é perigoso? – perguntou Guine ao reparar como o elefante era mantido preso.

- Quando os elefantes são pequenos, os treinadores amarram suas patas com correntes e as prendem em grossas estacas de madeira. Mesmo depois de adultos, os elefantes acham que estão fortemente presos, e não tentam escapar com medo de machucarem a pata. – esclareceu Alexandre.

- As pessoas estão entrando! – informou Mara – Vamos antes que não sobrem mais lugares.

Os seis entraram em uma pequena fila que começava a se formar diante da entrada do circo e menos de cinco minutos depois estavam procurando lugares nas arquibancadas. O circo tinha o formato de um pedaço de pizza, com o picadeiro na extremidade e o restante do espaço ocupado por uma arquibancada dividida ao meio pelo corredor de entrada, tudo coberto por uma gigantesca lona vermelha e amarela.

As luzes já se apagavam para dar início ao espetáculo quando Kal, Guine, Daimon e os Chiabai finalmente sentaram-se em lugares tão próximos ao picadeiro que podia ver-se o apresentador com mínimos detalhes.

Um homem alto, encorpado, de olhos gananciosos e que usava um terno preto com sapatos tão lustrados quanto os cabelos grisalhos cuidadosamente penteados para trás, segurava um microfone na altura da boca e após uma rápida olhada pela platéia disse em voz entusiasmática:

- Senhoras e senhores! É com grande orgulho que o Circo Tombada inicia o show de hoje, com as arquibancadas cheias de abelas donzelas e o nosso picadeiro de talentos. – falou em um sorriso cínico – Para iniciar a noite, direto dos pampas, apresentamos os maiores trapezistas do Brasil!

Só agora Kal reparara que enquanto o apresentador falava, uma cama elástica era montado sobre o picadeiro e agora dois trapézios desciam do alto da lona com um casal vestidos em uma roupa colada ao corpo.

O casal realizou feitos realmente incríveis e impensáveis para Kal, como o salto mortal. Prosseguindo, o apresentador chamou um ilusionista que retirou da cartola um coelho, fez uma mulher de vestido levitar, transformou papel em pomba e cortou sua assistente de palco em três pedaços.

- Eles são incríveis, não? – comentou Mara para os garotos – Parece tudo tão real!

- É claro. – concordou Kal rindo-se por dentro imaginando o que a senhora Chiabai não diria caso o visse usando a varinha – Realmente muito real.

- É como se ele também fosse um bruxo. – disse Daimon.

- Também? – questionou Sara.

- Ah, nada. – desvencilhou.

Após reagrupar a cabeça, o tronco e as pernas da assistente em uma grande caixa colorida, o mágico fez soltar de sua varinha uma grande quantidade de fumaça e com isso desapareceu do picadeiro.

- Ótimo truque hoje, amigo! – comentou o apresentador – Agora, eles que são a graça de todo o circo! A paixão das crianças e o amigo dos adultos! Senhoras e senhores, os palhaços!

De trás do picadeiro, um barulho como ronco de motor de carro velho rompeu por todo o circo e segundos mais tarde uma miniatura de fusca surgiu trazendo dentro dele cinco palhaços, todos com roupas e perucas coloridas, sapatos números maiores que os pés, maquiagem exagerada e narizes vermelhos. Os palhaços tinham um andar desengonçado e davam tapas em suas nucas. Kal, Guinevere ou Daimon jamais viram um palhaço e encarar aquelas figuras estranhamente fantasiadas era demasiado desconfortante. Um dos palhaços retornou de onde vieram e dessa vez trouxe consigo o elefante que eles haviam visto na entrada do circo.

- Para que isso, Risadinha? – perguntou o apresentador ao palhaço que conduzia o elefante – Vai chamar alguém da platéia?

O palhaço agitou a cabeça freneticamente enquanto entregava a ponta da corda a qual o elefante estava preso ao apresentador. Dirigiu-se então à platéia e buscou por um voluntário. Alguns levantaram a mão em oferecimento, mas ao que parecia, Risadinha já havia feito a sua escolha. Ele caminhou entre as primeiras fileiras e parou bem em frente a Kal.

- Vai. – disse Alexandre já levantando o garoto sem mesmo que ele aceitasse ou não.

Ele conduziu-o por entre as pessoas e caminhou em direção ao elefante que estava muito bem comportado.

- Sobe. – disse o palhaço apontando para uma cela presa ao dorso do animal.

- Quer que eu suba nele? – perguntou Kal incrédulo.

- Sem cerimônias, anda logo. – disse o palhaço irritando-se e abandonando a máscara de gentileza e bom humor.

Uma pequena escada foi providenciada para auxiliar Kal em sua subida e depois de ajeitar-se na pequena cela ele sentiu o animal se balançar e percebeu que o elefante estava sendo conduzido pelo picadeiro. Como em um desfile, os dois, elefante e garoto, rodearam o lugar e Kal começava a sentir um sacolejo incomodo em seu estômago. Sem mais explicações o elefante parou em frente ao corredor que dava acesso à saída e balançou a tromba inquieto. O palhaço tentou acalmá-lo, mas parecia inútil. O animal estava fora de controle.

Da platéia, Guine e Daimon já estavam de pé temendo algum acidente com Kal que parecia ficar roxo em cima do bicho. O próprio garoto não entendia o que estava acontecendo. Mantivera-se comportando durante a apresentação e tinha toda certeza de que não machucara o elefante. Kal olhou ao redor para tentar entender o motivo daquela agitação e inusitadamente viu uma figura desagradável no alto da lona do circo. Um Griphon.

Ele os vira por várias vezes em seu primeiro ano em Avalon, eram criaturas realmente assustadoras. Tinham uma pele amarela e enrugada encobrindo um corpo esquelético, vários dentes pontiagudos, orelhas pontudas como as de morcegos, garras tão afiadas quanto navalhas e um olhar gelado e penetrante.

O que eles fazem aqui? Indagou-se.

Antes que sua pergunta pudesse ser respondida pelo seu próprio inconsciente ele foi derrubado pelo elefante e quando abriu os olhos reparou que o Griphon não estava mais dentro do circo, mas ainda assim o elefante mantinha-se alterado. Os palhaços que não estavam tentando acalmar o animal orientavam as pessoas a saírem de forma a ficarem em um lugar seguro. Kal levantou-se rapidamente com medo de ser esmagado por uma das poderosas patas do animal, no entanto permaneceu no picadeiro vasculhando o lugar a procura do Griphon. Ele realmente havia desaparecido, assim como toda a platéia. Somente ele estava sob a lona com o elefante descontrolado e os palhaços.

Kal olhou de um lado para o outro temeroso e passou por sua cabeça que algo deveria ser feito para controlar o elefante. Ele sacou a varinha de dentro das vestes mirou no gigantesco alvo percebendo que dali nenhum dos palhaços poderia vê-lo. Dizendo em um tom de voz que não poderia ser facilmente ouvido Kal disse:

- Mórfinus! – o filete roxo iluminou fracamente o picadeiro e acertou o elefante em cheio que tremeu em suas pernas e amoleceu a tromba.

- Kal! – chamou uma voz e o coração do garoto quis sair pela boca. Devagar, ele virou o pescoço para o lado e viu uma assustada Sara encará-lo curiosa.

- Sara... – disse apressando-se em esconder a varinha nas costas – Há quanto tempo voc...

- Está tudo bem com você? – perguntou ela interrompendo o garoto abruptamente – Todos já estão lá fora.

- Sim.

- Que modo estranho para um elefante de circo agir. – disse ela quando já saiam do circo.

- É...

- Mais estranho ainda foi a maneira como ele parou. – ao dizer isso Kal deu um forte soluço.

- Tem certeza de que está bem? – insistiu.

- Tenho sim. Mas, o que você estava fazendo lá dentro ainda?

- Fui te ajudar. – respondeu.

- Mas viu alguma coisa? – perguntou com medo da resposta.

- Vi um elefante parando de repente depois que uma luz roxa se acendeu.

- Ah sim! Luz roxa. Deve ter sido alguém do próprio circo.

- Kal! – disse Guinevere se aproximando do garoto e dando-lhe um forte abraço – Está tudo bem com você?

- Estou. Estou.

Antes que Daimon ou os senhores Chiabai perguntassem também ao garoto se estava, realmente, tudo bem com ele, o palhaço que o colocara no meio de tudo aquilo apareceu correndo para averiguar melhor a situação.

- Não se machucou não é? – perguntou encarando Kal da cabeça aos pés – Temos um ótimo pronto-socorro aqui mesmo. Se precisar procure-me.

- Estou bem, sério. Não tem com que se preocupar.

- Desculpe-nos pelo acidente. Isso nunca aconteceu antes, mas foi nossa culpa.

- Não, não foi. – disse Kal arrependendo-se de ter pronunciado-se – Quero dizer, essas coisas podem acontecer a qualquer um, não?

- Tudo certo então, mas se desejar ajuda pode me chamar. – falou o palhaço convencido de que ainda seria útil e saiu tristonho com seus sapatos vermelhos e de bico largo.

Senhor e senhora Chiabai, Daimon e Guine se juntaram à Sara e Kal segundos depois. Como fizera o palhaço, checaram se eles estavam bem e resolveram que aquele incidente não iria estragar o resto da noite. O parque de diversões estava vazio aquele dia, o que era ideal para aproveitar todos os brinquedos, sem perder tempo em filas desnecessárias.

- Por que não vamos ao Trem Fantasma. – sugeriu Sara apontando para a casa de dois andares que lembrava uma construção abandonada.

- Então vamos. – disse Alexandre.

Os seis seguiram até a bilheteria para comprar os ingressos. Comprados, Daimon e Guinevere foram os primeiros a entrar nos carrinhos em forma de crânio com assento para dois. Alexandre e Mara subiram no próximo. Kal e Sara ainda ficaram do lado de fora alguns minutos até que um terceiro carrinho saísse de dentro da casa.

- Você não tem medo? – perguntou Kal.

- Da casa? – disse incrédula – É tudo de mentirinha. Se tiver medo pode segurar na minha mão. – Kal sentiu seu rosto corar e resolveu não dizer mais nada – Olhe! Chegou o nosso.

Um casal de namorados desceu do carrinho, a garota estava pálida e por alto, Kal escutou ela dizer:

- Você viu aquela criatura amarela? Parecia tão real...

Kal sentiu um forte arrepio na espinha e seus pés fincaram no chão. Agora ele tinha certeza. Havia Griphons ali.

- Sara não podemos entrar. – advertiu.

- Já disse que não precisa ter medo. Vamos logo. – inocentemente ela puxou Kal pelo braço como se nada estivesse acontecendo e forçou-o a sentar-se ao seu lado – Não se preocupe. Não vai nos acontecer nada.

- Não tenho tanta certeza...

O carrinho começou a se movimentar seguindo um trilho de metal, após o primeiro metro ele acelerou tanto que as portas da casa ficaram perigosamente próximas, pois elas não se abriram de imediato. Somente quando estavam há poucos centímetros de distância Kal percebeu que não eram portas, e sim cortinas pintadas. O pano cedeu ao carrinho que entrou com ainda mais velocidade, passando por teias de aranha e por bonecos fantasiados de vampiro. Kal não estava preocupado com a figuração e sim com o perigo real. Griphons no parque não era boa coisa.

- E então? Está com medo? – perguntou Sara.

- Nem um pouco.

O carrinho deu algumas voltas no primeiro andar descendo por um rápido túnel cheio de aranhas mecânicas e gosma verde. Quando embalaram para a subida depararam-se com uma escada de madeira completamente destruída e nem um trilho.

- Vamos bater! – disse Kal.

Sara não pode esconder o rosto pálido, mas logo depois dos trilhos surgirem por baixo da escada ela soltou um pequeno sorrisinho, como se achasse Kal um autêntico medroso.

O segundo andar era ainda pior que o primeiro. Caixões pendiam do teto com seus cadáveres amostra, espantalhos com cabeças de abóbora passaram na frente deles seguros por cabos de aço. Um deles passou tão perto que Sara teve que agarrar a mão de Kal para conter o medo.

- Desculpe. – disse retirando a mão.

O carrinho guiou-os até um quarto em que as luzes dos abajures piscavam incessantemente. Cabeças em miniaturas subiam e desciam como iô-iôs e um grito fantasmagórico reverberava entre as paredes. A janela recebia a fraca luz bruxuleante vinda do parque, mas não era possível ver o que se passava lá fora. Sem mais explicações, o carrinho parou com um rangido metálico.

- O que houve? – indagou Kal.

- Deve ter acabado a energia.

- Todo o parque ainda tem energia. – prosseguiu Kal observando pela janela toda a iluminação do lado de fora – Eu vou descer.

- Kal, espera. Deve fazer parte do brinquedo.

Por um segundo Kal pensou que Sara poderia estar certa, mas se deu conta de que os gritos fantasmagóricos não estavam mais ecoando e que as lâmpadas haviam apagado.

- Alguma coisa está errada. – insistiu Kal.

Um som rouco e extremamente familiar reverberou por entre a sala e a garota reativou seus ânimos de menina aventureira.

- Sara corre! – exclamou Kal vendo que um Griphons havia entrado no quarto.

- Kal! Pára! Fica no carro!

- Eu disse corre!

Neste momento um Griphon saltou para cima de Sara que cobriu o rosto com o braço para se proteger das garras de navalha e dos esbranquiçados dentes de cerrinha. Mais do que depressa, Kal posicionou-se entre os dois encostando com as mãos no peito da criatura e arremessou-o contra a parede.

- Vem comigo. – disse Kal estendendo uma das mãos para Sara.

Assustada, ela aceitou a ajuda sem problemas. Os dois correram até a porta, mas não conseguiram abri-la.

- O que faremos? – perguntou ela atemorizada – O que está acontecendo?

Kal olhou para o alto e agarrou uma das cabeças que estavam penduradas e atirou em direção a janela e quebrou uma parte do vidro.

- Olhe o que está acontecendo lá fora! – disse Kal percebendo que um segundo Griphon estava entrando dentro do cômodo atravessando o teto.

Sara concordou após averiguar se a criatura ainda estava inconsciente no chão. Kal esperou que ela estivesse bem distraída para que ele pudesse usar a varinha. O momento certo chegou quando Sara pegou um pedaço de madeira do chão e usou para quebra o restante do vidro da janela.

- Pelínculo! – falou Kal bem baixinho. O feitiço acertou o Griphon no teto provocando um grande clarão roxo.

- O que foi isso? – perguntou a garota olhando para trás de supetão.

- A... a lâmpada... ela acendeu e apagou. – disse disfarçando.

- Roxa? – disse de forma duvidosa – Venha ver! O todo mundo está correndo.

Kal franziu o cenho e se aproximou rapidamente da garota para observar o que se passava do lado de fora. Pessoas gritavam de um lado para o outro desesperadas, Griphons corriam e saltavam entre os brinquedos causando medo e com certeza muito pânico.

- Olhem meus pais! – disse Sara apontando para Alexandre e Mara Chiabai que estavam encurralados por dois Griphons entre a lona do circo.

Droga! Não posso fazer nada daqui sem que Sara me veja. Praguejou Kal.

Antes mesmo que outro pensamento corresse por seus nervos, um lampejo rosa atravessou o chão empoeirado do parque e acertou os Griphons dos Chiabai, engolindo as criaturas em uma luz fluorescente intensa.

- De novo! – disse – Você viu aquilo?

- Vi. – confirmou, já que não poderia fazer diferente. Só uma pessoa que eu conheço produz uma luz rosa. Guinevere. Pensou – Vamos descer pela janela.

Kal ajudou Sara sentar-se no parapeito da janela e ficar de pé no telhado da varanda da frente, onde embarcaram no carrinho.

Antes que ele se juntasse a Sara, certificou-se de que o Griphon que ele jogara contra a parede não os importunaria mais.

- Pelínculo!

Kal subiu no telhado e viu que o olhar incerto de Sara fitá-lo.

- Acendeu de novo... – falou sem graça.

- Tudo bem, vamos.

Agarrados à parede, os dois se aproximaram da beirada onde desceram por uma escada de madeira convenientemente posicionada.

- Sara! – gritaram Alexandre e Mara em coro agitando os braços para que ela pudesse vê-los.

- Olha lá! – disse a garota.

Os dois correram agilmente, passando por algumas outras pessoas que corriam na direção oposta.

- Vocês estão bem? – indagou Alexandre abraçando a filha.

- Kal, seu braço... – falou Sara apontando para o garoto, que só agora percebia estar com o braço sangrando, provavelmente quando impediu que o Griphon atacasse Sara.

- Não é nada.

- Deixe-me ver isto. – disse Mara já segurando o braço dele – O corte não é tão profundo, mas precisa de um curativo rápido.

Sem aviso, um Griphon rasgou a lona atrás deles e puxou Kal com toda a força para dentro do circo.

- Kal! – berrou Sara quase que aos prantos.

Antes de ser arrastado até o picadeiro, Kal ainda viu que outro Griphon atacou Mara e Alexandre, distraindo-os, mas não foi o suficiente para que Sara segui-se os rastros do primeiro.

Kal fora largado no meio do picadeiro. Todo o lugar estava engolido pela escuridão e pelo som rouco das criaturas. O ar gelado penetrava nas narinas de Kal e estremecia todo o seu corpo, como se fosse navalhar de puro gelo cortando-lhe as veias dos braços e das pernas.

Ele olhou para os lados, mas não viu nada. Apenas ouvia o som rouco dos Griphons e ao longe um grito desesperado de Sara que estava perdida naquela escuridão. Ao longe, onde a lona foi mexida, certamente não pelo vento, mas por alguém. Uma luz fraca foi acesa somente para revelar a Kal um conhecido e gigantesco par de asas de morcego rasgada.

- O que você quer, Kricolas? – perguntou Kal perdendo a noção do perigo que corria estando sozinho ali.

Com um estalo que reverberou pela lona vermelho sangue, um holofote foi aceso em cima do picadeiro, iluminando Kal por completo. Ele olhou para os lados e espantou-se ao ver mais de vinte Griphons em posição de ataque, todos a sua frente com olhares famintos. O inconfundível som rouco estava preso em sua mente, deixando-o tonto e inconsciente. Era isso o que eles faziam. Desnorteavam a presa para poderem derrubá-la com facilidade.

Num misto de alegria e desapontamento, Kal ouviu a voz de Sara se aproximar a largos passos, saltando a proteção que separava o picadeiro da arquibancada e abraçando o garoto rapidamente.

- Quem são eles? – perguntou com a voz trêmula.

- Eu não sei... temos que sair daqui...

- Faz alguma coisa, Kal. Por favor...

- Mas... mas o que eu posso fazer?

-Você pode. Eu sei que pode... eu já vi você fazendo...

- O quê?

- Kal, a luz roxa, usa a luz roxa, como você fez quando caiu do elefante e lá na casa.

O coração de Kal saltou até a garganta ao descobrir que Sara sabia que ele tinha poderes, mas achou que ela não sabia muito mais do que isso. Mesmo assim ponderou se deveria, realmente usar o Pelínculo na frente dela. Mas a situação ficava cada vez mais crítica. Os Griphons já estavam se aproximando e quando três deles saltaram, Sara olhou nos olhos de Kal e implorou pela última vez:

- Por favor...

- Égide Silver! – uma poderosa bola prateada envolveu-os rapidamente e os três Griphons tiveram a sensação de baterem em uma parede de concreto.

Sara abriu os olhos e abraçou Kal mais fortemente, que a envolvia com o braço esquerdo enquanto mantinha o feitiço com a mão direita. Os vinte Griphons insistiram em atacá-los mesmo eles estando protegidos pelo escudo. A insistência das criaturas foi premiada com a primeira rachadura no escudo.

- Kal... – suplicou Sara.

- Não vou agüentar por muito mais tempo. – disse já sentindo os joelhos cederem com o peso do corpo.

- Fechem os olhos! – gritou uma voz vinda da entrada do circo – Pelínculo!

Uma luz azul intensa clareou todo o ambiente provocando também um forte vento que soprou os Griphons para o outro plano, o astral.

Quando a luminosidade voltou ao normal, Kal observou quem usara o feitiço, imaginando que pudesse ter sido Daimon, mas enganou-se completamente. Havia outro bruxo ali com eles. Um que Kal jamais vira como bruxo e sim como palhaço.

Risadinha aproximou-se dos dois ainda com sua maquiagem e roupa de palhaços, porém sem a peruca e os sapatos exageradamente grandes.

- Em nome da Guarda Armada de Warren, vocês estão bem? – perguntou apreensivo.

- Sim, estamos... – disse Kal conferindo Sara, que tremia em seu ombro.

- Vamos sair! Depressa.

- O que está acontecendo afinal? Quem é você? – indagou Kal para o bruxo a sua frente.

- Ataque de Griphons. Ivo Gostuânia, enviado especial de Warren para defender os Foster.

- Você apareceu bem na hora. – falou Sara – Kal, obrigada por me proteger.

- Não vamos fazer agradecimentos ainda. Depressa, para fora. Eu vou verificar se há mais algum Griphon aqui dentro. Vão!

Sara e Kal acataram a ordem do bruxo e correram o mais depressa possível até encontrarem Daimon e Guinevere próximos a um telefone público.

- Por Merlin! Que sufoco! – disse Guinevere ao verem Sara e Kal aproximarem-se apavorados – Vamos sair do parque agora!

- E meus pais? – perguntou Sara.

- Já estão nos esperando no carro. – informou Daimon – A senhora Chiabai teve um desmaio e seu pai a levou imediatamente.

- Ok, então. Vamos!

Antes que eles pudessem correr, o telefone ao lado começou a tocar. Eles encararam uns aos outros sem entender nada. Aquele era um telefone público dentro de um parque de diversões. Ninguém ligaria para ele, muito menos àquela hora e naquela ocasião. Quase nada fazia sentido. Kal tinha apenas uma certeza. Seja lá quem estivesse ligando, pretendia falar com ele.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Por um Brasil Literário

Interrompo a série de posts de capítulos para chamar a atenção de todos para algo importante.
A necessidade de difusão da leitura no país. O movimento teve início no dia 02 de julho (coincidência ou não, é a data do aniversário de Kal Foster, no livro) e já conta com mais de 100 mil assinaturas. Fique por dentro do manifesto e dê força ao movimento assinando seu nome aqui.
Não deixem de acompanhar o blog, hoje de madrugada sai o próximo capítulo de Kal Foster e o Mestre das Sombras.

Abraço a todos.

sábado, 1 de agosto de 2009

Capítulo 4 - A Mulher, a cidade e o Conselho

Kal imaginou por alguns poucos segundos o que de tão importante Cacius tinha para lhe dizer, sendo que no dia anterior eles já haviam conversado bastante sobre Kricolas, o Livro de Merlin e Donnovan. Por sua mente não passou nada que poderia ser mais relevante do que esses três assuntos. A menos, é claro, que Kricolas milagrosamente já houvesse ressuscitado Donnovan da noite para o dia.

- Qual o problema, professor? –perguntou Kal, decidido.

- Você tem uma visão privilegiada da janela de seu quarto. – comentou o ele distraído – Este é sem dúvida um dos lagos mais belos do país. Embora duvide que possa ser tão bonito quanto o de Avalon, não é verdade?

- Sim. – disse Kal, entrando no jogo do professor.

- Deve ser muito bonito ver o reflexo da lua. – prosseguiu, lançando olhares cada vez mais nostálgicos para o lago.

- Ontem, o brilho parecia ser tão especial que todos os guardas de Warren estavam olhando para ele. – disparou Kal, sem rodeios.

- É certo. E você sabe por quê?

- Não, senhor. Mas o brilho não parecia vir apenas da lua. Era como se o lago estivesse aceso por dentro também.

- Até mesmo as coisas mais bonitas têm os seus segredos, não acha?

- O que quer dizer?

- Eu, pessoalmente, escolhi esta casa para vocês morarem. Eu a considero um dos lugares mais seguros para vocês, neste momento tão delicado.

- E por quê? Não seria melhor morarmos na Cidade dos Elfos? Próximo de vários outros bruxos. Próximo de você... do senhor. – acrescentou Kal. Cacius virou-se para ele lançando-lhe um conhecido olhar que dizia “obrigado pela consideração”, mesmo não parecendo dizer nada disto.

- A Cidade dos Elfos não é mais a mesma de antes.

- Com assim?

- Na hora certa você entenderá.

Kal resolveu ouvir o professor sem fazer mais perguntas. Aquele era o momento certo para perceber que não era a toa que os humanos possuem dois ouvidos e uma boca.

- Eu considero este lugar o mais seguro porque aqui vocês estão sob a guarda dos maiores bruxos do país. E não apenas estou falando dos guardas de Warren, mas por este lago ser um manto de poder e tranqüilidade. Ele tem um poder tamanho que ontem pôde conter nossa maior ameaça.

Ele não podia agüentar todos aqueles enigmas de Cacius. Seu cérebro fervilhava tentando decifrar o que seria aquele “manto de poder”. O garoto imaginou que o lago poderia ser um tipo estranho de cemitério para bruxos poderosos de várias gerações, mas isto seria estúpido. Todos os bruxos mortos estão enterrados no Cemitério Nacional para Bruxos, muito longe dali. Kal estava enlouquecendo com tudo aquilo e achou que se Cacius não explicasse tudo logo ele mesmo mergulharia no lago em busca de algumas respostas.

- Você sabe nadar? – perguntou o professor saltando de um assunto para o outro com pouca sutileza.

- Como?

- Perguntei se você sabe nadar.

- Sim, mas...

- Talvez seja necessário. Venha comigo.

Cacius guiou Kal até o mais próximo da margem do lago, a água era soprada pelo vento até os seus pés. O professor parou por um instante e admirou a superfície, com delicadeza tocou a pele d’água com a ponta de sua varinha.

- Professor, aonde vamos? – perguntou Kal, aproximando-se mais do lago.

- Bem, espero que não tenha enjôo por andar de barco.

Assim que Cacius selou os lábios, uma densa névoa emergiu, como se toda a água estivesse evaporando-se e do horizonte surgiu uma gôndola sem remos ou motor, guiada apenas por uma estranha figura encapuzada com um manto branco. Ela ressoava um cântico hipnotizante e Kal, embalado em seu ritmo, ficou sonolento e fechou os olhos para acompanhar melhor a melodia. Ele distinguiu o barulho de uma gaita e uma flauta, os sons misturaram-se à voz doce de uma mulher e sem nenhum aviso ele foi acordado por Cacius que o puxou pelo ombro.

- Vamos. – disse o professor subindo na embarcação.

Kal olhou para aquela cena por um instante. A gôndola de madeira flutuava no lago bem ali a sua frente, Cacius com sua mão estendida e logo atrás uma mulher de cabelos compridos tão loiros que pareciam misturar-se à névoa, formando um único corpo.

- Bom dia, Cacius. – cumprimentou a mulher com uma voz triste, mas doce.

- Bom dia, Viviane.

- Bom dia para você também, Kalevi Foster.

- Você me conhece?

- Sua história é triste. É claro que te conheço.

Kal ponderou se deveria dizer mais alguma coisa. Olhou para a mulher a sua frente que, virando-se para o interior do lago e abrindo os braços, fez a gôndola começar a se mexer suavemente.

- Não queremos ser vistos hoje, Viviane.

- Naturalmente.

A guia apontou os braços para o céu fazendo sair uma intensa luz da palma de suas mãos unidas. Esta luz envolveu todo o barco e dissipou a névoa e assim Kal percebeu que já estavam muito longe da margem.

- Viviane é a protetora deste lago e de tudo o que há nele, Kal. – informou Cacius.

- Há quanto tempo está aqui? – perguntou.

- Muito antes dos homens. – falou ela olhando para as ruas cheias de carros ao redor das margens do lago – Eles invadiram o espaço, meu lar. Mas não pude fazer nada. Os humanos são os únicos donos do mundo.

- É uma pena que a maioria deles não dê valor ao que têm. – disse Cacius concordando com o pensamento de Viviane.

- Aprenderão a dar quando o perderem.

- Até lá ainda veremos muita coisa, minha amiga.

- Eles não podem nos ver, professor? – perguntou Kal ao passarem ao lado de dois homens pescando.

- Os humanos não vêem muita coisa. – disse Viviane, num ar conformado.

- O feitiço está nos protegendo de olhares curiosos. – falou Cacius apontando para a luz que envolvia o barco.

- Chegamos, meu amigo.

- Onde estamos exatamente?

- Logo você verá.

Após Cacius dizer isto, a gôndola de Viviane começou girar lentamente e depois mais rápido, Kal ficava zonzo apenas em olhar o mundo ao seu redor dar voltas tão rápido. No entanto, nem Cacius nem Viviane pareciam sentir-se incomodados com isto. Para sua sorte aquele momento foi extinto no segundo seguinte em que o barco foi sugado para o fundo do lago. Da superfície, Kal apenas ouviu os dois homens dizerem:

- Como os peixes estão pulando hoje!

Cacius sorriu ao ver aquelas paredes brancas de marfim reluzirem sobre a luz da lamparina que surgira na dianteira da gôndola de Viviane, o barco estava flutuando no ar e lentamente descendo até um outro pequeno lago mais abaixo. Aquele lugar poderia ser Atlântida, a cidade submersa. Havia pessoas andando de um lado para o outro em sua única rua e entrando e saindo de suas quatro lojas.

- Bem vindo, Kal, bem vindo a Celacanto! – disse Cacius.

- É tão bonito. – comentou, admirado pelas oliveiras que cresciam entre as altas pilastras gregas e a margem do lago feita com degraus de pedra.

- Obrigado, Viviane. – agradeceu Cacius e a mulher inclinou a cabeça com gentileza.

- O que viemos fazer aqui? – perguntou Kal olhando de um lado para o outro observando os transeuntes.

- Viemos assistir a uma decisão do Conselho de Magia.

- E por que estou aqui?

- Ora, porque você mais do que ninguém precisa saber a verdade.

- Que verdade?

- Que Kricolas esteve em Celacanto ontem à noite.

- O quê? – espantou-se Kal, cada pêlo de seu corpo se eriçando – Como? E por qual propósito?

- O mesmo de sempre. Ele quer respostas sobre o Livro de Merlin.

- Como ele pôde ser tão cara-de-pau! – irritou-se.

- Kricolas está dominando a situação, por isso precisamos escolher logo nosso Ministro da Defesa e Segurança Mágica.

- O senhor foi indicado. – disse Kal lembrando-se da notícia do dia anterior no Folha Mágica.

- Sim, mas não posso aceitar. Além do mais outros bons nomes foram indicados.

- Como o pai do Ralph.

- Sim, por certo ele seria um bom ministro. Dormiria mais tranqüilo se soubesse que alguém tão responsável está por conta da segurança nacional. Porém, tem que compreender que nem sempre é assim. Quando disse que em Celacanto estão os maiores bruxos do país, não menti. Porém, talvez fosse preciso fazer uma importante observação de que aqui não estão os mais honestos. – Cacius lançou um olhar muito desconfiado ao fim da rua, onde uma imponente porta dupla, branca, se mantinha fechada – Os interesses políticos nem sempre coincidem com os interesses reais do país e decisões muito errôneas são tomadas sem o menor cuidado. Sem o menor escrúpulo, para desabafar de uma vez.

- Eles colocam o interesse pessoal na frente do país?

- Eles colocam qualquer coisa na frente dos interesses do país. Infelizmente eles sãos os mais poderosos e mais antigos na política... alguns jovens como Uric me dão esperanças... mas o Conselho da Magia é quase todo contaminado... lamentavelmente.

Tirando o fato da primeira má impressão, Celacanto tinha um brilho muito especial de magia. Parecia ser uma cidade recente, fato que Cacius confirmara logo em seguida dizendo que fora construída há apenas cinco anos. Toda a rua era de marfim e as quatro lojas também possuíam tonalidades claras. As colunas gregas sustentavam um teto de pedra rústica, a pequena cidade estava localizada em uma espécie de caverna submersa. O som dos sapatos nas ruas e o barulho das conversas na pequena esquina formada entre a rua e a margem do lago davam um ar vivo à cidadezinha. No meio de tantos sons confusos, um foi se aproximando de Cacius e Kal, que não resistiu ao impulso de virar-se.

- Bom dia, senhores. – falou um homem esquelético e de nariz exageradamente grande.

- Olá, Dorian. – saudou Cacius sem entusiasmo – Kal, este é Dorian Gulemarc, Secretário de Defesa e Estratégia do Estado Mágico.

- Olá, senhor.

- Trouxe o garoto para a reunião, Cacius? Pensei ter ouvido que era uma reunião apenas para bruxos de alta importância.

- Kal revelou a identidade de Kricolas, perseguiu-o e quase conseguiu impedi-lo de roubar o Livro de Merlin, se ele não for considerado um bruxo de alta importância, não sei quem mais poderia ser, Dorian. – falou Cacius em alto tom de voz.

- Esqueceu de dizer que o jovem Foster é guardião do Enid de Donnovan. Quem sabe de que lado ele realmente está.

Dorian estava claramente incitando Cacius a reagir, apesar de ser verdade o que ele dissera, que Kal tinha o espírito de Donnovan na forma de Enid em seu corpo, isto não era motivos para ter dúvidas da lealdade de um autêntico Foster.

- Uma vez herói, sempre herói, e uma vez Foster, sempre Foster. – disse uma outra voz saindo de um pub ao lado dos três.

- Bom dia, Uric. – cumprimentou Cacius a Uric Scheiffer, o pai de Ralph, um homem alto e robusto com os cabelos loiros e partidos ao meio.

- Bem, acho que eu sou o único que não se curva diante à auréola colocada sobre a família Foster. – prosseguiu Dorian – Quero que saibam que apenas desejo o melhor para o meu povo, e vou trabalhar para que eles possam viver em tranqüilidade e sem medo.

- Pelo menos concordamos nesse ponto. – reagiu Uric, posicionando-se ao lado de Kal.

- Os outros membros do conselho nos esperam. – disse Dorian, antes que saísse com os pés de banda e muito apressado.

- É um prazer revê-lo, Kalevi. – cumprimentou Uric, sorrindo.

- Como está o Ralph?

- Ele está bem, em casa. Está ajudando a Aline em algumas tarefas. – explicou – E então, Cacius, ficaria feliz se o Ministério da Defesa e Segurança Mágica tivesse você como maior representante.

- Oh, não tenho esses planos, Uric. O conselho sempre soube que nunca quis fazer parte deste governo. Também sabem os fatores e que a ordem deles não altera a minha decisão.

- Não adianta tentar escapar, professor. Em dois anos teremos eleições para presidente e o senhor novamente será indicado para o cargo.

- E mais uma vez terei que recusar.

- Muitos homens dariam a vida para ter os seus privilégios.

- É uma pena que nenhum deles a coloca em verdadeiro risco para alcançar os seus próprios.

- Realmente.

- E os guardas, Kalevi, têm feito uma boa vigília?

- Sim. – respondeu da forma mais simples – Tê-los por perto ajuda a tranqüilizar minha mãe.

- Soube que eles fizeram um bom trabalho ontem à noite também. – falou Uric.

- Sim, sim. – concordou Cacius – Kricolas chegou ao extremo invadindo Celacanto.

- Professor, como Kricolas pôde invadir este lugar. Parece tão... seguro.

- Sim, este é um lugar muito seguro, Kal, não há chances de acontecer nenhum tipo de incidente, como não ocorreu ontem. Igualmente a todas as outras cidades mágicas, esta não tem acesso restrito, não há um controle das pessoas que entram aqui. Os bruxos esfumaçam aos montes. – falou Cacius mostrando a pequena rua onde vários bruxos sumiam deixando um rastro de fumaça e outros tantos que apareciam da mesma forma.

- “Isto atrapalhará o desenvolvimento da cidade”. Foi exatamente o que Mardo disse. – comentou Uric – É uma pena que ele não possa mais ver no que isto está se transformando.

- Bem, agora temos que ir, Kal. Tenho certeza de que este assunto será muito comentado na reunião do conselho. – finalizou Cacius.

Os três seguiram pelo único caminho da cidade até uma escadaria de pedra que dava acesso as duas portas de madeira branca, que Cacius encarara a poucos. Ela se abriu assim que eles subiram o último degrau da escada e pararam a trinta centímetros da entrada. O local de reuniões do Conselho de Magia era nada menos do que um prédio de sete andares construído dentro da parede de pedra que limitava a cidade. Exatamente como a fábrica de vassouras da família Foster em Vila da Cachoeira.

Kal examinou o lugar com extrema curiosidade. O saguão de entrada tinha um caminho feito com tapete vermelho e estátuas de bruxos por toda à parte. Guardas uniformizados de Warren conversavam secretamente pelos corredores e assim que avistavam Uric batiam continência em sinal de respeito ao superior.

- Sempre achei a continência algo muito esquisito. – comentou Cacius.

- Eu também não gosto muito, mas tenho medo de perder o emprego se abandonar este costume. Velhos hábitos não devem ser abandonados e et cetera...– falou Uric.

- Bom dia, senhores. – saudou um homem magricelo ao lado do elevador. Por um momento Kal achou estar vendo Dorian pela segunda vez, mas logo se deu conta de que não.

- Bom dia, Jonas. Como vai a família?

- Bem, obrigado professor.

Por onde fossem, Cacius era sempre reconhecido e admirado, e talvez o mais estranho era que o professor também conhecia e saudava a todos como se fossem enormes amigos. Era uma característica que o lembrava muito seu pai, Adonis. Ele sabia ser gentil com qualquer pessoa, e em qualquer ocasião.

Por que teve que ser assim? Perguntou-se Kal.

- Segure o elevador! Segure o elevador! – berrou uma voz da entrada do saguão.

Jonas esticou o braço e impediu que a porta se fechasse e logo depois o dono da voz entrou no pequeno espaço quadrado com um largo sorriso.

- Olá, professor! Quanto tempo! Senhor Uric. Vejam só, se não é Kalevi Foster.

- Olá, Escritor da Terra. – cumprimentou Kal, contente por estar vendo alguém um pouco mais novo naquele ambiente tão novo e tão exclusivo.

- Apenas Bernardo agora. Deixei de usar este nome.

O rapaz à frente deles era Bernardo Mecflex, antigo aluno de Avalon, com quem Kal batalhara no ano anterior em um teste para jogar no time de Quizard da equipe de Tadewi. Quizard era uma competição realizada entre as três repúblicas da Cidade dos Elfos e coordenada pelos professores de Avalon. Escritor da Terra era o nome mágico que Bernardo adotara, mas agora, por algum motivo ele achou que era inapropriado.

- Como anda o seu projeto, Mecflex? – perguntou Uric, com um sorriso de simpatia.

- Está concluído, senhor. – falou ele apertando o botão SS do elevador.

- Resolveu aquele problema? – perguntou Cacius curioso.

- Não, senhor. Foi como disse, não há como resolver aquilo. – completou desapontado – Mas vou apresentá-lo ao conselho assim mesmo. Talvez o novo ministro se interesse.

Kal ouviu os três conversarem entre si como se ele nem ao menos estivesse ali. Ele não sabia qual era o projeto de Bernardo Mecflex, não sabia qual era o problema apresentado por ele e muito menos o que Cacius havia comentado sobre o projeto. Enfim, nada parecia fazer o menor sentido. No entanto pressentiu que todas as suas dúvidas seriam caladas na reunião do Conselho de Magia.

- Chegamos. Subsolo. – comentou Uric abrindo a porta do elevador.

Saindo do elevador, os quatro alcançaram um átrio pequeno que tinha como único propósito anteceder o imenso salão de reuniões dos bruxos mais poderosos do Brasil. Ele era como um pequeno estádio com capacidade para mais ou menos umas trezentas pessoas. O salão circular tinha em seu extremo um palanque de pedra com uma varinha pronta para ser usada como microfone e ao redor deste palanque, estavam dispostos os trezentos lugares entre as mesas semicirculares feitas com uma pedra fosca. O teto abobadado aparentava produzir uma acústica ideal para o lugar. Várias cadeiras com poltronas macias estavam dispersas entre as mesas, e outras com lugares para a platéia estavam bem no alto, próximos ao teto.

- Onde estão todos os outros membros do conselho, professor? – perguntou Kal inclinando a cabeça para que apenas Cacius pudesse ouvi-lo.

- Atrasados, como sempre. – respondeu – Vamos, suba – falou indicando uma escada que os levaria aos primeiros assentos.

Em alguns minutos, vários bruxos entraram pela porta de acesso ao átrio, outros tantos esfumaçaram diretamente em seus respectivos lugares dispostos entre as mesas... alguns portavam pilhas e mais pilhas de pergaminhos, outros distraíam-se com os feitiços cruzados, um passatempo do Folha Mágica. Um bruxa de chapéu cônico rosa lançava uma fragrância adocicada da ponta de sua varinha para amenizar o mal cheiro do seu colega ao lado que parecia ter dormido em alguma sarjeta bem suja acompanhado de uma forte garrafa de hidromel.

- Bom dia a todos. – falou um homem franzino e de sobrancelhas grossas no palanque de pedra – Estamos aqui, hoje, porque as circunstâncias revelaram-se desfavoráveis ontem à noite.

- Quem é ele? – perguntou Kal a Cacius.

- Timas Havany, Ministro da Comunicação Mágica.

- Senhoras e senhores, ontem Kricolas invadiu nossa cidade exigindo que entregássemos o menino chamado Kalevi Foster...

Kal sentiu seu sangue congelar, olhou para Cacius, mas este parecia não ter se alterado em nada. O professor não o dissera patavina sobre esta exigência do meio-vampiro. “De repente” ele não estava mais se sentindo tão confortável e seguro ali.

- Não podemos entregá-lo! – berrou um homem que ele jamais vira.

- Seria o mesmo que aceitar a soberania de Kricolas. – replicou a mulher de chapéu rosa.

- Mas temos que entender as condições impostas por ele. – prosseguiu uma mulher de cabelos ruivos – Ele disse que se não entregássemos o menino Foster nossas famílias sofreriam perdas maiores.

- Pense nos nossos filhos! É um por todos! – berrou uma voz masculina, alterada.

- Temos que pensar bem no assunto. – falou Dorian, que estava sentado em uma cadeira no terceiro andar.

Pensar bem no assunto? Indignou-se, Kal, os bruxos daquele conselho estavam tratando-o como um pedaço de carne, um simples chamariz, e Cacius continuava de boca calada!

- Vocês só podem estar loucos. – falou um homem encapuzado bem a frente de Kal – Pensar na possibilidade de entregar o garoto apenas comprova que este conselho está chegando ao fim.

- Ora cale-se, Saguior. – bufou Dorian – Nem ao menos bruxo você é.

- Saguior provou ser de grande valor para este conselho no passado. O levantamento de Dorian Gulemarc é inválido! – protestou Cacius de pé.

- Obrigado, velho amigo. – falou Saguior retirando o capuz e revelando um rosto barbudo e com orelhas alongadas.

- O que ele é, professor? – continuou Kal com o seu questionário.

- Um fauno. É metade homem, metade bode. Criaturas muito inteligentes, principalmente este aí.

- Tudo bem então, se é da vontade deste conselho ouvir o que este bode velho tem a dizer, que prossiga. – falou Dorian, num ar autoritário.

- Primeiro, devemos analisar a situação. Todos devem lembrar-se da reunião na Mansão Foster, quando impedimos que o Enid de Donnovan pudesse invadir o corpo de um recém nascido. E devem lembrar também que uma semana depois os jornais de todo o país noticiaram o chamado Milagre Foster.

Os bruxos assentiram em suas cadeiras ao ouvirem o fauno falar.

- O que nós nunca desconfiamos é que o Enid de Kalevi Foster é o Enid que nós tentamos aprisionar.

Os bruxos soltaram alguns sussurros inaudíveis e Kal fez outra pergunta a Cacius.

- Eles não sabem que eu... que eu tenho o Enid de Donnovan?

- Apenas uma minoria. No ano passado o Folha Mágica não recebeu a notícia como sendo um segredo e então não deram muito destaque. Uma nota de rodapé, se me lembro bem.

- Kalevi Foster, fique de pé para o conselho. – falou Saguior, olhando fixamente para o garoto ao lado do velho de barbas brancas.

- Levante-se. – repetiu Cacius e Kal levantou-se com um pouco de relutância.

Ele ouviu alguns urros de surpresa, talvez não tivesse sido totalmente notado.

- Creio que tenha aprendido a mostrar seu Enid, senhor Foster. – disse o fauno cordialmente – Poderia fazer a gentileza?

Kal estava um pouco embaralhado com a situação, mas ainda assim teve forças para levantar a varinha e dizer em alto tom de voz:

- Revelarbus! – o feitiço de revelação de Enid saiu da ponta da varinha de Kal como um raio de luz negro, subiu ao ponto mais alto do salão e mergulhou no chão formando a figura apavorante de Donnovan, um homem pálido de cabelos negros e olhos tão escuros quanto besouros em uma aparência rude e altamente cruel.

- Este é o nosso inimigo. – falou Saguior de um salto e caindo ao lado do Enid – Por isto Kricolas tem interesse em Kalevi Foster. Ele quer este Enid de volta.

- Sabemos muito bem que só se pode separar um bruxo de seu Enid através da morte. – disse Bernardo Mecflex, que estava sentado ao lado de Kal, tentando compreender tudo aquilo.

- Correto. – disse Saguior – E esta é, sem dúvidas, a intenção de Kricolas no momento. E ainda acredito que todos os bruxos deste conselho tenham a maturidade para entender quais os propósitos deste maldito meio-vampiro com o Enid de seu mestre.

- O que propõe que façamos, então? – perguntou Dorian, forçando um sarcasmo que não cabia na frase.

- É exatamente isto que este conselho veio decidir hoje. O que fazer para se proteger contra Kricolas, pois entregar um dos nossos está fora de cogitação.

Kal sentiu uma pontada de alegria em seu coração ao ouvir aquele fauno bem a sua frente defendendo-o. Pelos menos alguém ali não pretendia usá-lo como bode expiatório.

Bode expiatório... metade homem, metade bode... Kal não pôde resistir a comparação e rir da “piada”.

- Lócus Amenus! – disse Saguior e a imagem do Enid de Kal desapareceu.

Alguns minutos se seguiram em cochichos, o fauno retornara ao seu lugar, dando espaço para que outros pudessem tomar a atenção. Em especial, um que não a merecia tanto assim.

- Senhores. – chamou Dorian – Nas últimas semanas meu pessoal andou preparando alguns experimentos para serem usados contra Kricolas, a maioria ainda está em fase de testes, no entanto temos, hoje, aqui um protótipo totalmente desenvolvido. O pó de bobetônia. Mecflex, por favor.

- É claro, senhor. – falou ele descendo as escadas e se dirigindo ao centro do salão.

- E o que exatamente este pó faz? – perguntou Timas, o Ministro da Comunicação.

- Ele pode transportar qualquer coisa para qualquer lugar do mundo instantaneamente. – explicou Bernardo.

Os membros do conselho riram do jovem bruxo em alto tom e em seguida um deles disse:

- Nós podemos esfumaçar rapaz, para que precisamos comprar isso?

- Porque seus filhos não podem esfumaçar! – grunhiu Bernardo achando aquela reação do conselho estúpida.

- Eu aprovo o produto. – falou Uric Scheiffer – Nós que temos filhos sabemos como pode ser perigoso andar desprotegido. E ter em mãos este tipo de produto torna tudo mais seguro.

- Pode nos dar uma demonstração? – perguntou Timas.

Bernardo enfiou a mão dentro de um pote parecido com um de biscoito e retirou um punhado de uma areia brilhante e azulada, sem seguida disse:

- Cidade dos Elfos! – falando isto ele bateu a mão cheia de pó no próprio peito e uma chama azulada envolveu-o com ferocidade.

Alguns membros do conselho levantaram-se de suas cadeiras para olhar o que acontecera. Assim, deram-se conta de que ele realmente não estava mais ali. Um minuto se passou e os bruxos continuavam discutindo alguns assuntos que pareciam ser imediatos e então mais uma vez uma chama azulada se acendeu no centro do salão do conselho e Bernardo surgiu segurando uma maçã muito vermelha.

- Retirada do pomar da cidade. – falou ele exibindo o fruto em sua mão.

- Muito bem, Dorian. - prosseguiu Timas – Sua equipe desenvolveu um produto que pode ser útil, mas como não acredito em contos de fadas, qual o preço da patente?

- Cem milhões de flandres. – anunciou Dorian.

Flandres era a moeda circulante entre os bruxos, como o real no Brasil.

- Cem milhões! – exclamou Timas perplexo – Pelas barbas de Merlin! Isto é exorbitante! Não pagaremos este preço por um produto que faz as pessoas esfumaçarem! Sairia mais barato ensinar um cachorro a voar!

- É o nosso preço, senhores. – falou Dorian decisivo.

Os bruxos do conselho remexeram-se em suas mesas, pensativos. Apesar de cem milhões ser muito dinheiro para se gastar com uma única patente, eles precisavam daquele produto para acalmar os ânimos incontidos da população.

- Senhor, Ministro. – falou o fauno Saguior a Timas – Talvez não tenhamos outra escolha. Nossa gente precisa de proteção, e se não podemos produzi-la, necessitamos de comprá-la.

- Veja só como ele fala, nossa gente, já está achando que é um bruxo. – caçoou Dorian.

Bernardo Mecflex estava perdido naquela cena. Olhou para Cacius que estava cabisbaixo e então se aproximou da mesa de Dorian chamando-o em particular, mas isto não impediu que Kal pudesse ouvi-los.

- Senhor, o pó de bobetônia foi desenvolvido graças ao investimento do governo. Não podemos cobrar por algo que eles financiaram.

- Ora, Mecflex! Não seja ingênuo! Esta gente não sabe que os gastos foram pagos por eles. Aproveite esta oportunidade e terá uma vida melhor, rapaz.

- É que não me parece certo.

- O certo e o errado estão no ponto de vista de quem vê. Agora, cale-se ou não sairá com nada! – ordenou Dorian – Volte para o seu lugar e fique de bico calado!

- Mas senhor...

- Não me faça perder a paciência com você, Mecflex.

- Sim, senhor.

Kal pensou em comunicar a Cacius o que acabara de ouvir, mas não parecia necessário. O professor olhava fixamente para Dorian e seu rosto reproduzia claramente uma expressão angustiante e encharcada de repugnância.

- Conselho! – chamou Cacius de pé e mãos erguidas – Proponho que esta decisão seja tomada pelo novo Ministro da Defesa e Segurança Mágica.

- Quer fazer o plebiscito neste momento? – duvidou Timas.

- Sim.

- Talvez devêssemos passar esta responsabilidade para o presidente, afinal ele é a autoridade máxima deste estado. – disse o Ministro da Comunicação Mágica em protesto.

- Onde ele está agora, lacaio? – questionou Saguior olhando com desprezo para o homenzinho – Viajando, imagino. A negligência do presidente o torna incapaz de tomar qualquer decisão neste momento.

Encurralado, Timas Havany coçou a nuca e posicionou sua boca em frente à varinha usada como microfone e disse:

- Entremos em recesso por meia hora e em seguida faremos a votação que escolherá o novo Ministro da Defesa e Segurança Mágica.

Os bruxos do conselho levantaram-se de suas cadeiras e alguns ficaram parados no meio do salão conversando, eram vários os tipos diferentes de bruxos que estavam ali. Homens, mulheres, altos, baixos, bruxos bem vestidos e outros nem tanto, mas todos discutiam o mesmo assunto. Quem seria o novo Ministro da Defesa e Segurança Mágica. Ao que Kal sabia, Uric, Cacius e Dorian foram recomendados para o cargo, porém ele não tinha como saber os nomes dos demais indicados. Não parecia haver favoritismo, já que todos os integrantes do Conselho eram bruxos de importância na comunidade mágica. Altamente influentes e poderosos, qualquer um possuía os quesitos mínimos para exercer o cargo máximo da segurança do país.

- Maldito Dorian! – bravejou Uric que se juntara a eles durante o recesso – Ele quer enriquecer as custas do governo! Que atitude mais covarde, até mesmo para uma barata fina, como ele.

- Como assim? – indagou Kal.

- Dorian Gulemarc não tem o melhor histórico de honestidade dentro do governo. Mas ninguém se importa com isto por aqui. O fato é que ele foi subindo de posto à medida que ia derrubando todos a sua volta. – respondeu Uric sem vacilar nas palavras de efeito.

- Um estrategista miserável! – concordou Bernardo saindo furioso de dentro do salão – Maldito filho da mãe! Cem milhões! Cem milhões! O pó de bobetônia deveria ajudar as pessoas, e não fazer furos nos cofres do governo!

- Lamento que tenha que ser assim Bernardo. – disse Cacius recostando a mão no ombro do rapaz.

- Urgh! – bufou.

- Você inventa algo que pode salvar vidas, mas uma pedra cai bem em seu caminho. – prosseguiu Cacius sem ter se importado com a interrupção – No meio do caminho tinha uma pedra... li isso em um livro dos não mágicos. Eles sabem das coisas, às vezes.

- Sim, uma pedra magra e esquisita chamada Dorian Gulemarc! – ralhou Bernardo, cuspindo de tanta raiva.

- Falando de mim? – Dorian surgira entre as fileiras de mesas e carregava um irritante ar vitorioso – Fizemos a descoberta do século, não foi garoto?

- Pena que as pessoas não vão poder usufruí-la.

- Não fique tão desmotivado, garoto, tenho certeza absoluta de que o Conselho votará por um resultado favorável a nós. Vamos ganhar muito dinheiro!

- Mas esta não era a intenção! – retrucou Bernardo – Além do mais fomos pagos para desenvolver o pó de bobetônia!

- Escute, garoto – Dorian puxou Bernardo pela gola da camisa como se ninguém estivesse ali e então disse – nesta vida você precisa aprender a tirar os obstáculos do caminho, se continuar a me atrapalhar deste jeito significa que está no meu caminho, e isso não é bom! Prestou atenção?

Bernardo virou o rosto de cara amarrada e então concordou acenando levemente com a cabeça e com isso Dorian largou-o.

- Agora, preciso conversar com Timas. – cacarejou, enquanto se retirava.

- Porco imundo! Farte-se no seu dinheiro e poder! – amaldiçoou Bernardo quando ele já estava fora de vista .

- Algumas pessoas costumam se enforcar sozinhas, Bernardo. – disse Cacius sorrindo-lhe – Basta ganhar um pouco de corda e despretensão para subir a alturas que não os compete.

Alguns minutos de reflexão e puro silêncio se passaram entre os quatro, na entrada da sala de reuniões. Durante este tempo, Kal continuou a observar amiúde os membros do Conselho de Magia. Uma mulher de rosa que aspergira aromas durante a reunião estava a conversar com uma mulher coberta por um véu negro preso a seu chapéu pontiagudo. Elas pereciam excitadas de algum modo, sorrindo satisfeitas e trocando tapinhas nos ombros. Próximo ao elevador estava Saguior, recostado sobre a parede, cabeça baixa e fumando um longo cachimbo, que lançava ao ar uma fumaça azul prateada. Por uma fração de segundos os olhos escuros do fauno se encontraram com os de Kal, que rapidamente desviou a atenção, mas, com uma exultação percebeu um mexer de músculos no canto da boca do fauno, indicando um sorriso simpático.

Dentro do salão, praticamente vazio naquele momento, atrás do palanque onde o ministro da Comunicação Mágica discursara a pouco, estava Dorian Gulemarc e o próprio Timas Havany, discutindo em baixo tom de voz, com uma clara cumplicidade. Assim que Dorian se afastou do ministro, este retomou seu lugar de destaque e usou a varinha do palanque como microfone, mais uma vez.

- Atenção, atenção! – chamou – Por determinado motivo o plebiscito será antecipado. Por favor, quem não tem poder de voto se ausente da sala.

- Professor... – indagou Kal.

- Sim, Kal, infelizmente terá que sair.

Passos de casco em pedra puderam ser ouvidos e quando Kal, instintivamente olhou para a sua esquerda deparou-se com a figura barbuda de Saguior.

- Vamos, garoto, eu também não posso votar. – disse o fauno puxando-o pelo braço.

Os dois seguiram pelo átrio, os cascos do fauno fazendo barulho nas pedras à medida que dava um novo passo.

- Por que você não tem poder de voto, Saguior?

- Senhor. Refira-se a mim como senhor, gosto da formalidade.

- Tudo bem... senhor. – acrescentou.

- Não voto porque não sou um bruxo. Se não fosse por Cacius eu nem mesmo poderia opinar nas reuniões do Conselho. – disse de cabeça baixa, parando à frente do elevador – Quer saber, não ligo a mínima.

- Conheceu meu pai também? – perguntou Kal somente para puxar assunto enquanto os dois entravam no elevador.

- Era um bom homem, muito digno. Deve sentir saudades.

- Sim. – falou Kal achando que relembrar seu pai não fora uma boa idéia.

- Você não pôde fazer nada para ajudá-lo, não é mesmo?

Kal consentiu, pesadamente.

- Estava despreparado, mas a verdade é que não conheço muitos garotos que enfrentaram Kricolas e não saíram mortos. Bem, apenas você e aquele outro garoto no ano passado. Como é mesmo o nome dele?

- Thalis.

- Exato. Cacius me disse que o moleque esfumaçou bem no meio da floresta! Realmente um feito louvável. – disse Saguior apertando o botão número oitenta e cinco do elevador – Mas aquilo foi apenas sorte. Ele não se levantou e partiu para cima do homem que matou o seus pais.

Saguior estava revivendo na mente de Kal todo o doloroso momento da morte de seu pai por Kricolas, na Cidade dos Elfos.

- Nos tempos dourados de Donnovan e Kricolas, muitos tentaram, muitos mesmo. Alguns com experiência muito superior a de alunos de Avalon, e eles não tiveram a menor chance. Mortos no primeiro momento do combate. Corajosos, sim eram, porém uns tolos. É, garoto, teve muita sorte, muita sorte. Sorte somada à coragem é sempre um potencial. Vejo muito disso em você.

- Como assim? – perguntou Kal.

- Ora, você sabe duelar, não sabe?

- Um pouco, acho, mas...

- Não seja modesto, soube como você quase matou seu rival na Sala das Diferenças. – disse Saguior relembrando de outro momento do ano anterior de Kal, o que ele acidentalmente quase assassinara Rick Wosky, um garoto de Avalon a quem Kal odiara desde o primeiro instante.

- Como sabe disto tudo? – perguntou Kal achando que em qualquer banca de jornais havia um almanaque revelando tudo sobre sua vida.

- Cacius me disse. – falou o fauno abrindo a porta do elevador – Chegamos.

- Que lugar é este?

- O andar oitenta e cinco da sede do Conselho de Magia.

- Quantos andares ainda tem?

- Não sei. Não tenho tempo para ficar visitando. – respondeu secamente.

- O que viemos fazer aqui?

- Treinar.

- Han?

- Vamos, garoto, me ataque.

- Senhor, eu não...

- Eu disse para me atacar! – berrou.

Prontamente, Kal sacou a varinha da veste e apontou para o homenzinho a sua frente.

- Vamos lá, com o seu melhor!

- Escaparta! – berrou Kal e um lampejo azul partiu de sua varinha explodindo no peito peludo de Saguior.

- Nada mau, nada mau.

- Obrigado. – disse Kal encolhendo o corpo.

- Não baixe a guarda! Não baixe a guarda! – berrou o fauno mais uma vez – Quero que se defenda agora. Tudo bem para você?

Kal concordou com a cabeça, mesmo estando incerto.

- No três – começou o fauno – Um... dois... três... – Saguior lançou sobre Kal uma bola de luz amarela que atravessou o ar produzindo um zunido irritante, contudo, Kal defendeu-se bem.

- Réplica! – uma parede verde transparente surgiu na frente dele protegendo-o do feitiço e fazendo com que a bola de luz amarela retornasse em direção a Saguior, que facilmente desviou do próprio golpe.

- Hahahaha! – gargalhou – Muito bom, muito bom, garoto! Veja se consegue com este!

Saguior posicionou três dedos de sua mão de modo que formassem um triângulo do qual saiu um raio roxo e continuo.

- Réplica! – disse Kal mais uma vez formando a barreira de luz verde.

- Não desta vez! – Saguior manteve o feitiço que destruiu a proteção de Kal e o atingiu no ombro.

- Garoto, você está bem? – perguntou Saguior aproximando-se rapidamente de Kal que estava caído no chão.

- Acho que sim... por que, por que não pude me defender?

- Porque o seu feitiço protege apenas um ataque de cada vez. Um ataque contínuo pode facilmente atingi-lo. – explicou Saguior – Se pretende desafiar Kricolas precisa primeiro aprender a se defender.

- Como sabe que quero desafiá-lo, senhor? – perguntou Kal confuso.

- Vi em sua mente.

- Leu minha mente? – questionou indignado, mas não surpreso, pois sabia que era possível fazer este tipo de coisa.

- É a mente mais transparente que já conheci! Qualquer um pode ver quais pensamentos estão rondando por aí. – disse o fauno girando o indicador por cima da cabeça de Kal.

- Ok, mas não pedi a sua ajuda. – retrucou ainda indignado por ele ter lido a sua mente.

- Só porque não pediu não quer dizer que não precise.

Saguior estava sendo bem sincero em suas colocações, e um tanto grosseiro também. Zero de evasão e zero de delicadeza, todavia Kal ficara impressionado com a autenticidade que os faunos apresentavam.

- Posso te ajudar. Espere um momento aqui. – dizendo isto Saguior esfumaçou deixando um rastro marrom de fumaça.

Apenas meio segundo depois Saguior esfumaçara de volta bem no mesmo lugar.

- Tome. – falou ele segurando um livro com capa de couro.

- O que é?

- Um livro, oras.

- E para quê?

- Será que você não tem bom senso? – perguntou Saguior embravecido – Leia-o!

- As cinco maneiras de se defender dos bruxos das trevas.

- Isso. Agora que estão apresentados vamos ver se você aprende alguma coisa.

- Existem outras maneiras de se defender, além do Réplica?

- Por certo. São todas muito difíceis e complicadas, mas muito úteis. Vamos, garoto, temos pouco tempo para você aprender pelo menos um dos mais úteis.

Saguior afastou-se de Kal mantendo uma distância fixa de uns dez metros, ordenou que ele abrisse o livro na página trezentos e doze e que lesse o feitiço da página para se defender.

- Acha que está pronto para aprender a maior lição da sua vida?

Kal não sabia como proceder dali em diante. Todos os feitiços que ele sabia usar exigiram-lhe um bom tempo de prática e, agora, Saguior estava querendo que ele simplesmente se defendesse usando um feitiço completamente desconhecido! Talvez os métodos didáticos de Saguior não fossem os melhores, mas ele parecia saber o que estava fazendo, então, Kal confiou.

- Vamos lá, garoto! – exclamou o fauno segundos antes de disparar o mesmo raio contínuo de antes.

Kal agilmente abaixou a cabeça para ler o nome do feitiço e então levantou a varinha e disse com força:

- Égide Silver! – ela brilhou intensamente e logo se extinguiu como fogo, mas nada mais pareceu ter ocorrido. Nada de barreiras coloridas ou qualquer outra coisa, desesperado, Kal repetiu – Égide Silver! – outra vez a varinha brilhou e novamente se apagou, o golpe de Saguior estava cada vez mais próximo – Égide Silver! – por sua têmpora escorria uma gota de suor – Égide Silver! Égide Silver! – não ia ser derrubado sem se defender. Sentiu alguma coisa na região da sua nuca se remexer loucamente, um arrepio percorrendo-lhe os corpo até o umbigo, descendo seu dorso como água gelada, espremendo cada centímetro quadrado do seu corpo. Suas células pareciam estar agitadíssimas, como que submetidas a uma grande atividade física. Desanuviando os pensamentos de todas aquelas estranhas e novas sensações, ele encheu os pulmões para gritar – ÉGIDE SILVER!!!!

Desta última vez, uma bola de luz prateada cobriu todo o corpo de Kal como uma grande e poderosa bolha de sabão. O feitiço do fauno acertou a bolha, que começou a ondular em sinal de fraqueza, de segundo em segundo a ela piscava ameaçando extinguir-se, mas não podia... Saguior continuava a dez metros dali disparando o feitiço...

- Vamos ver até onde você agüenta! – desafiou o fauno.

Kal sabia que não duraria muita mais do que alguns segundos ali. Sua bolha protetora estava cada vez mais fraca e o golpe de Saguior estava perfurando-a. Ele não tinha muito mais tempo. Olhou para os lados procurando um esconderijo, porém o lugar era um completo vazio. Uma sala inutilizada. Kal Foster decidiu uma última manobra, sacudiu a varinha desfazendo a bolha que o protegia e abaixou-se para desviar do golpe direto, mirou em Saguior e disparou:

- Farfalha! – estilhaços vermelhos como vidro irromperam no ar de uma só vez e acertaram o rosto do fauno rasgando superficialmente sua pele.

- Por mil moedas de dragões! Que raio de feitiço foi esse? – murmurou o fauno levando uma das mãos ao rosto – Que droga foi essa? Era para se defender! Este feitiço me atingiu em cheio, mas Kricolas estará mais preparado! Precisa controlar o Égide Silver. Quero que pratique isto, me ouviu?

- Mas, senhor, achei que meu objetivo era derrotá-lo...

- Seu objetivo era apenas bloquear o meu golpe! Se não pode entender isto é melhor se virar sozinho!

- Desculpe se fiz algo de errado, mas...

- Sem mas ou meio mas, Foster! Você tem que aprender a ouvir os outros, se é isto que quer saber! Eu disse que era apenas se defender, e por Merlin, quase perco meu nariz! Estas coisas podem fazer estragos, sabia? – bravejou ele apontando para a varinha na mão de Kal – Agora, vamos! Devem ter acabado aquela maldita votação.

Kal nunca vira alguém tão sério e nervoso. Nem mesmo Amadeus Wosky, seu professor de Maldições em Avalon, um homem atormentado e exageradamente mal humorado. Saguior havia ultrapassado qualquer limite que ele conhecia e o que Kal achou pior fora o motivo pelo qual se irritara. Talvez o fauno tenha se irritado por ter sido facilmente derrotado por um garoto com pouco menos que quatorze anos. Ainda assim, alguma coisa em Kal dizia que Saguior tinha muito mais força do que demonstrara ali no andar oitenta e cinco da sede do Conselho de Magia.

domingo, 26 de julho de 2009

Capítulo 3 - Um Jantar a sete

Olá pessoal, decidi publicar o livro dois, Kal Foster e o Mestre das Sombras, por inteiro. Quero que vocês conheçam mais a história do Milagre Foster e o desenrolar dela ao longo do segundo ano de Kal Foster em Avalon. Desculpem-me pelo atraso com esta publicação, esperava que o livro fosse publicado antes disso. Mas nós não desistimos, não é? Quem sabe o segundo livro nos dê visibilidade para chegarmos a este sonho.
O capítulo abaixo é o capítulo 3 do livro, lembrando que o capítulo 1 e 2 já foram publicados há algum tempo. Abaixo seguem os links dos dois primeiros capítulos, assim você não perde nada da história.

Kal Foster e o Mestre das Sombras
Capítulo 1 - Boa noite, Ministro
Capítulo 2 - A casa Foster


Agora, com vocês:

Capítulo 3 - Um jantar a sete

Kal Foster desceu a rua novamente logo depois de Cacius, ele iria procurar revistas, jornais e até mesmo parar nas esquinas para capturar uma conversa entre as pessoas do bairro. Quando se entra em um novo ciclo de pessoas, todos sempre querem passar uma boa imagem de si, e os Foster queriam fazer isto.

Naquela manhã, Kal tivera sua primeira conversa com uma garota deste novo ciclo, mas, na verdade, ele sentiu-se em um interrogatório como os que ele vira nos filmes de bandidos e policiais que passavam à noite na televisão. Sara parecia estar segurando um questionário social, e cada resposta que Kal lhe dava virava uma nova pergunta.

Passando pela praça da rua, Kalevi procurou por Sara, porém não a encontrou.

Provavelmente ela deve estar em casa. Pensou, satisfeito.

Ele não sabia ao certo porque o interesse repentino na nova vizinha. Em sua cabeça ele remoeu a aveludada voz da garota e o seu sorriso honesto de tranqüilidade, um sorriso que até mesmo lembrava o de Cacius com o seu ar pacato. Talvez suas emoções estivessem sensíveis e se misturando a imagens de pessoas por quem ele possuía uma empatia avantajada.

Pelo caminho, já longe da Rua Guaçuí, Kal percebeu que estava sendo observado por diversas pessoas, e não eram pessoas disfarçadas de gatos, cachorros ou pombos, eram pessoas não mágicas que o encaravam de modo curioso, como se a frente deles estivesse um espécime raro de animal selvagem pronto para atacar. Todos o encaravam realmente muito curiosos. Kal pensou que talvez as pessoas soubessem que ele e o restante de sua família ficavam sempre reclusos na própria casa e estavam imaginando o que aquele menino de treze anos estaria fazendo rondado as ruas do bairro.

Ele parou por um instante e lembrou-se de que não sabia para onde estava indo, não sabia onde era a banca de jornal mais próxima, afinal, mal saíra de casa. Kal parou na esquina da Rua Chinchila onde uma placa indicava que à esquerda ficava a Rua das Gaivotas e à direita a dos Tormentos, ele ficou estático. Não sabia para onde ir, e antes que tivesse qualquer outra idéia teve seus pensamentos interrompidos por uma voz logo atrás de si:

- Está perdido, garoto? – perguntou um homem alto e robusto – Posso ajudar em alguma coisa?

Em seu mundo mágico, Kal sabia que poderia contar com a ajuda de qualquer pessoa que aparece, pois fazia parte da natureza dos bruxos o companheirismo, mas pelo que ouvira de alguns colegas que moram entre os não mágicos, ele não poderia confiar em qualquer um que lhe oferecesse ajuda. Lembrando-se disso, respondeu em prontidão:

- Não, senhor, estou exatamente onde quero estar. Muito obrigado.

Kal sentou-se no meio fio e esperou até que o homem tivesse sumido de vista. Levantou-se limpando a roupa e então percebeu a varinha no bolso de trás do jeans.

Foi bom ter trazido a varinha.

Para todos os bruxos havia uma só regra quanto à utilização da magia fora dos domínios do Governo Mágico; apenas em caso de perigo extremo – e mesmo assim escondido o máximo possível dos olhos humanos. Ao que constava a Kal, esta regra ainda tinha um parágrafo que dizia ser ilegal o uso de magia para fazer qualquer tipo de mal aos humanos, principalmente as maldições e os diversos tipos de transfiguração corpórea.

O sol estava brilhando forte no céu. Sem nuvens para bloquear alguns raios ou vento para refrescar, Kal começou a suar e arrependeu-se de estar usando jeans e blusa de frio, mesmo dobrando as mangas do moletom ele ainda sentia-se incomodado com a roupa e então desejou poder usar a varinha para fazer uma brisa de ar gelado como a que seu professor de feitiços, Tirso, fizera no ano anterior em uma de suas aulas.

Tirso era, de longe, o professor favorito de Kal em Avalon, não só pela matéria que ensinava, mas também pela sua simpatia e compreensão. Ele havia ajudado Kal com algumas questões que o rondavam, como o livro sobre projeção astral que comprara no início do ano anterior, com alguns mistérios a respeito Livro de Merlin e principalmente sobre Nicolas Weny, que no final das contas mostrou-se sendo na verdade Kricolas, o maior assassino de todos os tempos.

A projeção astral era um tipo de viagem que se fazia por um plano paralelo ao plano físico, um plano em que se podia voar e atravessar paredes como um fantasma e viajar na velocidade do pensamento. Nas férias de meio de ano, Kal fora para sua casa em Vila da Cachoeira com seu irmão Daimon, Guinevere e seu amigo Ralph, de lá eles viajavam todas as noites em projeção astral até a Cidade dos Elfos, a vários quilômetros de distância de onde seus corpos físicos estavam localizados.

Ralph Scheiffer tornara-se o melhor amigo de Kal no ano anterior, eles se conheceram no dia em que voaram em uma carruagem puxada por bruxos montados em vassouras voadoras até a Cidade dos Elfos. No início, os dois não entenderam-se muito bem, mas Guinevere fez o possível para que os dois pudessem desenvolver uma amizade. Ralph era filho dos Guardiões Chefes de Warren, a penitenciária para bruxos, e tinha um falcão de nome Osíris, o qual mandou, junto com Kal, uma carta para seus pais pedindo que lhes enviassem um retrato falado de Kricolas e alguns dias depois eles receberam uma resposta com a figura mais horrenda que já haviam visto.

Ralph era o amigo com quem Kal compartilhava alguns de seus segredos mais particulares, apesar de ainda não ter assumido oficialmente que estava interessado em Emanuela Goldemberg, isto era quase desnecessário de ser feito, pois o rosto dele brilhava com a simples menção do nome da garota. Emanuela foi a causa de Kal ter aceitado um convite para tornar-se guardião mirim dos terrenos de Avalon no Conselho Estudantil da escola. O presidente do Conselho, Rômulo Martins, o convidara na primeira semana de aula, no entanto ele não aceitara o convite de imediato, e quando o fez foi bravamente repreendido por Guinevere e Ralph, alegando que ele apenas aceitara o convite por causa de Emanuela. O que não era nenhuma mentira. Aquela fora a primeira e única briga a qual eles tiveram no ano inteiro.

Em Avalon, Kal também conheceu outras pessoas que o cativaram com a amizade, como Jonathan Mc’Oz, melhor amigo de Daimon, e Thalis Kinguest, um garoto também vítimas de Kricolas; seus pais foram brutalmente assassinados pelo meio-vampiro.

Um estranho mistério pairava sobre Thalis quando se conheceram, pois bruxos menores de dezesseis anos não conseguem esfumaçar, mas surpreendentemente, Thalis esfumaçou momentos antes de Kricolas conseguir estrangulá-lo. Após isto ele ficou perdido na Floresta Amazônica e foi atacado por Griphons, criaturas amarelas originárias do plano astral, com a capacidade de se materializar no plano físico. Encurralado e com medo, Thalis gritou por socorro, sendo localizado por Kal e Ralph. Enquanto Ralph buscava ajuda, Kal embrenhou-se floresta adentro e livrou-se dos Griphons. A partir daquele dia, Thalis começou uma nova vida como bruxo. No final do ano, ele soube que sua mãe era de uma família de bruxos e que ela havia se desligado da magia após ter perdido seus pais pelas mãos de ninguém menos do que Kricolas.

O meio-vampiro fazia inimigos por onde passava, nos últimos anos ele matara mais pessoas do que se pode contar com os dedos, deixando crianças órfãs e mulheres viúvas, a última de suas vítimas, pelo menos que se tem notícia, fora o Ministro da Defesa e Segurança Mágica, Mardo Runifer, e Kal não sabia ao certo o que aconteceria ao Governo com esta perda tão significativa. A morte de Mardo, para Kal, tinha um valor muito mais simbólico do que simplesmente psicopata. Agora, todos sabiam que as forças do mal não estavam para brincadeiras, e que com o Livro de Merlin em mãos, Donnovan estaria de volta à vida em pouco tempo.

Há exatos novecentos e noventa e nove anos, Donnovan, ou, Cavaleiro Negro, foi o maior bruxo das trevas em toda a terra. Ele liderou massacres contra os humanos, acreditando que por não possuírem dons mágicos, eles deviam ser considerados criaturas inferiores, meros erros da evolução das espécies, e que ele tinha a missão de aniquilar esta raça de humanos imperfeitos. Donnovan conseguiu reunir um vasto exército de bruxos das trevas e outras criaturas mágicas que comungavam da mesma idéia.

Felizmente, havia Merlin e seu discípulo Foster, o primeiro antepassado de Kal, juntos eles inauguraram a Escola de Magia de Avalon. Uma escola onde bruxos, ou não, qualquer interessado em magia poderia aprender a arte. Para livrar-se das perseguições do exército das trevas e de alguns humanos que passaram a temer os bruxos pelo seu poder, Merlin e Foster ergueram o castelo acima das nuvens, onde logo abaixo formou-se a maior cidade encantada do país, a Cidade dos Elfos.

Avalon tinha um aspecto de castelo medieval, no entanto era tão novo e tão conservado, de longe diria-se que o castelo possui mais de novecentos anos. São vários os encantos que protegem os segredos do castelo, a começar com as nuvens que o cercam, formando uma densa muralha natural, onde qualquer viajante não convidado poderia ficar perdido eternamente.

Tão perdido quanto estava Kal naquele momento. Ele já dera a volta em três quarteirões quando percebeu que estava completamente desnorteado. Estava em seu ponto de partida, na mesma esquina em que um homem robusto lhe oferecera ajuda. As pessoas dentro das lojas continuavam a olhá-lo atenciosas, porém agora elas tinham um motivo. Kal havia circulado os quarteirões da redondeza e todos estavam curiosos para saber o que aquele garoto de família tão estranha estava fazendo ao circular pelo bairro?

Ele decidiu que era hora, então, de perguntar. Perguntar ao primeiro que passasse em sua frente, fosse quem fosse. Afinal, ele estava com sua varinha e não iria se importar em usar caso corresse perigo.

Logo a sua frente vinha uma mulher, uma senhora já de idade, tinha o cabelo curto, um vestido comprido que lembrava um tipo de camisola e calçava um sapatinho de couro. Kal já estava separando os lábios para perguntar onde ficava a banca de revistas mais próxima, quando um cão de porte médio e pelos amarelos pulou a sua frente tirando-lhe um pequeno grito de espanto. Ele colocou a mão direita na calça e tocou a varinha, ele sabia que aquele não era um cão, era um bruxo transformado.

Cães não saltam na frente das pessoas desse jeito.

- Hei, garoto! Espere. – falou o cão de cabeça baixa.

- Quem é você?

- Katrini Likiniki. – respondeu – Guarda de Warren. Sua mãe me disse que você havia saído e estava demorando.

- Oi.

- Está perdido, não é?

- Preciso ir até uma banca de revistas. Sabe onde tem uma?

- Vem comigo.

Era a situação mais inusitada que já acontecera na Rua Chinchila, um garoto após ficar completamente perdido parecia ter conversado com um cachorro e agora o estava seguindo. Ninguém parecia querer acreditar naquilo, então resolveram se dedicar cem por cento ao que estavam fazendo e esquecer as sandices do novo morador do Araçá.

Alguns mais curiosos continuavam a observar Kal das janelas dos prédios no segundo andar, e ele lembrando-se do que Cacius fizera quando fora até sua casa e todos os moradores o encararam intrigados, começou a distribuir “boa tarde” a todos que o observavam.

- Fique quieto! – ordenou Katrini – Não chame a atenção.

- Conversar e seguir um cão chama muito mais.

- Certo, da próxima vez arrumamos uma coleira...

Katrini conduziu Kal por várias ruas, fazendo curvas e desvios, no fim, a Guarda de Warren deixou o garoto em uma banca de revista chamada Tulipa. Kal lembrou-se imediatamente da floricultura da Cidade dos Elfos, a Flor-de-Lis. Ela era a mais antiga de todas as floriculturas do país e fora fundada pelo Governo mágico após a construção de Warren. A floricultura carregaria a marca com que os prisioneiros de Warren recebiam ao serem presos, a Flor-de-Lis. Algo parecido com uma espada com pétalas nas bordas. No ano anterior, Kal visitara a floricultura com Ralph, Guinevere e Daimon, onde cada um comprou um tipo de planta. Kal escolhera sem querer a planta mais difícil de se cuidar, a Herviana gornóide, um tipo de planta subterrânea sensível à luz.

- Bom dia, senhor! – cumprimentou Kal a um homem gorducho e muito sujo.

- Bom dia. – respondeu o homem enquanto limpava a mão suja de doce na camiseta branca.

- Tem revistas e jornais?

- Isto aqui é uma banca de revistas e jornais.

- Certo. Certo. – disse Kal sem entender direito o que o homem havia dito – Eu quero o jornal de hoje.

- Qual? – perguntou o homem exibindo na prateleira alguns exemplares.

- Ah... este! – apontou Kal para um em que havia um anúncio de cereal.

- Um real.

- Ok. – disse separando o dinheiro sem muita dificuldade.

- Mais alguma coisa?

- Vou olhar as revistas.

- Tudo bem. – falou o homem enfiando mais um pouco do doce enquanto pegava um jornal para ler.

Kal leu alguns títulos, mas não sabia ao certo o que eles queriam dizer. As pessoas daquele mundo tratavam de diversos assuntos ao mesmo tempo, uma única revista podia abordar os mais variados temas e Kal não sabia qual escolher.

Ele olhou mais uma vez e decidiu por pegar uma em que havia um casal em pose de meditação. Ele achou que falar sobre guerras e desastres naturais em um jantar não seria muito amistoso.

- Eu quero esta.

- Então compre. – respondeu o homem impaciente – Você não é daqui, é garoto?

- Sou é... sou do norte.

- Sei... – disse o homem com uma expressão estranha – São sete e cinqüenta.

- Tome. – disse Kal estendendo uma nota de dez.

- Obrigado. – agradeceu enquanto entregava o troco ao garoto e ainda assim olhando de esguelha para ele.

Kal enfiou o restante do dinheiro no bolso e olhou para Katrini que estava se coçando logo mais à frente. Ele saiu de dentro da banca de jornais e seguiu até a bruxa disfarçada. Ela o esperava impaciente e assim que se aproximou ela parou de se coçar e o seguiu dizendo:

- É cada humilhação que temos que passar para manter o emprego...

- Você podia se transformar num pássaro, não?

- Não tenho permissão para isto?

- Como assim?

- Warren ordenou-me assumir a forma de um cão.

- É assim que funciona, então?

- Não é tão ruim.

- O que pode ser pior? – perguntou Kal imaginando algumas possibilidades estranhas.

- Certa vez, tive que me transformar em vaca. Nestas horas, o que mais sinto falta são dos polegares!

- Imagino.

Ao chegar na praça da Rua Guaçuí, Katrini Likiniki seguiu por outro caminho, mas Kal já estava em segurança. Alguns dos guardas de Warren perambulavam pela rua em sua tarefa de proteger os Foster contra qualquer perigo. Kal estava curioso para saber o que havia acontecido no Governo após a morte de Mardo, mas não quis entrar em detalhes com Katrini no meio de várias pessoas. Certamente elas estranhariam o tipo de conversa e também o ouvinte. Ele subiu a rua folheando as páginas do jornal à procura de uma manchete interessante e que pudesse render um bom assunto...

Antes que Kal pudesse chegar em casa, seu irmão, Daimon, veio correndo ao seu encontro com o rosto pálido e suando frio. Daimon estava com uma camisa de botões, que estava aberta até quase a metade do peito. O garoto parecia estar muito ofegante e Kal parou no meio da rua para que ele pudesse se explicar melhor.

- Vem... comigo... mamãe... depressa!

Kal dobrou os joelhos para pegar um melhor impulso e saiu rua acima puxando o irmão pelo braço. Daimon quase não tocava o chão, tamanha a força que Kal fizera para arrastá-lo. Os dois chegaram em casa quase que expulsando os pulmões. Amanda estava sentada na sala praticamente desmaiada, Guinevere ao seu lado abanando.

- O que aconteceu? – perguntou Kal ao entrar.

- Graças a Deus, meu filho, que você chegou. Estava ficando preocupada...

- Não precisava. Katrini estava comigo.

- Sim eu sei, mas... mas aconteceu algo terrível. Cacius não tinha o direito de nos ter escondido isto... não tinha.

- Do que ela está falando? – perguntou Kal a Daimon sem entender a que Amanda se referia.

- Olhe isto. – disse Daimon pegando uma folha de pergaminho em cima da televisão – É o jornal de hoje.

Kal segurou a folha em frente aos olhos e leu em voz alta.

Falhas da segurança, morre um ministro

Morreu na semana passada o Ministro da Defesa Mágica, Mardo Runifer. O ministro, que ocupava o cargo há pouco menos de dez anos, foi brutalmente assassinado pelo meio-vampiro Kricolas, que segundo dados do próprio ministério, já assassinou mais de quinze pessoas só neste ano. O caso havia sido abafado pelo governo na tentativa de conter os ânimos da comunidade mágica. Mesmo com tanta precaução, a notícia vazou e informantes que gozam de nossa inteira confiança, nos afirmaram que o assassinato ocorreu por volta de nove da noite do dia sete de janeiro.

Hoje, o ministério ainda não se pronunciou quanto o caso. Soubemos que ontem foi realizada uma reunião com os Guardas de Warren para determinar que todos permaneçam em seu posto até um novo ministro ser nomeado.

Alguns nomes foram indicados durante a reunião, e entre a lista, os três mais importantes são: O diretor da escola de Magia de Avalon, Cacius Henrique Emrys; o até então Guardião Chefe de Warren, Uric Scheiffer e o atual Secretário de Defesa e Estratégia do Estado Mágico, Dorian Gulemarc. Não conseguimos depoimentos a respeito dos dois primeiros bruxos, mas sabemos que, no passado, Cacius Henrique ocupou o cargo de vice-presidente por alguns meses e após esta experiência foi indicado para outros cargos de importância dentro do Governo, mas recusara a todos os convites em nome de sua escola. Uric Scheiffer é um personagem em ascensão no país, e não se sabe muito mais do que a sua função em Warren.

No entanto, o transparente Dorian Gulemarc visitou nossa redação e disse que caso ele seja escolhido pelo Conselho de Magia, do qual os três candidatos fazem parte, para assumir o papel de Ministro da Defesa e Segurança Mágica, sua primeira meta será colocar guardas a paisana por todo o país “em busca do sanguinário Kricolas”, como mesmo frisou. Ele disse não entender porque o governo quer esconder uma calamidade como esta. “Temos um monstro perigoso à solta e devemos contar com o máximo de ajuda possível. As pessoas precisam saber!”.

Quando inquirido se Kricolas vasculhara alguns departamentos do prédio sede do Governo, o Secretário apenas disse que Kricolas roubou os relatórios do Programa de Proteção a Vítimas e Testemunhas, que ficavam no mesmo andar da sala de Mardo Runifer.

Kal parou perplexo. Não acreditara no que lera. Aquilo definitivamente não poderia ser verdade. O Programa de Proteção a Vítimas e Testemunhas do Ministério da Defesa e Segurança Mágica, era o programa em que os Foster estavam inscritos. Se Kricolas estava com os relatórios era certo que ele também sabia onde estavam morando.

- Você acha possível que... – perguntou Daimon, a Kal, olhando para sua mãe que continuava a ser abanada por Guinevere.

- Que ele venha atrás de nós? – completou Kal.

- Não há como afirmar nada. Por hora é melhor esquecermos isto.

- O que disse, meu filho?

- Que estamos seguros, mamãe. Têm mais de trinta guardas lá fora prontos para se transformarem e atacarem qualquer pessoa que tente nos ferir. – falou Kal num tom de voz confiante.

- É isto mesmo senhora. Enquanto estivermos aqui não há com o que se preocupar. – falou um gato laranja e pouco peludo que estava na janela ao lado de um segundo gato. Ele era persa e tinha os pêlos acinzentados.

- Olá. – cumprimentou Amanda.

- Estaremos atentos a qualquer coisa. – disse o persa.

- Ih! Olha um novelo!

O gato laranja pulou da janela e caiu de pé sobre um novelo de lã que usou como brinquedo.

- Adoro ser gato.

- Cale a boca, Fred! – cortou o persa enquanto saltava da janela e assumia a forma humana, um homem alto com o uniforme branco e cinza de Warren combinando com seus cabelos longos, lisos e grisalhos – Senhora Foster, meninos, senhorita. Eu sou Stuart, e este é Fred – o gato laranja pareceu não se incomodar com a apresentação e continuou brincando com o novelo de lã – Nós montamos um esquema de segurança para que possam ficar tranqüilos. Sempre que quiserem ir além da praça nos informem que enviaremos alguma escolta.

- É, mas também pedimos para que não saiam de casa à noite porque queremos descansar também.

- Fred, você quer perder o emprego não quer? – perguntou Stuart, secamente.

- De forma alguma. – falou ele, também voltando à forma humana, a de um rapaz de vinte anos, magrelo e de cabelos ruivos – Eu ainda vou ser Ministro da Defesa e Segurança.

- Torça para a noite chegar logo que isto acontece, com certeza. – falou Stuart tirando risadinhas de Kal, Daimon e Guinevere – Muito bem então, acho que agora temos que ir. Não queremos incomodar vocês.

- Obrigada, Stuart e... Fred. – falou Amanda percebendo que esse continuava a brincar com o novelo de lã mesmo depois de ter se transformado – Agradecemos por tudo que vocês têm feito por nós, e vamos contribuir para não dificultarmos muito as coisas.

- Tenham uma boa tarde, então. Vamos Fred, e por Merlin largue este novelo. – grunhiu Stuart antes que os dois se transformassem novamente em gatos e saltassem pela janela.

- Viu só mamãe. Estamos seguros. – disse Daimon.

- Sim, estamos, mas Cacius não poderia ter nos escondido o fato de Kricolas saber onde moramos...

- Ele não sabe. – disse o professor que acabara de esfumaçar ao lado da janela – Desculpe-me por chegar assim, sem avisar, mas é que estou num pequeno intervalo de uma reunião e precisava vir o mais rápido possível.

- Já sabemos de Kricolas, professor. – falou Daimon.

- Sim. Era exatamente isto que vim avisar. Podem ficar tranqüilos. Kricolas não tem o endereço de vocês. – afirmou ele com toda segurança.

- Mas aqui diz que os relatórios... – argumentou Amanda segurando o jornal.

- Sim, o Folha Mágica gosta de acrescentar muitas informações nos seus textos. Contudo nem todas são verídicas. Os relatórios que Kricolas roubou não continham qualquer informação sobre o Programa de Proteção a Vítimas e Testemunhas. Na verdade ele roubou apenas um dossiê explicativo esclarecendo as metas do programa.

- Então ele não sabe onde estamos? – quis assegurar-se Amanda.

- Não.

- E onde estão os relatórios? – perguntou Kal curioso.

- Em um lugar onde ele nunca poderia entrar.

- Avalon? – sugeriu Kal.

Cacius sorriu, como se estivesse contente com a resposta de Kal, porém corrigiu-o logo em seguida.

- Warren. Todos os relatórios estão lá. Em segurança.

- Isto me alivia muito, professor... – confessou Amanda.

- Eu imagino como se sente. – disse Cacius retirando um relógio prateado de dentro do bolso das vestes – Desculpe, preciso ir agora. Está na hora da reunião. Sinto muito, só que não poderei ficar para jantar, senhora Foster. A reunião vai se prolongar. Vejo vocês outra hora. Até mais.

Mal terminara de dizer as últimas palavras, o bruxo já estava esfumaçando outra vez, deixando apenas um colorido esfumaçado que rapidamente sumiu com a ajuda do vento. Kal estava a meio segundo de perguntar ao professor o que era o Conselho de Magia que o Folha Mágica enfatizara, então deduziu que devia ser uma espécie de assembléia, onde os grandes bruxos do país votavam leis entre outras decisões.

- Bem, agora que estamos certos de nossa segurança acho que podemos nos preparar para receber nossos visitantes. – falou Amanda.

Os quatro sentaram-se no chão da sala e distribuíram os cadernos de notícias do jornal. Leram sobre economia, turismo, ciência, tecnologia, esportes e algumas outras novidades internacionais. A revista que Kal comprara não fora tão útil, pois em sua maior parte era composta por anúncios, sobrando poucas páginas de matérias bobas e outras cheias de fotos de pessoas em festas. No geral, os Foster e Guinevere conseguiram ter uma mínima noção a respeito do mundo não mágico, pelo menos o suficiente para cogitar um breve assunto.

Por volta das seis horas, Amanda e Guine entraram na cozinha com um caderno de receitas, enquanto Kal e Daimon limpavam a sala e a copa. Os dois trancaram toda a casa e fecharam as cortinas, a fim de poderem usar magia para facilitar o serviço de limpeza. Após isto, os dois começaram a trocar as lâmpadas, queimadas graças à radioestesia, sintonizaram a televisão, que insistia em não pegar, estenderam um tapete verde no chão da sala e acenderam alguns abajures pela casa para que não passassem vergonha caso uma lâmpada deixasse de funcionar. Depois de arrumarem a casa, os quatro vestiram roupas bem sociais, como as que viram nas fotos da revista que Kal comprara.

- Acho que acabamos. – falou Daimon largando-se no sofá.

- Já são sete e meia. Os Chiabai podem chegar a qualquer momento.

Eles sentaram-se em frente à tv e passaram a assistir o noticiário das sete. Naquele dia as notícias não eram tão boas. Quatro acidentes de carro e cinco mortes, Kal prestou bem atenção para ver se relacionava os ocorridos à Kricolas, no entanto parecia improvável que o meio-vampiro tivesse suicidado três pessoas e atirado em outras duas.

Às oito da noite, a campainha do interfone dos Foster tocou e de um salto os quatro levantaram-se do sofá com os corações acelerados. Daimon retirou o interfone do gancho e disse:

- Chiabai?

- Oh, sim! – falou o senhor Alexandre Chiabai, através do interfone.

- Podem entrar. Não temos cachorro. – disse Daimon desligando o aparelho – Estão vindo.

Kal e Guinevere ficaram ao lado de Amanda, na porta de entrada, prontos para recebê-los enquanto Daimon se certificava de que a lasanha que sua mãe e Guine fizeram não estava queimando dentro do forno.

- Está ok. – falou ele ao se juntar aos três.

- Olá! – disseram Alexandre e Mara Chiabai ao entrarem e cumprimentarem todos.

- E sua filha? Não pôde vir? – perguntou Amanda.

- Oh, ela virá. Estava com umas amigas em casa e por isso se atrasou. Em instantes ela chega.

- Por favor, entrem... – falou Amanda conduzindo-os até a cozinha.

- Será que ela vem mesmo? – perguntou Guinevere a Daimon e Kal e os dois deram de ombros.

Amanda, o senhor e a senhora Chiabai sentaram-se na mesa da cozinha e conversaram tranqüilamente, Amanda prestava atenção no que os dois falavam entre si, e logo percebeu que humanos e bruxos não eram nada diferentes. Aqueles dois estranhos despertaram nela uma alegria que há tempos não sentia. Amanda e seu marido Adonis conversavam longamente durante o dia, e ela sentia falta disso. Ter alguém para partilhar idéias e sugestões. Era certo que Cacius sempre a visitava, mas em geral não havia muito o que conversarem, nem ela queria fazer o professor perder seu valioso tempo discutindo sandices. Os guardas de Warren passavam a maior parte do tempo na forma de animais e eles precisavam estar sempre concentrados, então ela não os incomodava. Desde que se mudaram de Vila da Cachoeira, portanto, seus únicos parceiros de conversa eram três adolescentes. Mas Amanda ainda achava que suas conversas não eram tão atraentes para os três. E agora, ali, olhando para aquele casal sentiu-se finalmente contente por ter com quem trocar idéias, mesmo que não fosse sobre o seu verdadeiro mundo.

É uma pena que eles não possam saber de nós, talvez se interessariam... Pensou, em um leve entusiasmo.

Entediados, Kal, Guine e Daimon saíram pela porta da frente e caminharam pelo jardim até o portão de entrada. Quando tentaram abri-lo deram-se conta de que os Chiabai o haviam trancado e que eles estupidamente esqueceram as chaves.

- Vocês acham que tem alguém espiando? – perguntou Kal.

Os dois espreitaram os olhos pela vizinhança, primeiro na casa de Alexia Almeida, a fofoqueira de plantão, se ela não estivesse olhando ninguém mais estaria.

- Acho que não tem ninguém espiando. – falou Daimon.

- Opandor! – disse Kal com a varinha apontada para a tranca do portão.

- Posso saber aonde os três estão indo? – perguntou uma voz familiar vinda de cima de uma árvore ao lado do portão dos Almeida.

- Quem está aí? – perguntou Kal escondendo a varinha.

- Por Merlin, vocês são uns teimosos! – falou novamente a voz de cima da árvore – Sabem que têm que nos avisar quando tiverem intenção de sair.

- Só vamos dar uma volta.

Um gato laranja e de pelos curtos saltou da árvore com a verdadeira destreza de um felino. Era Fred.

- Eu os acompanho. – disse o guarda de Warren.

- Tudo bem, mas de longe. – impôs Guinevere.

- Será que um de vocês poderia me carregar no colo? Acho que machuquei a pata quando saltei da árvore...

Os três entreolharam-se com as sobrancelhas erguidas e bufaram.

- A menos que prefiram ficar em casa...

Daimon puxou o gato pela nuca e segurou-o como se fosse um bebê.

- Obrigado. Vocês são muito gentis. – agradeceu Fred enquanto lambia sua pata dianteira.

Os quatro seguiram rua abaixo até a pequena praça, onde na manhã daquele mesmo dia Kal conversara com Sara Chiabai. A vizinhança estava silenciosa, algumas poucas luzes acesas dentro das casas e nada mais, apenas dois postes estavam com as luzes queimadas e alguns outros passaram a piscar quando eles passaram por baixo.

- Estranha essa tal de radioestesia, não? – comentou Fred.

- Tão estranho quanto gatos falantes. – disparou Guinevere.

- Estive pensando em comprar botas, soube de um famoso que usa botas.

- Quieto! – advertiu Kal.

Ao se aproximarem da casa de Sara, ele pôde ouvir barulhos de conversa e sentiu uma imensa vontade de tirar a varinha do bolso e usar o Captus, feitiço que dá ao bruxo uma super audição capaz de ouvir qualquer coisa com perfeição num raio de um quilômetro.

- Ela é legal? – perguntou Guinevere, desconcentrado Kal de seu pensamento.

- Sim. – respondeu ele rapidamente.

- O que vocês vieram fazer aqui? – perguntou Fred.

- Nada. – disseram os três.

- Pelas grades de Warren! Eu estava dormindo como um bebê e vocês vêm aqui por nada! – resmungou o gato.

- Ninguém te convidou... – disse Daimon que já estava cansado de carregá-lo no colo.

Os três sentaram-se nos mal cuidados balanços e Kal ficou a olhar para a casa de Sara, quase que hipnotizado. Ele nunca sentira algo parecido. Talvez nem mesmo por Emanuela Goldemberg, por quem era apaixonado, nem isto ele tinha mais tanta certeza. Mas sabia que naquela manhã, algo acontecera entre ele e Sara Chiabai. Algo estranho e talvez bonito. Mas ainda assim não sabia se era exatamente amor.

Nas últimas semanas, ele assistira a vários filmes, e em diversos deles os personagens falaram em amora à primeira vista. Porém ele achou que aquilo era uma técnica de cinema, uma que construir um verdadeiro amor em menos de duas horas era impraticável, então, inventou-se o “amor à primeira vista”. E ele não queria ser influenciado por uma corrente amorosa de cinema. Definitivamente não.

- Está pensando nela? – perguntou Daimon de supetão.

- Sara. – completou Guine.

- Acho... acho que sim. – respondeu com toda sinceridade, coisa que não era muito comum, Kal sempre achara que os seus sentimentos não deviam ser compartilhados.

- Temos alguém apaixonado por aqui? – perguntou Fred.

- Disse para ficar quieto! – repreendeu Kal.

- Cara, você está caidinho pela não mágica! – gargalhou Fred balançando as patas no colo de Daimon.

- Fica quieto. – disse Daimon, que se esforçava para conter o gato.

- Não mágicos e bruxos são como água e óleo, seu burro. Não dá para misturar.

- Saia daqui! – trovejou Guine com o guarda que começava a agir impertinentemente.

- Não posso abandonar meu posto.

- Que pena. – disse Kal, o mais calmo entre eles. Não se importava em nada com as opiniões de Fred ou do conceito de que não mágicos e bruxos são criaturas muito distintas. Dificilmente ele se abatia com o julgamento alheio.

Eles ficaram sentados ainda um bom tempo conversando, sobre qualquer outro assunto que não fosse a vida amorosa de Kal, até que Sara Chiabai saísse de casa com suas três amigas por volta de nove horas. Kal admirou a vizinha em sua saia até um pouco acima dos joelhos e sua camisa de manga comprida verde, àquela noite fazia frio, mesmo estando no verão.

- Boa noite. – disse a garota aos três.

- Boa noite. – responderam.

- Bonito gato. – falou ela olhando para Fred que se espreguiçava no colo de Daimon.

- Não é meu. – falou ele jogando o gato para frente – Só estava... só estava com ele.

- Entendo.

Fred aproveitou que Sara estava de costas para ele e fez língua para Daimon em protesto.

- Estavam me esperando? – perguntou a garota – Desculpe-me fazê-los esperar.

- Não. Tudo bem. Só estávamos... aqui. Só isso... – disse Kal, meio que gaguejando.

- Eu sou Guinevere. – disse apresentando-se para Sara.

- Oi! Kal me falou sobre você hoje de manhã. – respondeu ela.

- Acho que... acho que estão... estão nos esperando. – disse Kal cabisbaixo e se odiando por estar gaguejando tanto.

Ele adiantou o passo e saiu na frente dos três, no entanto ao atravessar a rua até a esquina da casa de Sara ele sentiu um arrepio gelado em seu estômago como se tivesse engolido uma pedra de gelo naquele momento e um frio cortante alisou sua nuca. Aparentemente, apenas ele sentira aquilo. Guinevere, Daimon e Sara continuaram o caminho passando por ele, Fred seguia-os logo atrás.

Kal concluiu que era apenas um vento, um vento como qualquer outro e que não era motivo para pânico. Ainda mais na presença de Sara.

- Algum problema, Kal? – perguntou ela ao reparar que o garoto estava muito atrás deles.

- Oh! Não, não. Tudo ok. – disse meio que sem confiança e correu para acompanhá-los.

- Se isso te ajuda rapaz, eu também percebi. – disse Fred de cabeça baixa quando Kal passou por ele – Vão para casa! Depressa!

Kal acenou com a cabeça e se apressou mais ainda fazendo com que os outros três acompanhassem seu passo acelerado.

- O jantar deve estar pronto, não é?

Amanda e Guinevere fizeram um excelente trabalho na cozinha. A lasanha estava no ponto de cozimento exato e não houve falhas no tempero, até mesmo o paladar mais exigente se renderia àquela comida. Quando os garotos chegaram em casa, Amanda acabara de pôr os pratos na mesa com a ajuda de Mara, que apanhara uma jarra de suco de laranja dentro da geladeira e servira nos copos de vidro, cada um com três cubos de gelo.

- Parabéns às cozinheiras! – disse Mara.

- Obrigada. – responderam Amanda e Guinevere em coro.

Os assuntos da mesa divergiram sobre tudo o que os Foster leram. Naturalmente eles incitaram o assunto que tinham decorado na ponta da língua, para ganhar uma certa vantagem, e de forma que não se perdessem com as notícias recém adquiridas. Os Chiabai foram agradáveis em suas respostas e tinham uma visão bem politizada dos assuntos. Sara, apesar de parecer o tipo de garota que não entende muito além de maquiagem e shopping, mostrou-se bastante franca e confiante em suas afirmações. A cada palavra que a moça soltava, Kal sentia seu pelo eriçar de entusiasmo e alegria de ter, supostamente, se apaixonado por alguém tão encantadora.

Em dada hora da noite, os Chiabai perguntaram se eles não gostariam de sair todos juntos para um passeio entre amigos. Mesmo indecisa sobre a idéia, Amanda perguntou aos visitantes:

- Têm alguma sugestão?

- Chegou um parque na cidade. – falou Sara – Todos os meus amigos já foram lá.

- Parece uma boa idéia. – disse Kal olhando timidamente para a garota a sua frente.

- Dentro do parque tem um circo também. – prosseguiu Sara.

- Ótima idéia! – disse Alexandre – Faz tempo que não vamos a um circo, querida.

- Acho que a Sara era uma criança. – completou Mara.

- E vocês? – perguntou Sara a Kal, Daimon e Guine – Já foram a um circo?

Os três entreolharam-se e dirigiram o olhar a Amanda, que respondeu:

- Sim. Fomos. Mas eles eram tão pequenos, duvido que lembrem de muita coisa. – mentiu. Os Foster nunca se quer chegaram próximo a um circo, muito menos um parque de diversões.

- É uma boa idéia, então? – perguntou Daimon à mãe.

- Sim, claro. – respondeu ela, temerosa.

- Quando vamos? – perguntou Guine entusiasmada.

- Por que não vamos logo amanhã. – sugeriu Alexandre.

- Ótimo. O parque abre às dezoito horas. – disse Sara.

- Legal então. Combinado. – respondeu Kal e assim que terminou de falar sentiu novamente um arrepio na barriga e o vento na nuca.

Novamente nenhum dos presentes pareceu sentir a mesma sensação, porém ele agora tinha certeza de que não era apenas um vento. Olhou para sua mãe na ponta da mesa e ela parecia estar nervosa com alguma coisa. Os talheres em suas mãos estavam tremendo e Kal viu uma pequena gota de suor descer pela testa de Amanda.

Kal voltou ao seu prato para dar mais uma garfada no pedaço de lasanha que acabara de cortar e assim que o colocou na boca engoliu-o em seco ao ouvir um som rouco, quase como um agouro vindo da janela. O menino olhou para fora e viu o lago refletir calmamente a luz da lua por um breve instante, mas no segundo seguinte a água agitou-se provocando um movimento de ondas, como se uma pedra bem grande tivesse sido jogada no lago, no entanto, naquela ocasião, ele sabia que não fora uma simples pedra.

Olhando mais fixamente para fora, percebeu uma pequena agitação entre os guardas de Warren que corriam de um lado para o outro do lago. Era um movimento sincronizado como se estivessem isolando-o, verdadeiramente fazendo uma muralha. Kal suspirou profundamente quando um guarda inicialmente transfigurado em pombo sobrevoou o lago e transformou-se em peixe, mergulhando de cabeça. Fora uma sorte os três Chiabai estarem posicionados de costas para a janela.

- Algum problema, Kal? – perguntou Mara percebendo que o garoto estava catatônico e olhando fixamente para fora.

- Não. Não há problema nenhum. Só os peixes que estão pulando muito hoje. – respondeu nervosamente.

Amanda percebendo a situação pronunciou-se antes que um dos visitantes também se interessasse pelos peixes que Kal mencionara e olhasse para trás.

- Kal, está frio aqui não está? Por que não fecha a janela, querido. – sugeriu.

Kal balançou a cabeça positivamente, talvez ele mesmo tivesse aquela idéia um minuto mais tarde. Antes de fechá-la, enfiou a cabeça para o lado de fora e procurou pelos guardas. Todos tinham sumido.

- Feche logo, querido. – disse mais uma vez Amanda, em claro tom de nervosismo.

Ele puxou as vidraças e desceu a persiana, de forma que nada que acontecesse do lado de fora pudesse ser visto ou percebido por nenhum deles ali da cozinha.

Quando o relógio na parede marcou dez e meia, os Chiabai levantaram-se agradecendo pelo jantar e recombinaram o encontro do dia seguinte.

- Que jantar agradável. – disse Mara – Ficamos felizes em tê-los em nossa vizinhança.

- Às dezoito horas, na pracinha, combinado? – sugeriu Alexandre.

- Está bem, então. – respondeu Amanda.

- Até mais, Kal. – disse Sara ao atravessar a porta de entrada.

- Até...

No momento em que os Chiabai chegavam ao portão um gato peludo passou a poucos centímetros de suas pernas e Mara tomou um pequeno susto.

- Apenas um gato. – disse ela virando-se para os Foster.

Assim que Mara Chiabai selou os lábios todos os postes da rua começaram a piscar e se apagaram ao mesmo tempo, deixando a rua sob uma névoa de escuridão.

- Tudo bem não há perigo. – disse Alexandre não muito convencido.

Kal correu para dentro de casa e foi direto para a cozinha abrir a janela com vista para o lago. Ele admirou a cena. Eram mais de cinqüenta gatos e cachorros, todos olhando para o centro do lago em expectativa. Kal reconheceu o gato mais próximo como sendo Stuart. Ele chamou a atenção do gato e disse baixinho:

- Stuart! Você pode seguir os Chiabai até em casa? Por algum motivo todos os postes se apagaram!

- Precisa ser agora? – perguntou o guarda, claramente exautado.

- Por favor. Pode ser perigoso para eles.

- Não posso abandonar meu posto. – teimou.

- O que está acontecendo afinal de contas? – quis saber Kal.

- Tudo bem garoto. Eu vou acompanhá-los. Vá dormir. – disse Stuart esquivando-se da pergunta de Kal.

O garoto pôs-se para dentro da cozinha novamente e trancou a janela, correu então para a janela do seu quarto de onde teria uma visão mais aérea da cena. Havia um brilho estranho dentro das águas esverdeadas do lago, e não era apenas o brilho da lua. A luz parecia sair do fundo do lago. Os guardas de Warren continuavam espalhados à margem muitos em posição de ataque.

- Algum problema, Kal? – perguntou Daimon curioso da porta do quarto.

- Não! – respondeu fechando a janela subitamente – Só estava olhando a lua...

- Parece estar bonita hoje. – disse Daimon se aproximando da janela.

- É uma pena que tenha muitas nuvens. – falou Kal e o irmão se afastou.

- A tudo bem. Eu vou dormir então. Boa noite.

- Boa noite.

Kal encostou a cabeça no travesseiro e fechou os olhos, contudo assim que o fez, seu cérebro mostrou-lhe as imagens do lado de fora da casa. Ele continuava vendo os guardas ao redor do lago, e então viu os Chiabai indo para casa, seguidos de perto por Stuart. Era apenas imaginação. E foi neste ritmo que Kal mergulhou em um sono atormentado por pesadelos e sonhos confusos. Como o em que ele corria por uma linha de trem e ao passar por uma estação ele viu Sara sentada em um banco, mas quando quis parar não conseguiu. Seus pés não o estavam obedecendo e ele continuou correndo até a próxima estação onde a mesma Sara continuava sentada em um banco a sua espera, no entanto ele não podia parar, não, não podia...

- Kal... Kal... Kal acorda... – ouviu ao longe.

- Kal, o professor Cacius quer ver você.

- Guine... o que...

- Bom dia. Acho que estava sonhando. – falou Daimon.

- Você estava dizendo que queria parar. – disse Guinevere logo em seguida.

- Cacius está aí?

- Sim. – confirmou a garota.

Kal levantou da cama, ainda estava com a roupa que usara no jantar, e correu rápido até as escadas descendo dois degraus por vez. Ao chegar à cozinha, deparou-se com Cacius que bebericava uma xícara de café enquanto Amanda contava como fora agradável a noite anterior com a visita dos Chiabai.

- ...e eles adoraram a lasanha.

- Bom dia, professor. – cumprimentou Kal.

- Bom dia, Kal.

- Dormiu bem, querido? – perguntou Amanda.

- É. – disse Kal não querendo contar seus sonhos a ninguém.

- Kal, gostaria de falar com você. Se possível.

- Claro. – disse, esperando exatamente por isso.

O professor agradeceu a Amanda pela xícara de café e levantou-se, abriu a porta da frente e saiu acompanhado de Kal. Os dois saíram da varanda e deram a volta na casa até chegarem próximo às margens do lago, que parecia mais quieto naquela manhã do que estivera na noite anterior. Cacius contemplou o horizonte a frente por instantes sem parecer ter vontade de falar qualquer coisa, mas algo parecia obrigá-lo a fazer aquilo.

- Quero lhe contar algo muito importante agora, Kal Foster.




quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Minha biografia

Semana passada a Editora BookLink pediu pela minha biografia, comentei com algumas pessoas que eu precisava escrever uma urgentemente, e eis que um amigo se solidarizou escrevendo com um humor digno de nota.

Biografia de André Fantin
Por Raphael Perovano

Publicitário, moralista, ensaísta, líder cívico, cientista, inventor, estadista, diplomata, filósofo e herói da independência comunicacional, nascido ao dia 18 de abril de 1988 em Vila Sésamo, cujas atividades intelectuais abrangeram os mais variados ramos do conhecimento humano, das ciências naturais, educação e política às ciências humanas e artes. De origem humilde, de uma família numerosa de 16 irmãos, aos dez anos já trabalhava com o pai na fabricação de sabão e pedra pomes e aos quinze passa a trabalhar na gráfica de um de seus 16 irmãos. Mudou-se para Flexal, em Cariacica, (1999), onde trabalhou como laterneiro. Aprendeu idiomas, como tupi-guarani e xintu, e a tocar vários instrumentos, como sanfona e gaita. Conseguiu construir sua própria micrográfica (2001) e fundou o jornal Entretanto, mais tarde o Segunda Mão e, com o pseudônimo Kal Foster, editou o Livro de Merlin, quando ganhou o prêmio Estrela de Prata.

O sucesso foi tanto que pôde montar tipografias em outras das 13 colônias ufesianas e acumulou grande fortuna, o que lhe permitiu aposentar-se dos negócios (2020), passando a se dedicar integralmente a política e a pesquisa científica. Foi membro do Centro Acadêmico (2008-2009). Criou em São Pedro II a TV Fantin, fundou a primeira biblioteca circulante de São Pedro II e uma academia que mais tarde se transformou na Faesa. Organizou um clube de chá e truco, que deu origem à Sociedade Ufesiana de Filosofia, e ajudou a fundar o hospital das clínicas.
Ingressou como publicitário na UFES em 2007. Sua dúvida era cruel entre Arquivologia (aliá o Word não reconheceu essa palavra), Estatística e Engenharia Industrial Madeireira. Optou por publicidade, para ficar próximo da sua amada sorveteira Quiabai. Mais tarde descobre que na verdade Quiabai não existe. Tudo não passava de um plano para fisgar os alunos de comunicação. A UFES lhe proporcionou diversas aventuras. Na Ecos chegou a se tornar Presidente, mas abdicou do cargo por interesses mais congruentes. Tentou ingressar no Nexo e na Excom, mas não teve êxito. Participou dos estudos interdisciplinares com a turma das Artes Plásticas e Filosofia. Fez reopção para o curso de Gemologia, em 2010, por ter encontrado a Pedra Filosofal nos arredores do Cemuni V. Desistiu da UFES logo no início de 2011.
Foi enviado à Argentina (2011) para solucionar a disputa entre Maradona, Pelé e Madonna. Voltou a UFES (2012), após ter dados uns pegas na Madonna, mas as más línguas desconfiam que seria na verdade o Maradona. Voltou casado com a mexicana Maria Martins, uma ex-catadora, que emplacou em novelas famosas do Sistema Brasileiro de Televisão e da Televisa. Com Maria teve 6 filhos: Manoel Augusto (2012), Ana Luzia e Ana Lúcia (2013), Catarina Angélica (2014), Luiz Mário Fernando (2015) e Mara Felipa (2016).
Em 2020 foi recebido como herói e eleito presidente do Morro do Alemão. Foi um dos delegados da convenção que elaborou a nova constituição boliviana e tentou em vão abolir a escravatura dos vascaínos. Escreveu numerosos ensaios, artigos e panfletos e seu livro mais conhecido e único foi o Livro de Merlin, publicada postumamente (2067). Faleceu em 19 de abril, Etiópia, e é homenageado com seu rosto na cédula de R$ 3,00.

domingo, 21 de dezembro de 2008

Um conto de Natal

Chovia forte do lado de fora do bar, que naquela noite fora completamente decorado para as comemorações natalinas. Dois homens entraram se estranhando no recinto, vociferando alto um para o outro em tom de insulto. Madame Maria Ortiz, a dona do bar Mulsos para Moços, brandiu sua varinha de detrás do balcão em gesto repreendedor.
Com os nervos acalmados, os dois homens sentaram-se distantes e fizeram seus pedidos.
- Sempre a mesma estupidez. – disse um jovem, muito desgostoso com a situação que incomodara sua janta.
- Um dia eles conhecerão seu lugar. – disse em resposta um homem encapuzado ao lado do jovem.
- Não enquanto bruxos como Merlin insistirem em ensinar magia a esse humanos. – dizer essa última palavra parecia ter ardido a língua do jovem.
- Nessas horas fico feliz em não ser considerado humano. – disse o encapuzado enquanto tomava para si um drink cor de âmbar.
O jovem, de pele alva e cabelos enegrecidos, fuxicou o nariz levemente ao ouvir o encapuzado se pronunciar.
- Tudo ao seu tempo, Kricolas. – disse o jovem, retomando o assunto original – Existem outros bruxos que não estão tão satisfeitos em ter que partilhar suas riquezas com esses humanos.
- Temos o apoio de criaturas mágicas, certamente. – disse o encapuzado em meio a outro gole do líquido âmbar.
O jovem Donnovan desviou sua atenção do homem ao seu lado e voltou a olhar para a sua janta, que aquela altura já esfriara. Olhou para a janela e viu a chuva brigar com o vento. Tudo parecia desinteressante naquele momento. As pessoas no bar não se entreolhavam, era como se o espírito de natal não tivesse alcançado aquele lugar.
A maioria dos freqüentadores da Mulsos para Moços eram pessoas que não tinham companhia para essas ocasiões, ou não gostavam de comemorá-las, como Donnovan.
- E o seu pai? – perguntou o bruxo.
- Não sei por onde anda. Provavelmente se vendendo e não fazendo o que sua natureza ordena. Uma vergonha.
- Difícil acreditar que um dos maiores vampiros do mundo é aliado do tolo mago Merlin.
- Não me culpe por isso, por favor. – disse Kricolas.
- Poderíamos assassinar Merlin. – disse Donnovan com um certo vislumbre em seus olhos, como se pudesse imaginar perfeitamente a cena.
- É uma opção. Ou podemos matar aquele discípulo estúpido dele.
- Foster? – indagou o bruxo em meio a uma risada – Não entendo qual talento Merlin vê naquele fracote.
- Dizem que ele tem um Enid próprio. – comentou Kricolas.
- Está falando sério? – espantou-se Donnovan, um ar de indignação estampou-se em seu rosto, lividamente.
- Não se chateie por isso. Você ainda é o mais forte, sem dúvidas.
- Não eu não sou. Por mais difícil que seja dizer isso, Merlin ainda é mais poderoso do que eu. – como da primeira vez, parecia que a língua do jovem bruxo iria inflamar.
- Merlin é apenas um velho, meu senhor. Não há dúvidas de que seu poder será infinitamente maior que o dele em questão de tempo.
- Quão tempo? – indagou Donnovan, sacudindo a varinha no ar em gesto ameaçador.
- Você será uma lenda e quando isso acontecer, esses não mágicos cairão. Serão escravos ou sei lá qual o destino deles.
Donnovan permaneceu em seu silêncio, mas quase era possível ouvir seus pensamentos fantasiando com dias de glória, poder e total controle sobre a magia. Algo que ele fascinava e orgulhava-se. Há poucos dias ele soubera que possuía um Enid próprio, um indicativo de que ele era dono de grandes habilidades mágicas e capaz de grandes feitos.
- Desgraçado! – rugiu um dos homens que entrara no bar minutos antes.
O outro, que o acompanhara, reagiu do outro lado jogando no primeiro uma garrafa cheia de hidromel, que se espatifou ao atingir o balcão.
Madame Maria Ortiz veio correndo da cozinha ver o que acontecia em seu bar, mas desta vez nem mesmo sua varinha foi ameaçadora o suficiente para os dois briguentos.
Num ato impetuoso de fúria, Donnovan largou o resto de sua janta no balcão e ergueu a varinha para o homem que iniciara a nova confusão. Sibilou algumas palavras e um feixe de luz prata engalfinhou o humano, fazendo tombar e bater a cabeça com força em uma mesa próxima. Quando o sangue parecia jorrar pelo ouvido do sujeito, Madame Maria Ortiz horrorizou-se
- Por Merlin, você o matou?
Donnovan sorriu maliciosamente para a mulher e repetiu o gesto com a varinha, mas esta estava preparada para desviar do ataque. Os demais ocupantes do bar recolheram-se a um canto, amedrontados demais para qualquer outra reação.
Enquanto o jovem bruxo de cabelos negros abria caminho para fora do bar, ouviu-se um grito seguido por uma explosão. Quando Donnovan olhou de volta para o balcão, viu os traços de Kricolas arrastando para a chuva o corpo inerte e ensangüentado do outro humano briguento.
Numa última ação triunfante, Donnovan disparou um feitiço dentro do bar fazendo parte do teto ceder e, assim, saiu pela chuva para cumprir o seu destino que fora determinado naquela Natal.




segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Desejos e a fumaça

Era mais um dia entediante como qualquer outro. As mesmas pessoas na sala de aula, a mesma ladainha sobre cadeias de carbono, mitose e meiose, sujeito e predicado, trigonometria e mais blá, blá, blá...

Os minutos agradáveis conseguidos no intervalo já estavam longe do pensamento naqueles dez últimos minutos de aula em que os professores gostavam de tornar mortificantes o suficiente para derrubar o ânimo juvenil de qualquer estudante.

Os ponteiros do relógio na parede pareciam estar colados. Simplesmente não se moviam. Mas os ouvidos do garoto estavam bem atentos ao sinal da escola. Logo, logo ele tocará. Pensou, ansioso.

Era a última semana de aula antes das férias de julho, e logo, ele e os pais viajariam para o litoral. Nada como uma boa praia e uma água de coco para fazer esquecer todas aquelas regras e raízes quadradas que ele absorvera nos últimos meses.

Sete minutos...

O professor andava de um lado para o outro, esforçando-se para manter a atenção dos alunos, que já guardavam seus materiais escolares.

- Ainda temos mais alguns minutos. – alertou o professor, ao consultar o relógio na parede.

O garoto batia o pé embaixo da mesa. Os olhos já não conseguiam focar um único ponto e giravam nas órbitas como se fosse um prisioneiro desesperado por uma oportunidade de fuga. Mas ele sabia que a fuga logo chegaria... apenas mais cinco minutos.

Debruçando-se sobre a cadeira, o garoto decidiu fechar os olhos e pensar nos momentos agradáveis que estariam por vir. Assim, talvez, a ansiedade não fosse mais desesperadora e os cinco minuto finais da aula, conseqüentemente, menos mortificantes.

Não demorou mais do que o tempo de se abaixar. Após não obter da turma a resposta para o valor de π, o professor viu-se derrotado pela proximidade das férias e liberou os alunos.

A animosidade se viu refletida no barulho de carteiras se arrastando e no espreme-espreme provocado na hora de passar da sala para o corredor. Os alunos se acotovelavam nas escadas e corriam até o portão de saída. Ele, no entanto, estava mais tranqüilo depois de livre da sala de aula. Suas férias já se iniciavam do jeito que planejara. Tudo o que precisava agora era chegar em casa com tranqüilidade, almoçar, colocar seus últimos pertences na mala e cair na estrada com os pais...

Despediu-se dos colegas com um aceno, desejou-lhes boas férias e seguiu caminho assoviando uma música que passava em sua cabeça. Tinha um ritmo bem baiano; descontraído e risonho. Provavelmente era algum axé que ele ouvira numa rádio qualquer e já não se lembrava.

Sua escola ficava bem próxima a sua casa, apenas quatro quadras de distância. Era muito rápido o trajeto e durante ele, sempre via as mesmas pessoas. A sra. Salestiana, dona da padaria em que, costumeiramente, ele passava para comprar alguns doces antes da aula; o sr. Ronaldo, um caminhoneiro conhecido da região que passava o dia a revisar seu instrumento de trabalho e Pedrinho Tião, um pinguço que vivia a tropear pelo bairro cantando bossa nova e recitando versinhos românticos para as mulheres que por ali transitavam.

Apesar de ser totalmente inofensivo, o garoto não gostava de topar com Pedrinho Tião. Havia nele um quê de derrota que o incomodava, mas não sabia por que se sentia assim. Apenas sentia.

Naquele dia, porém, a padaria estava fechada e tanto o caminhão quanto o sr. Ronaldo não estavam na rua. Porém, ao longe, o garoto viu os pés caídos de Pedrinho Tião entre latas de lixo tombadas, bem em frente ao destino final.

Por que ele tinha que cair logo aí? Perguntou-se o garoto, muito enraivecido.

Meio que de soslaio, ele tentou dar a volta no bêbado para chegar até o portão e entrar sem ser notado, pois sabia que Pedrinho Tião faria um pequeno escândalo se fosse acordado.

Mas que droga! Bravejou o  garoto ao perceber que o homem estava escorado justamente no portão.

- Ei. Ei... – chamou – Acorda.

O bêbado, porém, não se mexeu. Ele não tinha muito mais que trinta anos, cabelos lisos, sujos e compridos até a altura do queixo, pele queimada pelo sol e enrugada pelos hábitos pouco saudáveis, trajava uma calça de brim bege que exalava um azedume de urina e fezes misturadas e uma camisa de botões que um dia fora branca.

A cabeça estava caída, quase encostando na própria barriga e não havia em nenhuma de suas duas mãos uma única garrafa de cerveja ou cachaça. O que era, de fato, estranho.

- Vou chamar a polícia. – ameaçou o garoto, cutucando o bêbado com o pé direito, mas, como da primeira vez, não obteve resposta.

Ele olhou pela rua buscando por alguma ajuda. Não podia acreditar que aquilo estava acontecendo. Não naquele dia.

O garoto estendeu um braço até o interfone da casa e apertou o botão na esperança de que seus pais já estivessem em casa para acudi-lo. Quando fez-se o barulho do interfone saindo do gancho, produzindo os sons de dentro da casa, não houve uma voz, nem sussurro, ainda assim, o garoto respondeu.

- Cheguei!

A trinca estalou várias vezes quando alguém, dentro da casa, abriu o portão. Automaticamente, o peso de Pedrinho Tião empurrou o portão para dentro e, por conseguinte, o deixou estirado no chão, a cabeça virada de lado.

Dessa vez ele acorda. Pressupôs o garoto. Cedo demais.

Vendo que o bêbado não reagia, ele entrou em casa e foi espiar mais uma vez o homem. Uma onda de choque tomou-lhe por inteiro ao ver de perto, e pela primeira vez, o rosto de Pedrinho Tião. A garrafa que lhe faltava à mão estava enterrada em seu crânio, fora enfiada por baixo da mandíbula até o cérebro, mas, estranhamente não lhe escorria sangue.

- MÃE! – gritou o garoto em desespero, correndo para dentro da própria casa.

Tal seu desespero que somente notou que a porta da entrada fora explodida quando já estava saindo a caminho do segundo cômodo. Observou os demais móveis em volta e pareciam intactos. Saindo da sala e partindo para a cozinha, deparou-se com gavetas reviradas, pratos quebrados e a geladeira caída sobre a porta numa tentativa inútil de bloquear a passagem até a sala de jantar.

Seu bom senso parecia ter sido anestesiado assim que pisou dentro da casa. Em qualquer outra situação ele teria saído à rua gritando desesperadamente por socorro, mas aquela era a sua casa. A casa dos seus pais. Não havia o que temer.

Na sala de jantar, mais rastros de luta. Uma mesa de vidro quebrada, garrafas de vinho estilhaçadas, paredes queimadas e no alto da escada de acesso ao segundo andar um tremendo choque.

O garoto procurou evitar aquela visão pavorosa e angustiante. Seu pequeno poodle fora preso à parede com uma fava atravessada na garganta, manchando toda a área com seu sangue canino, que fora derramado numa tentativa valente de proteger o lar de seus donos.

- Ahhhh! – gritou uma mulher, no segundo andar.

Mais que depressa, o garoto rumou até a origem do grito, passando pelo cadáver do animal sem nem ao menos lhe dedicar atenção. Aquela era sua mãe e ela precisava de ajuda. Ao pé do segundo andar, ele localizou uma faca caída e a empunhou com valentia. Seu coração pulsando mais rápido do que jamais pulsara antes. O pensamento de férias calmas e tranqüilas no litoral já inexistentes e uma incrível saudade de trigonometria.

A porta do quarto de seus pais estava entreaberta e sombras indistintas eram projetadas pela luz que incidia pela janela e iluminava o quarto. Ele não soube se fora por valentia ou burrice, mas segundos depois estava escancarando a porta para dar de cara com a cena que marcaria para sempre a sua vida. Havia três ocupantes no quarto. Todos amontoados em cima da cama de casal ensangüentada. Um dos ocupantes estava caído de barriga para cima, os braços escapulindo pelas beiradas, os dedos ainda se mexiam por espasmo, mas o restante do corpo estava visivelmente morto. As vísceras expostas e rosto manchado de vermelho traziam a expressão de quem sofrera terrivelmente até chegar àquele estado.

O Segundo ocupante era monstruoso. Grande, forte, amarelado e nodoso. Um estranho par de asas rasgadas se armara ao ver o garoto. Ainda assim, essa súbita invasão não o impediu de dar um último mergulho no sangue que escorria do pescoço da mulher que ele segurava com tanta sede. Ela ainda estava viva quando viu o garoto entrar no quarto, mochila nas costas, faca na mão e a pior representação do medo.

- Cor-rre... – disse ela num último esforço, antes de se entregar com prazer à morte e cair por cima do corpo frio do marido.

Apavorado, o garoto deixou a faca cair no chão, por pouco ela não o perfura o pé. Descendo as escadas três ou quatro lances por vez, ele tropeçou na metade do caminho e bateu de cara com a parede, a testa latejou de dor após o contato, mas a adrenalina anestesiara aquele ferimento muito rapidamente.

Outra vez no primeiro andar, ele correu até a saída, saltando pela geladeira que obstruía o caminho. Quando pensou estar a salvo na sala de estar. O assassino de seus pais surgiu como fumaça em seu caminho. Só agora sua atenção pudera entrar em detalhes da criatura.

Ele possuía um focinho achatado como o de morcego, olhos injetados e uma fúria que transpirava de cada poro.

O garoto tornou a correr para dentro, desesperado por ajuda. Saltou uma terceira vez sobre a geladeira planejando pegar o telefone sem fio, retornar ao segundo andar e trancar-se no banheiro para fazer uma ligação.

Ele não soube explicar como, mas assim que se aproximou da mesa com o telefone, ela simplesmente explodiu à ordem do assassino.

Encurralado, o garoto olhou para a enorme janela de vidro que servia como fonte de iluminação de toda o ambiente e decidiu que aquela seria sua única salvação. Retirou a mochila das costas, colocou-a diante da cabeça para se proteger e se atirou contra o vidro.

Com a astúcia improvisada, ele se equilibrou e já quase alcançava o portão de saída quando o assassino usou de alguma força que ele não conhecia e o fez tropeçar. A mochila ficou de lado quando ele caiu por cima do corpo de Pedrinho Tião. A pressão do impacto fez a garrafa sair de dentro do crânio seguida por litros de sangue...

A estranhíssima criatura puxou o garoto pelo ombro e o encarou por alguns instantes. Aqueles olhos vermelhos vasculhando os olhos castanhos, como se estivessem tentando penetrar a mente e a alma. Mas o garoto já achava que sobrara pouco das duas coisas. Não havia nada em sua mente que não fosse tristeza, angústia, medo – muito medo, pavor, aflição e infelicidade infinita. E sua alma, ele sabia, estava assombrada por cada um desses péssimos sentimentos. Certamente já não era uma alma tranqüila que valesse a pena se roubar.

- O q-ue q-q-quer? – perguntou o garoto, que agora sentia aqueles dedos nodosos abraçarem tão fortemente sua garganta.

A resposta que ele recebeu do assassino foi uma pressão maior sendo exercida por aqueles dedos, as unhas afiadas rasgando-lhe a carne...

Sons sufocados do garoto se confundiam com a respiração ofegante do assassino, que agora sorria e parecia contente ao exibir suas longas presas vampírescas.

Pela mente do jovem Thalis Kinguest passavam as últimas imagens tranqüilas de seu dia. Como seria bom retornar para aquela última aula de sexta-feira antes das férias. Como os números eram amigáveis. Biologia nunca lhe pareceu tão interessante quanto agora. História seria extremamente excitante, se tivesse outra oportunidade.

Seu pavor era tamanho que sua mente estava eliminando qualquer pensamento negativo. Ele tentou relembrar dos pais no andar de cima da casa, mas já não podia. A pressão daqueles dedos repeliam suas memórias e ele só pensava em sua sobrevivência.

Enquanto o ar lhe faltava nos pulmões, ele imaginou-se respirando ar puro, uma outra vez. Sentiu seu corpo livre daquela pressão e longe daquele assassino. Ocorreu-lhe então uma floresta deserta, preenchida por árvores altas e espessas, abrigo de pássaros e outros animais. Queria sentir-se de novo entre pessoas como ele. Queria fazer novas amizades. E tão forte foi o seu querer, que seu corpo quase morto pareceu inflamar-se de desejo. Cada centímetro ardia como brasa, seus órgãos pareciam estar se afastando, e isso nada tinha a ver com o vampiro que ainda o segurava. Então, ele reabriu os olhos a tempo de ver a surpresa na face daquele monstro ao ver sua vítima desaparecer de suas garras deixando para trás apenas um rastro de fumaça.  

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Planos e avanços

Já se passara três dias desde que trancara-se dentro daquela pequena sala repleta de objetos estranhos, pontiagudos e barulhentos. A falta de notícias do mundo externo o incomodava um pouco, embora fosse difícil aceitar esse pensamento; de que algo o podia incomodar.

Seu servo saíra para uma caçada e não retornara, o que poderia ter acontecido? Descartou qualquer possibilidade de derrota. Seria vergonhoso demais. Improvável demais para se pensar naquilo. Ele era asqueroso o suficiente para afastar qualquer curioso, forte o suficiente para encarar qualquer inimigo e perigoso o suficiente para matar qualquer um que se metesse em seu caminho.

Os três dias que se passaram foram seguidos de planos e revisões de planos. Ele não era um homem que se deixava guiar pelo acaso. Ele planejara tudo. Planejara seu próximo passo como quem planeja uma vida inteira, mas não queria compartilhar tais informações com qualquer um que fosse. Ele precisava garantir-se de que daria certo.

Largando um amontoado de pergaminhos em cima de uma mesa, ele levantou-se de sua cadeira de peroba polida e caminhou até uma estante de pedra desalinhada, onde se encontravam vários pequenos objetos, como um guarda-volumes. Dentre esses objetos, ele selecionou um pequeno relógio de bolso muito brilhante. Abriu-o e checou as horas, parecia não ter acreditado, pois retornou a checar e depois conferiu com um segundo relógio pendurado à parede.

Está atrasado. Pensou, mas não era ao relógio a quem ele se referia.

Andou vagamente pelo quarto a espera de algum sinal estranho. Reviu seu plano infalível mentalmente e consentiu consigo mesmo. Não havia como falhar. Nada que fosse feito pelo outro poderia atrapalhar suas ambições. Já descartara qualquer intervenção do velho, que àquela altura já tivera sua influência oxidada no meio mágico. Após a terrível demonstração de fúria em Cidade dos Elfos, todos os que resistiam por acreditarem no ideal daquele velho bruxo já não estavam mais tão certos de sua sanidade.

Pelo que ele soubera, antes de se enclausurar, Merlin descera de seu imponente castelo bravejando impropérios, mais para si do que para outros, e mutilou um livro em praça pública, em seguida acolheu-se no pomar da cidade.

Retornando sua atenção para o cômodo em que estava, o homem voltou a andar em círculos, sua longa capa arrastando-se e o barulho de suas botas fazendo o chão de madeira ranger sinistramente, como se fantasmas assombrassem o ambiente.

Onde está? Pensou, uma ânsia dominando-lhe os sentidos.

Ele não queria explodir sua cólera naquele instante. Estava prestes a fazer isso, mas não seria a toa. Logo estaria de frente com seu inimigo e poderia fazer dele o que quisesse... aí sim, valeria a pena externar toda aquela ânsia, aquela frustração de ter que se confinar por três dias, quando, na realidade, precisava estar a céu aberto, matando, torturando e avançando com seus planos de dominação.

Ouviu-se um toc toc quando o homem já experimentava sentar-se novamente em sua cadeira de peroba polida. Sem demonstrar a ânsia que sentira a pouco, aproximou sua mão da maçaneta logo mais a frente e com um giro e um puxão, abriu a porta. Um corpanzil encapuzado apareceu ao batente, completamente molhado.

- E então? – perguntou ao servo – O que houve?

- Quinze, meu senhor. Entre eles Aleixo e Mordento... infelizmente.

O homem de capa longa crispou os lábios ao saber da morte de seus aliados, mas pareceu não se importar e prosseguiu:

- Foi a mulher, não foi?

- Sim, meu senhor. Ela estava do lado deles o tempo inteiro.

- O que mais? – inquiriu.

O servo retirou seu capuz empapado de água e jogou-o numa cadeira vazia, fechando a porta atrás de si em seguida.

- Schimedel. Pegamos a Schimidel, mas não obtivemos muito mais do que já tínhamos com ela. Então a matamos. – informou o dedicado servo. A pele naturalmente enrugada estava ainda mais cavada, resultado das batalhas e dos dias sem descanso – Todos esperam pelo seu plano, meu senhor. Estão todos em posição neste exato momento.

Donnovan caminhou com sua capa longa pelo ambiente avaliando as notícias. Certamente perder quinze de seus seguidores não estava em seus planos, mas muitos outros iriam substituir esses mortos assim que seu plano fosse executado com perfeição.

- Kricolas, e quanto a Foster? – perguntou Donnovan, como se esperasse por aquela resposta desde o momento em que fitara o servo a sua porta.

­­- Foragido, agora. Após duelarmos na região sul do país, mas ele esfumaçou antes que algum feitiço potencialmente letal o atingisse. – fez uma pausa, pensativo – Seria algo maravilhoso se algo assim existisse de fato, não? Um feitiço letal.

- Tenho certeza que algo assim é possível. E após o plano tratarei de descobrir. – comentou Donnovan, pensativo.

- O Livro de Merlin? – arriscou Kricolas, intimidado.

Donnovan assentiu que sim, mas não queria mais tocar no assunto, guardava suas certezas para si, e só para si. Se um poder tão grandioso assim realmente existisse, somente ele seria digno de possuí-lo.

- Meu senhor... – suplicou Kricolas por mais algumas palavras, mas este o ignorou.

Andou novamente até a estante de pedra, alisou os cabelos negros com as mãos firmes, e retirou do móvel o pequeno relógio de bolso, checou as horas uma outra vez e o guardou em suas vestes.

- Está na hora. – alertou – Hora de matar tudo aquilo em que as pessoas acreditam.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

O dia em que ele se foi

Ela estava impaciente àquele dia. Já fizera seis semanas desde que se mudara para aquela terra distante. Distante das batalhas sangrentas que eram travadas na lendária ilha de Hi Brazil. Queria poder estar lá, como queria...

Sentia que a pequena cabana improvisada que construíra no dia de sua chegada era um cômodo cárcere, porém, a verdade que doía em seu peito é a de que seu coração, pulsante e raivoso, era a pior de todas as celas.

Após os quatro primeiros dias, ela percebeu que seus prantos já não mais seriam atendidos, que não haveria quem enxugasse suas lágrimas e que a colocasse no colo para ampará-la. Decidiu estocar cada lágrima que ainda lhe restava para quando fosse feliz. Mesmo que isso lhe parecesse uma idéia muito vaga.

Na terceira semana, decidiu que seria seguro sair para olhar o sol e à noite, a lua. Sentir o vento tocar a cútis seca, sem brilho e envelhecida pela preocupação. Rugas se formavam naquele rosto jovem que não havia muito, irradiava extrema beleza. Os cabelos longos e enegrecidos caídos nas costas, agora pareciam chumaços de palha amontoados na cabeça. As roupas sempre tão limpas e cheirosas tinham um aspecto rústico após dias de solidão.

Não parecia haver magia que consertasse todos aqueles problemas, aquelas deformações. Não enquanto estivesse enclausurada. Não enquanto fosse prisioneira do seus sentimentos. Da sua culpa.

Quinze para meia-noite, avisava o pequeno relógio de madeira pendurado à parede. Ela começava a se misturar aos lençóis da própria cama, apalpando um travesseiro extra que substituía alguém ausente.

CLAC!

O coração dela pulsou forte ao ouvir aquele som familiar. De um só salto pôs-se de pé, a varinha em riste. Só uma pessoa sabia exatamente onde ela estava, e por mais que seu coração pedisse por esperanças, ela já as perdera ao longo das últimas seis semanas. Não teria motivos para ele ir até ela. Teria?

- Está aí? – perguntou uma voz masculina, do lado de fora, que a fez tremer encima dos joelhos.

- O q-q-que f-faz a-a-aqui? – perguntou ela, a voz falhando pela falta de uso.

- Aconteceu alguma? Parece assustada. Deixe-me entrar.

Reagiu por impulso, como se aquele “Deixe-me entrar” fosse, de fato, uma ordem.

Vaidosa, ela ainda tentou ajeitar os cabelos ressecados com algum feitiço conhecido, mas a emoção a impedira de fazer um bom trabalho.

- Não é porque está foragida que precisa se aparentar tão mal. – disse o homem sardonicamente.

Sem outra reação, ela jogou-se para cima do amado e tocou suas costas com um longo abraço, querendo dar mais valor aqueles segundos de amor do que as seis semanas de esquecimento.

- Senti sua falta. – disse ela, finalmente.

- É claro que eu senti também. – comentou ele, sua voz sincera, porém comedida – Como vocês passaram esses últimos dias?

Ela não queria falar dela mesma. Tivera tempo o suficiente para saber que a dor que sentira não era digna de lembrança ou comentários. Queria notícias.

- Por onde vocês estiveram? Não recebi uma notícia se quer.

- Estivemos lutando, claro. – respondeu ele, ainda curioso, analisando a mulher a sua frente – Desde a sua partida, as pessoas têm resistido mais.

- É verdade? – inquiriu, enquanto puxava cadeiras para os dois se sentarem próximos à mesa.

- Por certo. Eles entenderam de que lado você está e agora estão resistindo.

- Mas isso me custou a liberdade. – lamentou.

- Fiz bem em te mandar para cá. Não seria seguro você permanecer por lá. Não depois de ter abatido Aleixo e Mordento. Dizem que os dois eram os mais fiéis e antigos seguidores dele.

- Eu juro que não queria matá-los... juro. Mas não poderia permitir que ele se aproximasse de mim, não agora. – falou ela encarando, resignada, o pequeno quarto aonde dormia.

- Gostaria de poder estar presente. – lamentou o homem, encarando os próprios pés.

- Você tem o seu outro, não tem? Faça dele alguém feliz.

- Não diga essas coisas, por favor... – pediu o homem, levantando-se.

Ela sentiu que uma lágrima lhe escaparia, lembrou-se de sua promessa e a segurou com todas as forças.

- Você acha que ele ainda virá atrás de mim? – desviou o assunto.

- Já o teria feito se realmente quisesse. – tranqüilizou-a – Ele anda muito ocupado chefiando seu exército de criaturas mágicas.

- Ainda usam aquelas criaturas?

Por algum motivo ele soube exatamente do que ela falava.

- Sim. Pegaram Alicia Schimidel na semana passada. Todos lamentamos a morte dela.

- Não gosto daqueles olhos azuis perfurando a minha alma... eles realmente paralisam.

Ele deu mais algumas voltas pela pequena sala improvisada analisando o ambiente. Sacou a varinha e saiu realizando feitiços para consertar objetos quebrados e conjurar novos.

- Sua proteção tem servido bem. Ninguém pareceu tentar perfurá-la.

Ele sorriu vaidosamente.

- Enquanto eu viver, você estará segura aqui. E quando eu morrer... – fez uma pequena pausa – não haverá motivos para se esconder.

Quer fosse por gratidão, pena ou desespero comedido, ela sorriu.

- Posso dar uma olhada nela antes de ir?

- Claro... – respondeu a mulher, guiando-o para o pequeno quarto.

Logo ao lado da cama onde a pouco a mulher estivera deitada, estava um pequeno berço torto de madeira, coberto por um véu negro.

- Não tem me dado o menor trabalho. – disse ela erguendo o véu e revelando uma pequena criança com pouco mais de um ano de idade, dormindo em sono profundo, distante dos acontecimentos.

- Sinto tanto por não estar presente... – lamentou ele, com uma sinceridade marcante.

- Cuide do seu outro filho. Garner. Não foi esse o nome que o deram?

- Sim. – respondeu – Garner Foster, é o nome dele.

- Antes de ir... – disse ela se aproximando de uma cômoda e retirando de lá um objeto – Quero que leve isso.

- O que é?

Ela se aproximou do amado e colou nele um pequeno colar.

- Para lhe trazer sorte nas batalhas. – após isso deu-lhe um curto beijo.

- Eu te amo, Morgana.

- Também te amo, Foster.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Desenho do Castelo de Avalon


Não sei quanto a curiosidade de vocês, mas resolvi postar um desenho muuuiiittooo antigo do castelo de Avalon que eu fiz. Dei uma pintada básica no photoshop só para ilustrar, mas é mais ou menos essa a idéia da escola de Kal Foster.


Abraços

sábado, 21 de junho de 2008

Lista de Feitiços do primeiro livro

Edjipto – feitiço de limpeza.

Sendart – dobra um pedaço de papel em formato de avião e o envia para alguém.

Pedrusco – conjura uma pedra.

Scringer Secret Schoupan – versão poderosa do Opandor.

Bolhasradiant – cria bolhas de luz.

Guives – interrompe o Bolhasradiant e espoca as bolhas que já saíram.

Levitoriano – faz objetos flutuarem.

Concertûnia – repara objetos.

Lonvy (maldição das fadas) – deixa a pessoa sem senso de direção.

Fículous (maldição das fadas) – impede que a fada minta quando está sozinha.

Planta Exander – faz a planta adormecer.

Lumier – ilumina a planta.

Farfalha – atira estilhaços no inimigo.

Escaparta – dispara um filete azul.

Amstãnder – um raio elétrico.

Mórfinus – faz a pessoa dormir.

Opandor – abre trancas.

Eixo – fecha trancas.

Efesto – fogo

Inflamiun – fogo 2

Sedructos – maldição da morte

Morgora Nãltis – feitiço da morte

Dracóvia – oposto ao Lumier.

Horbário Obedientis – invoca a Herviana.

Obéverno – feitiço de transformação.

Griamen – revitalizar.

Cefalotúrgia – transforma cabeças em balões.

Corparo – revitalizar.

Réplica – repele ataque.

Dunkel – maldição da transfiguração.

Linglesingle – maldição da voz cantarolante.

Fétida – fumaça marrom fedorenta.

Revelarbus – invoca o Enid.

Lócus Amenus – cancela qualquer feitiço.

Pelínculo – feitiço sinalizador.

Morgáide – feitiço do clima.

Ediagrom – contra-feitiço do clima.

Aprumus – feitiço usado por Kal e CIA durante “O desafio do Amaldiçoado”.

Perpétuo – Feitiço que gera uma grande força com a destruição do Enid

domingo, 4 de maio de 2008

Capítulo 2 - A casa Foster

Araçá era um pequeno bairro residencial de Anomatí, uma cidade no interior do sul do Brasil. No interior do bairro, a Rua Guaçuí se estendia de uma pequena praça com brinquedos até um sobrado que tinha em seu quintal uma lagoa de águas esverdeadas. As casas tinham formas e tamanhos variados, algumas com apenas o andar térreo e outras que chegavam até o terceiro andar. Todos os dias de manhã, os moradores da levantavam-se bem cedo, abriam suas portas e janelas, colocavam seus carros modernos para fora, levantando uma massa cinzenta de fumaça que empestava toda a rua. Depois de feito este ritual diário, eles enfurnavam-se em ternos ou vestidos longos, enfiavam-se nos carros e saiam para o trabalho no centro da cidade.

Em quase todas as casas esta era a rotina. Mas não na casa número vinte e dois.

Os moradores da Rua Guaçuí ainda tentavam se acostumar com o estilo de vida dos novos vizinhos. As três crianças raramente saiam do quintal da casa que era cercado com um muro alto e bem gradeado. A mãe delas não trocava palavras com os vizinhos, eles nem ao menos sabiam exatamente o seu nome e porque haviam se mudado para aquele bairro tão isolado.

No dia da mudança, alguns deles se ofereceram para ajudar a carregar umas caixas pesadas, já que seria impossível três crianças e uma mulher levantá-las sozinhas, mesmo assim, relutante, a mulher agradeceu e dispensou toda a ajuda.

- Mal educada. – disseram eles.

Após um dia inteiro de entra e sai de caixas, a nova família trancou a porta da frente e fechou as cortinas dos dois andares da casa, que não era tão grande, mas suficiente para abrigar as quatro pessoas. O jardim havia sido decorado com pequenos anões, que segundo souberam os vizinhos, haviam sido um presente de uma amiga da região do Amazonas, e algumas margaridas e tulipas que estranhamente os moradores da casa queixavam-se porque elas não estavam se movendo. Sem dúvida alguma era a família mais esquisita que já residira em Araçá.

Talvez, a única casa que pudesse se igualar aos vizinhos do número vinte e dois fosse a da velha senhora que residia no número dezessete. Enquanto todos os moradores de Rua Guaçuí expunham-se em público para conversar, a senhora de cabelos brancos e de pele flácida, fazia de sua casa sua grande fortaleza anti-social.

No segundo dia da mudança, os Almeida, moradores do número vinte e um, levaram um bolo de boas vindas aos novos vizinhos, um menino de cabelos e olhos castanhos colocou o rosto para fora do portão, estendeu um dos braços para receber o presente, agradeceu rapidamente e em seguida trancou o portão sem nem mais uma palavra.

- Que gente esquisita. – disseram.

No terceiro fim de semana desde a chegada da família ao bairro, eles receberam sua primeira visita. Um velho senhor de olhos bem azuis, com a cabeça quase careca, porém com algumas tranças desalinhadas que lhe batiam abaixo dos ombros e uma barba quase tão longa que seria possível amarra-la ao cinto que segurava sua calça marrom lama.

- Bom dia. – cumprimentava ele aos moradores que lhe encaravam curiosos.

Certamente se poderia haver tipo mais esquisito de pessoa que os moradores do número vinte e dois, com toda certeza seria este estranho senhor.

- Bom... bom dia... – responderam alguns somente por educação.

O velhote seguiu rua acima até chegar ao portão, então chamou pela dona da casa.

- Sra. Foster!

Como se estivesse esperando pela visita, a mulher, imediatamente, colocou o rosto na janela e disse:

- Oh, bom dia Prof. Cacius. Queira entrar, por favor.

A trava elétrica do portão estalou e este imediatamente se abriu para receber o visitante. O homem sorriu e deu bom dia para os anões de jardins enquanto caminhava em direção à pequena varanda de entrada. No meio do caminho, Cacius foi surpreendido por um gato de pelo laranja e estranhamente o homem respondeu.

- Bom dia, Fred.

Os moradores olharam-se curiosos e então sacudiram a cabeça e foram para seus lares certos de que já haviam visto de tudo.

Alexia Almeida pegou sua vassoura de piaçava e saiu sacudindo até a porta de entrada de sua casa para espantar os pombos que se alimentavam de migalhas de pão caídas pela calçada.

- Malditas aves! Malditas aves! – resmungou.

- Esta rua está parecendo um zoológico! – resmungou junto seu marido.

Era verdade. Após a mudança da família Foster, a Rua Guaçuí recebeu um considerável contingente de animais que passaram a perturbar toda a vizinhança. Eram pombos em todas as calçadas, cachorros latindo e uivando, gatos que andavam pelos telhados à noite e ratos que percorriam todas as casas, atravessando cozinhas e salas a qualquer hora do dia como se nada os incomodasse.

Os únicos simpatizantes da família Foster eram, ironicamente, seus vizinhos mais distantes, os Chiabai. O casal Mara e Alexandre e sua filha de treze anos, Sara, haviam indicado aos Foster onde era a sua nova casa assim que chegaram ao bairro. Naquele mesmo dia, Amanda havia feito um convite para que, num sábado, eles fossem almoçar em sua recém inaugurada casa. Passaram-se dois finais de semana e os Chiabai ainda não tinham se apresentado para o tal almoço, mas, ao que parecia, os próprios Foster também haviam esquecido, ou não se importado.

Ao término do primeiro mês, os vizinhos começaram a reclamar que as lâmpadas dos postes não duravam mais do que uma noite sem queimarem. E a companhia de luz passou a ter que trocá-las quase que diariamente. Certa vez, um vigia foi contratado para descobrir quem estava queimando as lâmpadas, ele passou a noite inteira perambulando pela rua para apanhar o vândalo, mas ao invés disto, surpreendeu-se ao ver que a casa dos Foster parecia abrigar uma boate. Luzes coloridas piscavam por todos os cômodos da casa e barulhos estranhos como chicotadas e tambores ruíam pelo jardim. O vigia estava estático olhando aquela cena, pensou em tocar a campainha e perguntar se estava tudo bem por lá.

No momento em que se decidiu por fazer isso, as luzes da rua começaram a piscar freneticamente atraindo a atenção do homem que deixou os braços caírem sobre as pernas e a boca abriu-se quase que automaticamente. Foi um piscar incessante até que finalmente todas as luzes se apagaram de uma só vez, deixando a Rua Guaçuí completamente mergulhada em sombras.

Na manhã seguinte, mais uma vez, a companhia de luz e energia veio fazer a troca das lâmpadas, no momento em que o velho homem de tranças atravessava a rua, a pé, para visitar mais uma vez a família Foster.

- Bom dia, senhor. – cumprimentou Alexia Almeida que já se acostumara com a figura do visitante.

- Bom dia, senhora. – disse gentilmente – Sabe me dizer se a sra. Foster está em casa hoje?

- Com certeza sim. – respondeu a mulher – Ninguém sai daquela casa, senhor.

- Eles sofreram muito nestes últimos meses...

- Como assim? – perguntou a mulher debruçando-se sobre o seu muro.

- Outra hora, talvez. – falou ele sorrindo.

- Tenha um bom dia.

- Igualmente.

Cacius atravessou a rua em direção ao número vinte dois que, para sua surpresa, encontrou o portão destrancado.

- Estou entrando. – anunciou – Bom dia! – disse para os anões, como era de costume fazer.

- Oh, estávamos esperando pelo senhor, Prof. Cacius. – disse Amanda, que surgira em uma das janelas da frente – Fiz uns bolinhos.

- Fico grato. E os meninos? Como estão?

- Superando, eu diria. Kalevi sentiu mais com a perda, mas acho que ele consegue.

- Tenho certeza. Tenho certeza. Você tem filhos muito corajosos.

Amanda permitiu-se um pequeno sorriso de orgulho, mas ainda assim não parecia muito contente.

- Professor, o que está acontecendo no mundo... no mundo...

- No mundo mágico? – completou Cacius olhando em volta – Acho que ninguém pode nos ouvir aí dentro.

- Certo. – concordou ela acompanhando o professor até a entrada da casa através da pequena varanda – Mas o que está havendo lá? Os guardas sumiram. Não há mais pombos, gatos, cachorros ou ratos. Ninguém está vigiando a rua. Estou com medo.

- Não há com o que se preocupar. – falou Cacius já fora do alcance de ouvidos curiosos – Bem, eu posso oferecer proteção em quanto eles não voltam.

- Mas por que eles foram embora então? O Governo desistiu de nos proteger?

- Não exatamente sra. Foster...

- Mamãe quem est...

- Olá, Kal. Há quanto tempo. – saudou Cacius.

- Olá, professor. – cumprimentou secamente – Desculpe, agora tenho que ir.

O garoto saiu pela porta da frente correndo em direção à rua, sua mãe em seus calcanhares.

- Não vá longe, Kalevi Foster!

- Deixe-o. Tenho certeza de que estará seguro...

Esta foi a última frase de Cacius que Kal pôde ouvir. O garoto vazou pelo portão de entrada e desceu a rua em direção à praça, sem destino exato. A companhia de luz ainda estava fazendo o serviço de troca das lâmpadas e alguns moradores estavam acompanhando o trabalho dos operários e conversando.

Kal passou por eles sem ao menos notá-los, mas eles repararam bem o menino. Era a primeira vez que um dos Foster colocava os pés fora de casa, e este parecia estar afoito para fazer isto, porque correu loucamente como se tivesse ganhado a liberdade de uma prisão. Kal Foster estava com um jeans desbotado e uma camisa de manga cumprida um pouco mais larga do que deveria ser. Aparentemente sua mãe havia se distraído na compra e escolhera uma um número maior.

- Você ouviu a sua mãe! Não vá muito longe! – disse Alexia quase que correndo atrás dele como uma dama de companhia que fora largada para trás.

- Não use a varinha, não use a varinha... – falou entre os dentes de modo que ninguém pudesse ouvi-lo.

Kal não estava se acostumando muito bem ao novo estilo de vida que lhe fora imposto. Não usar a varinha durante o dia, não poder brincar de duelo com Daimon e Guinevere, enfim, não fazer nada para chamar a atenção dos outros moradores. Nestas horas, Kal sentia saudades dos resmungos e implicâncias dos moradores de Vila da Cachoeira, pelo menos, lá, ele poderia agir de maneira natural.

Em Avalon, a escola de magia que Kal estudara no ano anterior, ele havia aprendido diversos feitiços, os quais planejava colocar em prática assim que retornasse para casa. Mas isto agora parecia impraticável. Sua nova casa estava cercada de guardas de Warren muito bem disfarçados de animais e sua mãe não abria uma brecha para diversão. Mas naquela manhã, Kal Foster havia planejado tudo muito bem. Assim que ouvisse Cacius chegar em sua casa para conversar com Amanda, ele passaria pelos dois em disparada e sairia, finalmente, do número vinte e dois.

A praça no final da rua não tinha muito mais que alguns canteiros de flores, algumas gramíneas e um pequeno playground com escorregador e balanço. O lugar estava deserto àquela hora do dia, ao que parecia, não havia muitas crianças na Rua Guaçuí e os adultos que não estavam trabalhando estavam observando o interessante trocar de lâmpadas.

Kal aproximou-se de um dos balanços e sentou-se. Ficou a olhar para a praça à procura de algo móvel com que pudesse se distrair, mas não encontrou nem mesmo uma formiga. Mas para sua surpresa ele ouviu atrás de si uma voz feminina e aveludada que desconcertou seus pensamentos.

- Olá.

Kal virou-se para examinar quem seria e contemplou aquele rosto de pele clara e cabelos bem enegrecidos e alisados, lábios rosados, nariz fino e olhos verde vivo. Ele sentiu que conhecia a garota, mas em sua mente ela o lembrava uma garota por quem se apaixonara em Avalon, Emanuela Goldemberg, no entanto Emanuela era loira e tinha os olhos bem azuis.

- Olá... – respondeu ele timidamente.

- Posso me sentar? – perguntou ela segurando um balanço ao lado de Kal.

- Claro.

- O que está fazendo aqui?

Ele olhou para as pessoas da companhia de luz, deu uma pequena risada e voltou à garota.

- Não acho um passatempo divertido assistir a troca de lâmpadas. – comentou.

A garota deu sorrisinho e então disse.

- Qual o seu nome?

- Kalevi Foster. – a garota eriçou as sobrancelhas, talvez assustada com a espontaneidade que ele demonstrara ao dizer o nome por completo – E o seu? – perguntou tentando se redimir.

- Sara. Sara Chiabai, já que você gosta assim.

Agora era a vez de Kal levantar às sobrancelhas incomodado com alguma coisa.

- Vocês nos mostraram nossa casa assim que chegamos na rua, não foi?

- Exatamente. Mas só não entendemos como não sabiam onde era a própria casa. Quero dizer... as pessoas olham as casas antes de comprá-las, não é?

- É que... é que... foi uma herança.

- Ah... e vocês moravam onde?

- Morávamos no Centro-Oeste do país.

- Goiás, Mato Grosso...?

- Pode ser... – disse Kal sem saber na verdade qual era o estado em que morava. Os bruxos não ligavam muito para a geografia dos humanos não mágicos.

Sara permaneceu curiosa, mas decidiu não perguntar mais nada sobre a antiga casa de Kal.

- Você mora aqui há muito tempo? – perguntou.

- Sim. Meus pais trabalham no centro da cidade e eu estudo no colégio do bairro. A propósito, você vai se matricular aonde?

- Hã... é...

- Ainda não decidiram?

- Acho que vou permanecer na minha antiga escola.

- Na Região Centro-Oeste?

- Não. Ela fica no Amazonas. No meio da... – Kal ponderou sobre o que ia dizer, estava se expondo demais, por um triz ele não dissera que sua escola ficava no meio da Floresta Amazônica, sobre uma nuvem, acima de uma cidade cheia de elfos, fadas e outras criaturas mágicas – No meio da capital.

- Oh sim... – disse ela achando que Kal tinha algum tipo de problema – Você tem irmãos não tem?

- Sim. Na verdade apenas o Daimon é meu irmão. Guinevere mora com a gente desde que os pais dela morreram, já faz um bom tempo isto.

- Vocês não gostam muito de se expor, não é?

- Aconteceram muitas coisas...

- Que coisas?

- Coisas difíceis de explicar... perdas, na verdade.

- Desculpe. – falou ela percebendo que estava entrando em um assunto delicado.

- Ainda estamos superando...

Sara permaneceu em silêncio, seu estoque de perguntas pareceu ter acabado após descobrir que os Foster estavam passando por um problema familiar um pouco mais grave do que as pessoas da rua comentavam.

- Coisas estranhas têm acontecido, não é? – disse ele.

- Defina estranho.

- Lâmpadas queimando, animais por toda à parte... a rua é sempre tão animada? – fingiu.

- Na verdade. – falou ela, pausadamente – Essas coisas começaram a acontecer depois que vocês se mudaram.

- Sério? – perguntou ele quase que convencido de que não sabia de nada a respeito.

- É o que as pessoas comentam.

- Incluindo você e seus pais?

- Não. Não nos intrometemos na vida das pessoas. Mas existem algumas pessoas por aqui que gostam de se preocupar com os outros. Bom dia, dona Alexia! – cumprimentou à mulher que disfarçadamente varria a calçada da esquina da rua – A frente já foi varrida hoje senhora!

- O que ela está fazendo ali? Aquela não é a sua casa? – perguntou Kal.

- Exatamente. Dona Alexia tem o péssimo hábito de ouvir a conversa alheia.

- Acho que entendo. – falou ele.

Neste momento Kal observou que Cacius saia de sua casa e começava a caminhar pela rua. Ele não sabia ao certo como o diretor chegava à Anomatí.

Talvez ele esfumace em um beco ou banheiro público. Pensou.

Kal observou Cacius descer a rua, pensou que talvez o professor iria até ele assim que passasse pela praça e imediatamente Kal planejou continuar a conversa com Sara para que pudesse disfarçar e fingir que não o notara. Kal Foster não estava com raiva ou rancor de Cacius. Os dois deram-se muito bem no ano anterior, na verdade. Cacius agira mais como um bom amigo do que como um professor, em Avalon, ele aconselhou e apoiou o garoto em situações difíceis e após a morte de seu pai, Adonis Foster, Cacius contara a Kal alguns segredos sobre Kricolas e o Livro de Merlin. Tornara-o seu confidente. Mesmo assim ele ainda sentia-se magoado porque Cacius aparecera minutos depois de Kricolas ter matado Adonis. Ele imaginava que se o professor tivesse aparecido mais cedo, talvez, os Foster ainda estivessem juntos em Vila da Cachoeira e não tivessem que se esconder tanto das forças malignas do meio-vampiro.

- Desculpe-me por eu estar fazendo outra pergunta, não quero que pense que sou como a Alexia. Mas quem é aquele senhor que vai até a sua casa todos os fins de semana?

- Um amigo da família. – respondeu Kal sorrindo.

- Ele parece ser uma boa pessoa. Parece ser um senhor calmo.

- Às vezes até demais. – falou Kal lembrando-se do ar sereno que Cacius mantinha em todas as ocasiões, por mais sérias e desesperadoras que sejam.

- Olhe, ele está conversando com os moradores.

Kal olhou para Cacius de imediato. Sara estava correta. O bruxo mais respeitado do Brasil, e provavelmente o melhor, estava parado diante um poste de luz a observar o serviço dos operários, como faziam os demais ao redor. Kal percebeu que se quisesse evitar Cacius aquela era a melhor hora de voltar para casa. Passaria despercebido pelo professor, que aparentava estar muito distraído e interessado pela curiosa técnica de se trocar lâmpadas de poste.

- Desculpe, Sara. – falou Kal olhando fixamente para a garota – Tenho que ir para casa.

- Tudo bem. – respondeu satisfeita – Vejo você depois?

- Ah... ah claro. – falou ele embaralhado – Você e seus pais ainda nos devem uma visita.

- Apareceremos em breve. – falou ela sem muita confiança no que dizia.

- Por que não vão jantar lá hoje? – sugeriu Kal sem nem ao menos pensar. Ele só percebera o que disse depois de as palavras já terem escapulido de sua língua.

- Sua mãe sabe deste convite? – perguntou ela.

- Oh, claro. Claro que sim. Na verdade eu vim justamente fazer o convite a vocês, mas vi que não tinha ninguém em casa e resolvi esperar aqui. – mentiu. Percebendo estar ficando bom em fazer isto.

- Tudo bem então. Vou dizer aos meus pais assim que eles chegarem do almoço.

- Se quiser... Pode levar alguém que seja especial para você também... – falou ele investigando.

- Oh, acho que... acho que não tenho ninguém em especial...

- Ok. Vejo você mais tarde então. É... então é isso. Até mais.

Kal virou o rosto antes mesmo que começasse a ficar vermelho, tinha certeza de que ela o acharia um idiota se isto acontecesse. Ele quis correr, mas também achou que os garotos não correm quando se despedem de uma garota. Ainda mais uma garota por quem se está desenvolvendo uma amizade.

Amizade, decididamente é isto. Disse Kal mentalmente.

Ele seguiu caminho com passos apertados, em certos momentos achou que iria tropeçar, mas, finalmente, conseguiu sair da praça e passar por Cacius, que estava tão entretido com o processo de troca das lâmpadas que nem ao menos o notou, ou pelo menos fingiu não ter notado.

Em casa, Amanda estava na cozinha sendo ajudada por Guinevere a fazer o almoço, uma das duas, Kal não distinguiu qual – a voz delas eram muito parecidas –, queixou-se de que não usar magia atrasava muito o serviço. Daimon estava na sala tentando ligar a televisão, que por vezes dera problema, assim como todos os eletrodomésticos da casa. Em sua primeira visita aos Foster, Cacius dissera que eles sofreriam com um problema chamado de radioestesia, que era causado quando há muita magia em determinado ambiente, tudo que utiliza energia elétrica sofre forte interferência mágica e entra em curto circuito. Este era o motivo real para as lâmpadas dos postes estarem queimando todas as noites. A magia irradiada pela casa deles gerava uma forte interferência nos postes que piscavam até que finalmente queimassem. Cacius explicou os eletrodomésticos funcionavam como copos de água cheios até a borda. E que utilizar magia perto destes objetos seria o equivalente a colocar mais água no copo. Quando ele transborda significa que o aparelho entrou em curto.

A nova casa dos Foster não era nem um pouco parecida com a mansão em que estavam acostumados a morar, onde Kal nasceu, literalmente dizendo, e onde passou sua turbulenta infância. Ao entrar na sala pela varanda da frente, chegava-se à sala, virando para a esquerda estavam a cozinha e copa, de onde Amanda e Guinevere estavam, e atravessando a sala passando ao lado da escada para o segundo andar estava um confortável banheiro. No segundo andar havia três quartos e um corredor. A casa era pintada de branca e o piso de alvenaria da mesma cor, que Amanda fazia questão de manter sempre limpo, mesmo que nunca ninguém o sujasse, ela insistia em limpá-lo, talvez para passar o tempo.

- Mamãe, temos visita para o jantar. – disse Kal enquanto subia as escadas para o segundo andar.

- Como assim? – perguntou ela vindo com um pano de prato enxugando as mãos.

Kal olhou para os lados, Daimon levantara-se do sofá e parou para fixar o olhar em Kal, assim como Guinevere fez em seguida.

- Os Chiabai, lembra?

- Kalevi, você deveria ter me consultado primeiro. Não sei se podemos recebê-los agora...

- Eu acho uma ótima idéia. – disse Cacius que acabara de abrir a porta.

- Professor... o senhor tem... certeza?

- Sim, por que não sra. Foster?

- Não sei, talvez não seja prudente... acho que não nos acostumamos muito bem com a situação...

- Pois eu acho que vocês já estão bem acostumados. – opinou.

- As lâmpadas da casa vivem piscando por causa da radioestesia, se ainda fosse de dia... não sei se vai ser uma boa idéia...

- Não se preocupe. Vamos dar um ótimo jantar.

- Obrigada, professor.

- O senhor está se convidando? – perguntou Kal indiscretamente.

- Kalevi Foster, não seja indelicado.

- Não faz mal Amanda. Não faz mal. Nós realmente não explicamos aos garotos a situação.

- Certo, professor. Meninos, venham até a cozinha aqui comigo.

- Amanda, se me permite, poderia eu mesmo dizer isto ao Kal?

Ela deu de ombros e então seguiu para a cozinha com Daimon e Guinevere. Cacius acompanhou com o olhar os três até que finalmente haviam desaparecido de sua vista, então se voltou a Kal.

- É algo difícil de se resumir. É muito mais significante do que podemos imaginar.

- Desculpe, mas eu vou subir.

- Eu lhe acompanho. – insistiu o professor.

Kal terminou de subir os degraus até o segundo andar e seguiu caminho pelo pequeno corredor até o seu quarto, no fundo estava curioso para saber o que Cacius queria dizer-lhe. Sentia vontade de abraçá-lo e chorar a morte de seu pai, contudo ainda assim queria culpá-lo por tudo aquilo estar acontecendo. Queria dizer que ele deveria ter detido Kricolas assim que chegou na Cidade dos Elfos disfarçado de Nicolas Weny, que deveria ter protegido melhor o Livro de Merlin, que deveria ter encontrado a Página Perdia antes de Kricolas e que deveria ter feito tantas outras coisas para impedir que Adonis morresse.

- Não adianta me culpar, Kal. – falou Cacius e Kal percebeu que o professor estava lendo seus pensamentos, porque os grandes bruxos têm habilidades para fazer isto.

- É costume seu espiar o que as pessoas estão pensando? – perguntou ele deitando em sua cama e passou a jogar uma bolinha de tênis para cima.

- Não preciso ler seus pensamentos para saber que você está me condenando aí dentro. – retrucou o professor com sutileza – Eu gostava tanto de Adonis quanto você, Kal.

- Mas não sente tanto a falta dele como eu. – disse, parando de brincar com a bola e olhando para o professor com um olhar cortante e gélido, cheio de rancor.

- Você ainda tem sua mãe, seu irmão, seus amigos. Várias pessoas já passaram pelo que você está passando agora. E todas elas cometeram o mesmo erro que você está cometendo. Culpar alguém inocente.

Kal sentou-se em sua cama e ele olhou para fora, viu o reflexo do lago em toda a sua serenidade. Se existisse algo mais calmo, com certeza este era Cacius.

- As pessoas que sofrem perdas graves procuram uma válvula de escape para que possam drenar todo o seu rancor. E acho que infelizmente eu sou a sua válvula.

Kal desviava do olhar do professor fingindo estar intrigado com algo em cima do guarda roupas de quatro portas a sua frente.

- Isto não vai adiantar. – insistiu o professor.

O garoto mantinha-se concentrado na difícil tarefa de ignorá-lo. Cacius não era o tipo de pessoa que abria a boca a todo instante e quando fazia isto, merecia toda a atenção possível.

- Me culpar não trará seu pai de volta, Kal.

- E o que trará? – perguntou ele virando-se para frente da cama de Daimon onde o professor estava parado, de pé.

- Não há como... sinto muito...

- Sempre há uma maneira.

- Bem que eu queria, Kal. Não só por Adonis. Esta semana Kricolas matou outro amigo.

Kal olhou curioso para o professor, não ouvira nada sobre o assunto. Geralmente os guardas de Warren que os protegiam informavam-lhes o que estava acontecendo pelo país, alguns deles conseguiam edições do Folha Mágica, o jornal mais popular entre os bruxos, mas talvez esta nova morte estivesse relacionada com o fato dos guardas terem subitamente desaparecido da Rua Guaçuí.

- O que houve, afinal? – perguntou Kal olhando fixamente para Cacius.

- Algo trágico aconteceu com Mardo.

- Kricolas matou o Ministro da Defesa e Segurança Mágica? – espantou-se o garoto.

- Não sei se matar é exatamente a palavra, talvez com mais calma eu pudesse lhe usar outro verbo, – Cacius tinha uma voz pesada quase como se ela estivesse sendo empurrada garganta acima – mas sim, Mardo está morto.

- Por que ele fez isto?

- Não saberia responder a esta pergunta. Há mais coisas na mente de Kricolas do que poderíamos entender.

- Professor. – chamou Kal e Cacius sentiu-se aliviado ao perceber que a raiva do garoto estava se esvaindo – No ano passado eu perguntei ao senhor quanto tempo Kricolas demoraria em traduzir todo o Livro de Merlin.

- E eu lhe disse que era impossível fazer esta previsão.

Kal assentiu.

- Continuo tendo a mesma opinião, se quer saber.

- O senhor já leu o livro? – perguntou Kal, com interesse.

- Algumas partes. A complexidade do livro não é verdadeira.

- Como assim?

- Isto depende de quem o lê.

- Quer dizer que...

- Quero dizer que o Livro de Merlin arma um labirinto para aquele que não têm boas intenções. Isto acontece com a maioria dos objetos criados por magia do bem.

Kal achou este detalhe de magia do bem algo bobo, mas no fundo agradecia por ela existir e ser precavida o suficiente para que os segredos mágicos mais poderosos do mundo não caiam em mãos erradas.

- Isto impedirá Kricolas?

- Esta é outra previsão impossível. Para um bruxo comum, o fato de a magia do bem estar contida no livro é o suficiente para que ele não entenda nem mesmo o significado da existência do referido objeto. Contudo, tratando-se de Kricolas, bem, ele é o bruxo mais velho do mundo, certamente, e tem muita experiência. É como eu já havia lhe dito, nós não sabemos quais os limites de seu conhecimento. Encontrar o Livro de Merlin sozinho foi uma verdadeira prova de sabedoria. A magia que protegia o livro também era magia do bem, e ele conseguiu burlá-la.

- Entendo... então os guardas de Warren foram prestar uma última homenagem ao seu ministro? É isso?

- Não teria explicado melhor. – falou Cacius simploriamente.

- Professor Cacius, tia Amanda pediu para chamá-lo para almoçar. – disse Guinevere ao colocar a cabeça para dentro do quarto.

- Oh, sim, minha querida. Creio que eu e Kal já tenhamos conversado bastante.

Quando Cacius preparava-se para sumir no corredor ele foi interrompido pelo som da voz de Kal.

- Professor, desculpe-me e... obrigado também.

Cacius sorriu para o garoto e deu uma piscadela com um de seus brilhantes olhos azuis, como se dissesse “sem ressentimentos”.

- Senti pena do ministro... – comentou Guinevere sentando-se na cama de Daimon.

- Eu também. É sempre uma pena. – falou Kal.

Guinevere era uma garota muito bonita e que se assemelhava muito à Amanda em alguns aspectos, mas a mãe de Kal tinha os cabelos negros e olhos azuis, enquanto Guinevere tinha os cabelos castanhos e olhos esverdeados, porém o jeito, a maneira de falar e a meiguice eram idênticas. Ela fora morar com os Foster quando ainda tinha seis anos, logo após a perda dos pais, que também haviam sido mortos por Kricolas em sua fuga de Warren.

- É doloroso, não é? – indagou a garota – Perder uma pessoa tão importante.

- Sim... – disse ele sabendo que Guinevere referia-se a Adonis agora.

- Eu perdi meus pais, e agora o tio Adonis...

- Pelo mesmo assassino.

- Ele vai pagar.

- Isso eu te garanto. Ele vai pagar sim.

Durante o almoço eles retornaram o assunto sobre o jantar com os Chiabai. Cacius convencera Amanda de que aquela era uma boa oportunidade para eles se entrosarem com a nova vizinhança, e que seria importante para ela fazer algumas amizades, de forma que tivesse com quem conversar quando Kal, Daimon e Guinevere retornassem à Avalon.

Já convencida, Amanda pediu algumas sugestões de pratos para impressionar os Chiabai com uma boa comida, Kal, Daimon e Guinevere sugeriram pizza, haviam viciado desde que comeram uma de presunto no dia da mudança, mas Amanda não achou que seria muito prudente. No final do almoço ela já estava muito empolgada com os visitantes, e ordenou que os meninos arrumassem a casa enquanto ela e Guinevere se viravam na cozinha para preparar o jantar.

Cacius despediu-se de Amanda, Kal, Daimon e Guinevere logo após o almoço dizendo que deveria se encontrar com alguns outros bruxos do governo, porém antes disso providenciaria um outro grupo de guardas para protegê-los, já que não poderia fazer este serviço por muito tempo. Amanda perguntou se ele estaria para o jantar, mas ele não foi muito preciso em sua resposta, ainda assim os quatro ficaram esperançosos de que o professor pudesse voltar a tempo para ajudá-los com a recepção.

Aquela seria a primeira visita não mágica que a família Foster receberia e eles não estavam muito certos de como agir, do que preparar ou dos assuntos que deveriam ser desenvolvidos durante a noite. Cacius sugeriu então que um deles fosse a uma banca de revistas próxima e comprasse alguns exemplares para que eles pudessem conhecer melhor o universo não mágico. Amanda apenas levantou o dedo num estalo e apenas disse:

- Ótima idéia.

terça-feira, 29 de abril de 2008

Imagem de divulgação

sábado, 22 de março de 2008

O Castelo de Avalon

Construído por Merlin, com alguma ajuda de Foster e outros bruxos da época, o castelo foi edificado em cima das nuvens de Cidade dos Elfos no momento em que a magia passou a ser mal vista pelos humanos não-mágicos.

Assim, Avalon passou a ser um lugar onde os bruxos poderiam praticar suas feitiçarias sem medo de retaliações.

Avalon é um nome comum na história de Merlin. Ele construiu várias outras, como a britânica, onde, supostamente, hoje é Glastonbury.

Várias histórias cercam Merlin, como o seu suposto envolvimento amoroso com Viviane, porém nenhuma delas é confirmada e provada pela história.

Alguns ambientes do castelo:

Primeiro andar – Sala de Clerigologia; Sala de Poções

Segundo andar – Sala de Feitiços (Roberta Skinger)

Terceiro andar – Salão de Katzin; Sala de Geomagia; Sala de Maldições; Sala de Feitiços (Tirso); Sala de Biomagia;

Quarto andar – Sala de Línguas; Enfermaria; Sala de Artefatos Mágicos

Quinto andar – Sala de aula de História; Salão de Tadewi; Diretoria

Sexto andar – Sala do Conselho Estudantil; Sala de Adivinhação

Torre do Sino – ponto mais alto da escola

quarta-feira, 12 de março de 2008

O passado de Amanda Foster

Amanda Jude Foster, nasceu na cidade de Aracruz – ES, em 1968, onde passou os doze primeiros anos da sua vida morando com os pais em uma área afastada da sede. De família humilde, Amanda estudou em casa e aprendeu noções básicas de magia com seus pais e a irmã mais velha, Lilith.

Aos treze anos, Amanda mudou-se para Cidade dos Elfos com uma bolsa de estudos para a Escola de Magia e Feitiçaria de Avalon. Lá ela se formou em 1985, quando foi trabalhar na sede do Governo como Auxiliar Da Inquisição de Criaturas Mágicas, no nordeste do país. Durante um trabalho, conheceu o jovem Adonis Foster, com quem se casou anos mais tarde, dando origem a dois descendentes, o que jamais acontecera na família Foster.

quarta-feira, 5 de março de 2008

Capítulo 1 - Kal Foster e o Mestre das Sombras

Para Mardo Runifer, o ministro da Defesa e Segurança Mágica, aquele dia fora o mais cansativo do mês de janeiro. Após as comemorações de natal e ano novo, todo o país parecera explodir em conflitos. Incidentes mágicos aconteciam por toda parte e o governo teve que dobrar o número de funcionários para inspecionar as cidades mágicas que a cada novo dia preocupavam-se menos em manter-se em segredo. Há mais de mil anos bruxos e não mágicos deixaram de viver juntos, os bruxos refugiaram-se em suas florestas, erguendo pequenas cidades protegidas por encantos de forma que nenhum humano não mágico pudesse descobrir sua existência.

Após a nova fuga de Kricolas, semanas antes, na Cidade dos Elfos, e o sepultamento de Adonis Foster, bruxos de todo o Brasil passaram a migrar para os países vizinhos em busca de proteção e apoio. Um número cada vez maior de pessoas anunciava ter visto carruagens voadoras e pessoas montadas em vassouras atravessando cidades inteiras. O Ministério do Segredo Mágico, responsável por manter secreta a existência de criaturas mágicas no Brasil, tentou contornar a situação enviando bruxos disfarçados de ufólogos. Eles se infiltravam na população destas cidades e espalhavam boatos sobre disco voadores e alienígenas. Em pouco tempo a situação foi controlada e as pessoas se convenceram de que não estavam vendo nada de mais, as carruagens voadoras na verdade eram “apenas aviões de teste”, pois era mais simples aceitar essa idéia que a de seres de outro mundo.

Com os humanos sob controle, o Governo, através do Ministério da Defesa e Segurança Mágica, alegou que ninguém corria riscos de permanecer no país e que não havia motivos para que as pessoas abandonassem suas casas. A fim de aliviar ainda mais as tensões, Mardo Runifer anunciou pelo jornal Folha Mágica, o maior tablóide mágico do país, que dois terços da Guarda Armada de Warren, soldados da maior penitenciária para bruxos e criaturas mágicas do país, estava fazendo rondas periódicas em busca de Kricolas e seus aliados, Elvira Lugunster e sua filha Tâmisa, que no ano anterior haviam contribuído para que o meio-vampiro roubasse o Livro de Merlin, o maior livro de magia do mundo e que fora escrito pelo próprio mago Merlin há quase mil anos.

Agora, o ministro Mardo chegava ao seu escritório exausto e louco para sentar-se em sua larga poltrona de espumas. A sede do Governo Mágico estava localizada entre os estados do nordeste do Brasil, onde nenhum humano seria capaz de chegar sem recorrer à magia. Escondido pela vegetação agreste e pela terra seca nordestina, o prédio de dois andares e de formato circular abrigava todas as repartições públicas e abrigava algumas salas particulares que eram alugadas para alguns empresários.

Mardo esfumaçara no corredor do segundo andar onde ficava sua sala, as luzes estavam apagadas, mesmo já sendo noite, e aparentemente todo o prédio estava vazio. Esfumaçar é a maneira mais prática de se deslocar de um lugar a outro para os bruxos, um tipo de teletransporte. Mardo arrastou sua pasta de couro embaixo do braço suado por causa do paletó marrom que trajava. A cabeça redonda e quase toda afetada pela calvície, suava a ponto de respingar no tapete vermelho estendido. Os últimos dias não haviam sido gentis com o ministro. “Muita pressão. Muita pressão”. Repetia ele.

Quando já se aproximava de seu destino viu que uma das salas no final do corredor à esquerda estava iluminada e decidiu ir até lá para espiar. Raramente alguém ficava no prédio depois das oito, mesmo em situações tão críticas. A única vez que isto acontecera fora há poucas semanas, no primeiro dia de trabalho do jovem Bernardo Mecflex, ou Escritor da Terra, como também era chamado.

- Quem diabos está naquela sala? – indagou-se Mardo quase enfurecido.

Não havia sons vindo de parte alguma e o corredor estava escuro quase que por completo, sua única fonte de luz era a da misteriosa sala.

- Algum funcionário irresponsável deve ter esquecido a lâmpada acesa. Estes incompetentes que me mandam. – bufou furioso – Nunca chegarão a lugar algum na vida, que desperdício de oxigênio, essa gente.

Em certo ponto a luz da sala se apagou e então Mardo soube que alguém estava ali ainda. Só não tinha idéia de quem poderia ser. Tateou no escuro enquanto procurava por sua varinha no bolso do paletó para iluminar o lugar. Sentiu-a entre os dedos, mas no momento em que ia sacar a varinha, deixou-a cair no chão. Bufando, abaixou-se para apanhá-la, assim que ergueu o gordo corpo para cima ele esbarrou em algum outro corpo fazendo-o desabar no chão num só baque.

Demonstrando uma agilidade tremenda, o ministro empunhou a varinha para frente, pronto para disparar o primeiro feitiço.

- Escap...

- Sou eu, ministro! – disse a pessoa que esbarrou em Mardo – Bolhasradiant!

Uma imagem quase espectral se conjurou na frente do ministro da Defesa e Segurança Mágica sob a fraca luz que incidia a sua frente.

- Dorian? – disse Mardo ajudando o outro a se erguer – Que raios de coisa está fazendo aqui uma hora desta?

- Ah, me desculpe, senhor. Estava terminando de ler os relatórios do Bernardo. Ele tem feito alguns progressos com os experimentos. O relatório diz que ele está próximo de um resultado satisfatório. – respondeu o bruxo que agora se mostrava mais visível.

- Não podia deixar isto para amanhã? – indagou.

- Estamos passando por um período de crise, senhor. Seria prudente terminarmos logo este serviço em especial. Acalmaria os ânimos das pessoas.

- Não estamos em um período de crise, Dorian, por mil chifres de unicórnios! Lembre-se disto, se quisermos que as pessoas acreditem que o país ainda é um lugar seguro para se viver devemos começar nos convencendo de que o é. Entendeu?

- Sim, senhor. – respondeu prontamente.

- Agora vá para casa. Descanse, pois amanhã será outro longo dia de trabalho.

- Tudo bem então, senhor. Tenha uma boa noite de sono.

- Se eu for dormir, você quer dizer. Sinto saudades quando meu maior problema eram duendes rebeldes e bruxos gatunos...

- Não se preocupe tanto, senhor, vivemos em um país seguro, lembra-se?

- Este é o espírito, Dorian, este é o espírito... até mais.

Dorian Gulemarc seguiu corredor afora carregando seus pouco mais de sessenta quilos e aparência esquelética, os cabelos totalmente desalinhados e um rosto exausto, onde as olheiras praticamente escondiam os olhos castanhos e o nariz parecia dobrar de tamanho a cada dia ganhando todo o espaço de onde deveria haver uma boca, que raramente se fechava.

Mardo retornou para seu caminho, ainda mais louco para sentar-se em sua poltrona de espumas, ficara ansioso por isto o dia inteiro. A mesa de sua secretária estava vazia, se não apenas por um copo de café. Todos os dias, antes de ir embora, ela preparava um pouco da bebida e depositava em sua mesa para que o ministro tivesse o que beber em sua ausência.

- Obrigado mais uma vez, Tifany. – agradeceu Mardo apanhando o copo após perceber que ele fora devidamente enfeitiçado para não esfriar.

O ministro despejou sua bolsa de couro na mesa largou o corpo em sua poltrona de espuma soltando um largo “ah” de satisfação. Bebericou seu café e começou a ler os bilhetes em sua mesa.

- Reunião com o presidente no sábado... ler relatórios de Bernardo Mecflex... enviar tropa de apoio aos guardas no sul do país... e ora ora. – disse o ministro parando de supetão e inclinando-se para frente – Um recado de Cacius! O que este velho caduco quer comigo?

Cacius, o diretor da maior escola de magia do Brasil, Avalon, de longe era um velho caduco. Ostentava o reconhecimento de maior autoridade em magia da América do Sul, acumulava prêmios de Honra ao Mérito reconhecidos internacionalmente e era um dos bruxos mais influentes no meio mágico, nos dias atuais. Raramente ele entrava em contato com pessoas senão de seu corpo docente, Cacius tinha a incrível habilidade de resolver seus próprios problemas sozinho. Coisa que muita gente não conseguia mais. Era isto que intrigava Mardo Runifer, o porquê do recado. Nele, Cacius solicitava que o ministro comparecesse ao seu escritório em Avalon para uma reunião imediata. O diretor não ocupava um cargo público, desinteressou-se pelo assunto após a primeira decepção, sua única prioridade era o bem estar dos humanos, bruxos, ou não, e demais criaturas mágicas.

- Quanta petulância! Eu sou o ministro e ele exige que eu vá vê-lo! – resmungou Mardo – Que se dane este velhote! Tenho muito mais com o que me preocupar. Na certa ele quer me mostrar aquele quadro esquisito em sua sala, francamente...

O quadro a que o ministro se referia era uma pintura a óleo de Merlin sob a sombra de uma macieira. Cacius dizia que aquele quadro era uma espécie de termômetro de perigo e que nos últimos dias tem alertado que o mundo está à beira de um colapso. Cacius insistia que o fato de Merlin estar olhando para os lados a todo o momento tem íntima relação com a liberdade de Kricolas e o fato dele ter adquirido o Livro de Merlin.

Em sua última conversa com o diretor da escola, Mardo havia deixado claro que não permitiria que Cacius se pronunciasse diante a população sobre o assunto. Relutante, Cacius foi obrigado a concordar, pois caso contrário teria sua escola fechada. E esta era a última coisa que ele queria.

- Estou te avisando, Mardo. É um grande engano. E você será o primeiro a pagar pelos seus erros... me escute, por favor – insistia o diretor – Não pode esconder a verdade destas pessoas. Não tem o direito... elas precisam saber a dimensão do perigo.

Segundos depois, sem nem mesmo dizer uma única palavra, Mardo saíra do escritório de Cacius.

Voltando ao presente, ele refutou o bilhete jogando-o em uma lixeira e passou a analisar os demais. Após uma breve olhada, segurou seu copo de café quente mais uma vez e reclinou na poltrona balançando-se de um lado ao outro.

Ele girava a poltrona até sua estante de livros, que acumulava volumes de diversos assuntos, ele rodava novamente e tinha uma visão privilegiada de toda a sua sala, com piso de madeira e tapete marrom, paredes também de madeira quase que completamente tapado por estantes, montes de caixas e papéis, sua mesa não era uma das mais arrumadas, havia vários relatórios por cima dela, penas, tinteiros, agenda e folhas de pergaminho em branco com o selo do governo. No teto pendia um lustre de vidro com uma das lâmpadas queimadas, era difícil mantê-las funcionando com tanta magia circulando pelo lugar.

Do lado oposto a sua estante estava uma janela que ia do chão ao teto, as cortinas estavam abertas e a fraca luz da lua iluminava o ambiente. Mardo continuou com sua brincadeira na poltrona por longos minutos até quase cair no sono. Lembrou-se de outros incidentes mágicos que haviam ocorrido nos últimos dias no mundo dos humanos, a maioria deles envolvia a aparição de uma estranha criatura grande, forte, enrugada e com par de asas de morcego. Kricolas.

O meio-vampiro estava de fato dando uma tremenda dor de cabeça ao ministro e todo o seu pessoal. Ele aparecia e desaparecia dos lugares como um fantasma. Nunca deixava pistas e jamais cometia erros. Suas ações eram sempre precisas e no tempo certo.

Há três dias ele aparecera no sudeste do país e atacara três homens que saiam de um bar. Com essas três vítimas o vampiro contabilizava vinte mortes desde Adonis Foster. Os corpos foram encontrados por uma senhora de meia idade na manhã seguinte. Ambos estavam com mordidas no pescoço. Na cidade o caso foi registrado pela polícia e apelidado de “O vampiro suga álcool”, devido ao estado de embriagues dos homens.

Stack.

Mardo levantou assustado com o que ouvira. O estalo pareceu ser dentro de sua própria sala. Parou por um instante. Analisou e apurou os ouvidos, mas não ouviu mais nada. Decidiu então perguntar.

- Dorian? É você? Já disse que pode ir para casa, homem. Vá descansar!

A voz ecoou pela sala, mas não houve resposta. Mardo decidiu que aquilo era apenas sua imaginação. Estou cansado. É só isso. Apenas cansaço.

Ele tocou o pé no chão para dar um impulso à cadeira para que pudesse voltar a se balançar de um lado para o outro novamente.

Girou o corpo para a estante. Depois para a janela. Estante. Janela. Estante... e quando pela quarta ou quinta vez que se virava para a janela sentiu cada pelo de seu corpo eriçar ao ver a fantasmagórica sombra formada a sua frente. O coração de Mardo quase saltou pela boca ao ver aquela figura horrenda dentro de sua própria sala.

- Feliz em me ver? – indagou Kricolas.

- O... o... que... fa...

- O que faço aqui? É isto que quer perguntar, seu gordo medroso? – Mardo continuava estático e Kricolas sorria mostrando seus dentes amarelos e desalinhados – Eu pensei em deixar hora marcada, mas achei que sua secretária não encontraria lugar na agenda para mim.

- O que... o que... o que você fez com ela seu maldito! – grunhiu Mardo tomando coragem.

- O que fiz com ela é passado, meu amigo. Deveria estar mais preocupado com o que vou fazer a você.

- Oras seu!

- Quanta valentia. Quem diria que por trás de tanta banha existe um espírito valente. – debochou Kricolas.

- Estou melhor do que você.

- Quero ver daqui a mil anos. – falou Kricolas irônico – É uma pena que não vá chegar nem aos cem.

- O que você quer de mim?

- Que sua equipe pare de me atrapalhar. Francamente! Eles estão por toda parte!

- Oras cale-se!

Kricolas avançou em direção de Mardo, agilmente, e dobrou seus dedos sobre a garganta do ministro dizendo:

- Não me dê ordens!

Mardo segurou o braço que Kricolas usava para sufocá-lo e então sentindo a respiração falhar balançou a cabeça assentindo que entendera bem o recado.

- Muito bom. Melhor que comecemos a nos entender cedo. – disse Kricolas soltando-o – Diga-me, onde está a família Foster!

- Não sei do que está falando. – desvencilhou Mardo.

- Não brinque comigo! Eu sei que o seu maldito governo tirou os Foster de Vila da Cachoeira!

- Realmente não sei do que você está falando...

- Mardo, seu inútil! Minha paciência está estourando. Quer me dizer onde-estão-os-malditos-Foster?

- E para quê? Já não arruinou o suficiente aquela família? Você já matou Adonis Foster! O que ainda quer? Matar três crianças e uma mulher? – indagou o ministro cheio de coragem.

- Bela atitude. Digna de elogios. Já que estamos nos entendendo tão bem, vou lhe contar o meu interesse neles.

- Vá para o inferno!

- Não me dê ordens! – berrou Kricolas mais alto do que um humano normal poderia gritar, uma voz gutural e cheia de ódio paralisou cada célula do ministro – Eu visitei o inferno em Warren, e não pretendo voltar para lá.

- Em pouco tempo você vai desejar estar lá.

- Por favor, ministro, tenha senso do ridículo. Em pouco tempo mestre Donnovan estará de volta! E eu governarei ao lado dele. Talvez eu use esta mesma sala quando estivermos no poder.

Mardo se contorcia na poltrona espiando por cima da mesa até a porta, torcendo para que ela se abrisse e que pelo menos dez guardas de Warren entrassem disparando feitiços para todos os lados e prendessem Kricolas definitivamente.

- Não seremos incomodados por guardas hoje ministro. – falou Kricolas como se tivesse lido a mente de Mardo – Certifiquei-me de que o prédio está vazio.

- Você sempre pensa em tudo, não é?

- Modestamente? Sim. – riu-se sardonicamente – Fazemos de tudo para sobreviver neste mundo, ministro.

- Cretino.

- Elogios não pouparão sua vida.

- E então? Qual o plano com os Foster? – perguntou Mardo para distrair Kricolas enquanto ele alcançava sua varinha no bolso do paletó.

- Achei que não estivesse interessado. – respondeu Kricolas dando as costas para o ministro.

- Ora, se vou morrer. Quero morrer sabendo alguma coisa.

- Isto foi quase filosófico.

- Vai me dizer?

Mardo ergueu a varinha com dificuldade, suas mãos tremiam e suavam muito. No momento em que preparava para dar o golpe certeiro em Kricolas, este virou-se mais rápido do que uma bala e fez com que a varinha de Mardo saltasse de sua mão e ficasse grudada no teto.

- Pensou que poderia me enganar?

- Parecia uma boa saída.

- Gosto do seu humor. – falou Kricolas após uma breve risada.

- Esta é a parte que você me convence a passar para o seu lado e ajudar você no seu plano maluco de ressurreição de Donnovan?

- Isto nunca foi uma opção, ministro.

- Bem, você recrutou a criada de seu pai e a filha e pelo que soube tentou persuadir o jovem Kalevi Foster a te seguir.

- Anda muito bem informado para alguém do governo.

- Por que o interesse em Kalevi?

- Kal para os íntimos.

- Você matou o pai dele!

- É minha maneira de começar uma amizade.

- Você é repugnante.

- Obrigado. – piscou – Muito bem então. Já que pretendo matá-lo, não há mal você saber o que planejo.

- Sou todo ouvidos. – confortou-se Mardo, ainda imaginando, esperançosamente, que mil guardas fossem entrar ali a qualquer minuto.

- O pequeno Foster tem o Enid de mestre Donnovan. E pretendo fazer com que este Enid domine todo o corpo e a mente de Kal.

Enid é a parte mágica de um bruxo, um tipo de alma que se recebe ao nascer. Crianças bruxas não choram ao nascer porque recebem um Enid. No entanto, há treze anos, quando Kal Foster nasceu, ele chorou feito um bebê humano qualquer e somente seis anos depois ele misteriosamente recebeu seu Enid. Naquele momento ninguém imaginou como aquilo poderia ser possível, mas no ano anterior, Kricolas contara ao próprio Kal como ele adquirira o Enid de Donnovan.

- Você é um porco imundo mesmo, Kricolas!

- Obrigado. Obrigado. Não é todos os dias que encontramos pessoas tão agradáveis como você.

- Você não passa de um covarde! Precisa do seu grande mestre para fazer com que as pessoas te obedeçam, não é? Você não é tão bom assim.

- Não se trata de covardia! – Kricolas bateu firme sua mão direita na mesa, o suficientemente forte para parti-la em alguns pedaços – E sim de lealdade!

- Quase mil anos já se passaram Kricolas... não há como trazê-lo de volta. Kal Foster não se renderá ao Enid de Donnovan.

- Eu sempre penso em tudo. Lembra-se?

- O que quer dizer?

- Se o pequeno Foster não quiser cooperar terei que fazer da maneira mais difícil.

- Retirar o Enid dele?

- C'est la vie. Kricolas dá, Kricolas tira.

- Você sabe bem que para fazer isto ele precisa estar...

- Morto. Isto mesmo. Vejo que não faltou a nenhuma aula na escola, ministro.

- Não vai ser tão fácil arrancar a vida de um aluno de Cacius, ainda mais sendo ele um Foster.

- Oras cale-se. Cacius não é problema para me preocupar. Já tirei o Livro de Merlin dele. O que pode fazer?

- Não duvide daquele velho.

- Quem te vê falando deste jeito pensaria que você é muito fiel a ele.

- Se cheguei aonde cheguei foi porque Cacius me apoiou.

- E parece que você não soube retribuir muito bem tantos favores.

Mardo calou-se ao olhar na lixeira o bilhete amassado.

- Termine logo com isto. Vamos!

- Disse para não me dar ordens. – falou Kricolas agarrando Mardo pela garganta mais uma vez – Será o seu fim!

Mardo examinou sua sala por um último segundo sabendo que aquela seria sua última visão. Ele passara tantos anos entre aquelas quatro paredes que aquele lugar havia se tornado seu segundo lar, sua maior fortaleza. Ele não era casado, tão pouco tinha filhos, e às vezes ele passava semanas ali. Seja lá para onde estivesse indo, sentiria saudade da sala número 219 da sede do Governo Mágico.

- Alguma última palavra? – indagou Kricolas.

Fazendo um esforço enorme, Mardo cuspiu no rosto do vampiro e disse:

- Vida longa a Kal Foster!

- Veremos. Boa noite ministro.

Como nunca antes, Mardo gritou, era pura dor e agonia, para sua sorte aquilo não durara mais do que cinco segundos. A sala foi impregnada por um forte odor de carne e sangue e Kricolas parecia sentir-se imensamente satisfeito.

- Você foi um tolo em não me contar a localização dos Foster. Bem, há outras pessoas com quem posso me informar. Os Scheiffer, por exemplo...

Enquanto olhava pela última vez o que fizera a Mardo, Kricolas ouviu passos vagarosos vindos do corredor do lado de fora da sala. Ele espiou por entre a porta e viu um vulto se aproximando cada vez mais rápido. Imediatamente, Kricolas se pôs em posição de ataque e assim que o vulto ficou a um metro da entrada da sala, ele abriu a porta e agarrou-o pelo pescoço.

- Não, por favor! – disse o homem – Estive procurando o senhor.

- Todos estão!

- Tenho um interesse em especial, senhor, meu nome é Dorian.

- Me dê um bom motivo para não fazer o mesmo que fiz com Mardo.

Dorian Gulemarc olhou horrorizado para o que deveria ser o corpo do Ministro da Defesa e Segurança Mágica, então voltou-se até o meio vampiro a sua frente e disse:

- Eu sei onde estão os Foster.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

O Brasão dos Foster


O Brasão da Família Foster é uma marca muito importante dentro do universo mágico brasileiro. Conhecida pela maioria dos bruxos, ele traz o “F” em destaque com alguns traços finos que refletem toda a excentricidade dos magos.

Desenvolvido pelo ferreiro Lucas Luciano Nicolage, no século XI, após um jovem descendente direto de Foster ter salvo sua família do ataque de criaturas mágicas, o brasão foi, inicialmente, pintado em bandeiras que eram penduradas nas janelas das casas de cada bruxo, pois acreditava-se que ele trazia proteção aos seus moradores. Nicolage era um artista talentoso da época e morreu pelos fins do século XII, aos 137 anos. Nicolage carregou o brasão dos Foster em seus trajes por toda a sua vida, e em seu túmulo, pediu que o cravassem com um feitiço antidesgaste.

O brasão foi aceito pelos Foster, que passaram a esculpi-lo em todas as suas obras, como no portão de ferro em Vila da Cachoeira.